Capítulo 5 UMA SOLICITAÇÃO E UM PAI PERIGOSO
Bruno narrando
Eu não conseguia tirar os olhos dela.
Era como se tivesse voltado no tempo e estivesse diante daquela menina de cinco anos atrás, a mesma Maju que vivia implicando comigo, ria das minhas besteiras e tinha uma resposta pronta para tudo.
Só que havia uma diferença enorme: a menina tinha crescido e se transformado numa mulher linda, inteligente e cheia de personalidade.
E eu estava começando a perceber isso de uma maneira que me deixava bastante desconcertado.
A verdade era que, quando éramos mais novos, cheguei a sentir uma atração por Maju. Ela sempre foi bonita, mas tinha alguma coisa no jeito dela que me chamava a atenção. Talvez fosse a espontaneidade, talvez a inteligência ou simplesmente a facilidade com que conseguia me fazer rir.
O problema era o pai dela.
Cadu era um homem respeitado, protetor e bastante atento à vida da filha. Não precisava dizer muita coisa para deixar claro que não gostava de ver os rapazes se aproximando dela com segundas intenções.
E, sinceramente, ninguém queria comprar aquela briga.
O homem não precisava nem levantar a voz. Bastava olhar para alguém com aquela expressão séria, e o sujeito já começava a rever as próprias escolhas.
Cadu era complicado!
Por isso, mesmo quando senti alguma coisa por Maju, nunca tive coragem de investir naquela possibilidade. Além de respeitar a amizade que tínhamos, eu não estava disposto a arrumar confusão com o pai dela.
Agora, cinco anos depois, ela estava de volta.
E eu precisava descobrir como lidar com isso.
Naquela noite, depois de voltar para casa, tomei um banho, comi alguma coisa e me joguei na cama. Peguei o celular e comecei a passar o tempo nas redes sociais, tentando relaxar depois de um dia cheio.
Foi quando apareceu uma publicação do meu pai.
Era uma foto com o pessoal que estava reunido na praça mais cedo. Ele havia registrado a partida de truco, as cervejas e a nossa pequena reunião, como costumava fazer quando estava de bom humor.
Passei os olhos pela imagem até encontrar quem estava procurando.
Maju.
Meu pai tinha marcado o perfil dela na publicação.
Não pensei duas vezes antes de clicar.
A foto do perfil mostrava uma mulher bonita, com um sorriso que eu reconheceria em qualquer lugar. Entrei na página e comecei a olhar as publicações disponíveis.
Havia fotos da formatura, registros de viagens e imagens que mostravam um pouco da vida que ela tinha construído longe dali.
Fiquei orgulhoso ao ver a conquista da faculdade.
Maju tinha conseguido!
Sempre soube que ela era estudiosa, mas ver o diploma e perceber que havia realizado aquele sonho me deixou genuinamente feliz.
Continuei olhando por mais alguns instantes até perceber que ela estava online.
Meu dedo ficou parado sobre a tela.
Será que eu mandava uma solicitação?
Era uma coisa simples. Éramos conhecidos desde crianças, tínhamos passado boa parte da adolescência juntos e, agora que ela estava de volta, não havia motivo para agir como um estranho.
Pelo menos, foi essa a justificativa que encontrei para fazer o que fiz.
Enviei a solicitação.
Pronto.
Agora era só esperar.
Continuei mexendo no celular, voltei à página inicial e abri outras publicações. De vez em quando, porém, retornava ao perfil de Maju para conferir se ela havia aceitado.
Nada.
Passaram-se alguns minutos.
Nada.
Ela continuava online.
E a solicitação continuava lá, esperando.
Franzi a testa.
— Ah, não! — murmurei.
Eu não estava entendendo por que aquilo estava me incomodando tanto. Não era como se ela tivesse alguma obrigação de aceitar. Talvez estivesse ocupada, talvez não tivesse visto a notificação ou simplesmente quisesse organizar as solicitações depois.
Havia inúmeras explicações razoáveis.
Meu orgulho, entretanto, resolveu ignorar todas elas.
Fiquei frustrado, sim!
E o pior era saber que, se meu pai descobrisse que eu estava conferindo o celular por causa de uma mulher, passaria o resto da vida me perturbando.
Decidi deixar o telefone de lado.
Eu tinha uma barbearia para administrar e uma vida que não podia ficar suspensa porque Maju ainda não havia apertado um botão.
Pelo menos, era isso que eu tentava convencer a mim mesmo antes de dormir.
Na manhã seguinte, a barbearia estava uma verdadeira correria.
Era dia de baile, e os rapazes queriam estar impecáveis. Uns procuravam cortes novos, outros pediam aquele acabamento bem alinhado, e sempre havia alguém que chegava dizendo que precisava ficar pronto em cinco minutos.
Cinco minutos!
Como se um bom corte de cabelo fosse feito com um passe de mágica.
— Bruno, dá para adiantar o meu? — perguntou um dos rapazes, olhando para o relógio.
— Dá, sim. É só você sentar na cadeira e ficar quieto por dez minutos.
Ele riu.
— Dez minutos? Quero sair daqui voando!
— Então procura um aeroporto, porque aqui você vai ter que esperar sua vez.
Os outros começaram a rir, e eu voltei ao trabalho.
Apesar da correria, gostava daquele ambiente. A barbearia era uma conquista minha, um espaço que construí com dedicação e que me dava orgulho. Investia em bons produtos, equipamentos e profissionais, porque queria que os clientes encontrassem ali um serviço de qualidade.
Não era apenas cortar cabelo.
Era oferecer um lugar onde os caras pudessem conversar, relaxar e cuidar da aparência. A choperia ajudava a completar o ambiente, e eu tinha planos de ampliar os serviços conforme o negócio continuasse crescendo.
Enquanto trabalhava, ouvi a porta abrir.
Meu pai entrou acompanhado de Cadu.
Pronto.
Lá vinha problema.
Os dois tinham uma habilidade impressionante para aparecer justamente quando eu estava ocupado.
— Bom dia, empreendedor! — meu pai anunciou, abrindo os braços.
Continuei trabalhando.
— Bom dia. Se veio cortar o cabelo, pega uma senha.
— Olha a falta de respeito!
Cadu riu e puxou uma cadeira.
— Esse menino está ficando convencido.
— Estou aprendendo com os melhores — respondi, olhando para meu pai.
Ele colocou a mão no peito, fingindo emoção.
— Meu filho me admira!
— Não foi isso que eu disse, coroa.
Os dois começaram a rir.
Depois de algumas brincadeiras, eles se acomodaram e começaram a conversar sobre um projeto que Maju pretendia desenvolver na comunidade.
Pelo que entendi, ela queria colocar seus conhecimentos de Engenharia em prática, estudar as necessidades do lugar e pensar em melhorias que beneficiassem os moradores.
Achei a ideia interessante.
Maju sempre teve uma visão prática das coisas. Se estava disposta a trabalhar num projeto daqueles, provavelmente já havia pensado em várias possibilidades.
— Pelo que ela explicou, pode ficar muito bom — comentou Cadu, demonstrando orgulho. — Minha filha tem boas ideias.
Meu pai concordou.
— E agora está formada. É bom ver os jovens usando o que aprenderam para melhorar as coisas por aqui.
Continuei ouvindo a conversa enquanto atendia um cliente.
Eles falaram sobre possíveis melhorias, planejamento e a importância de avaliar tudo com cuidado antes de começar qualquer obra. Era um assunto que me interessava, porque qualquer iniciativa que ajudasse a comunidade também poderia beneficiar os negócios locais.
Estava prestando atenção quando Cadu olhou para o relógio.
— Rapaz, preciso ir ali rapidinho.
Ele se levantou tão depressa que meu pai até interrompeu a conversa.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei.
— Não. Já volto.
E saiu apressado.
Nós três que estávamos mais próximos da porta acompanhamos sua movimentação com curiosidade. Do lado de fora, ele encontrou alguém na calçada.
Não demorou para reconhecermos Maju.
Ela estava descendo a rua, usando uma saia que, aparentemente, havia despertado a preocupação imediata do pai.
Cadu começou a conversar com ela, apontando discretamente para a roupa. Maju, por sua vez, parecia se divertir muito com a situação.
Mesmo de longe, dava para perceber o sorriso debochado que ela exibia enquanto o pai tentava convencê-la de alguma coisa.
Então ele fez um gesto na direção da saia, ajeitando a barra para baixo, como quem tentava garantir que a filha não saísse por aí com a roupa mais curta do que considerava apropriado.
Maju revirou os olhos, mandou um beijo na direção dele e continuou caminhando.
Os rapazes que acompanhavam a cena começaram a rir.
Meu pai precisou se apoiar no balcão.
— Não é possível! O Cadu continua o mesmo!
Eu também estava rindo.
Cadu voltou para dentro pouco depois, com o rosto avermelhado e uma expressão de quem acabara de perder uma batalha importante.
— Não quero ouvir ninguém comentando o que acabou de acontecer — avisou.
Aquela frase foi suficiente para provocar uma nova onda de gargalhadas.
— Ninguém falou nada, compadre — meu pai respondeu, tentando recuperar a compostura.
— Mas está todo mundo rindo!
— É porque você é um homem muito engraçado.
Cadu apontou para ele.
— Você não me ajuda!
Eu estava prestes a fazer algum comentário quando meu celular apitou em cima do balcão.
Como minhas mãos estavam ocupadas, olhei para Cadu.
— Faz um favor para mim? Pega meu celular ali, por gentileza.
Ele pegou o aparelho sem pensar muito.
Só que, assim que a tela acendeu, sua expressão mudou.
Primeiro, ele olhou para o telefone.
Depois, para mim.
E, por último, voltou a olhar para a tela, como se estivesse conferindo se havia entendido direito.
Meu estômago afundou.
Eu conhecia aquela expressão.
Era a mesma que ele fazia quando descobria alguma coisa que não deveria ter descoberto.
— Bruno…
O tom de voz dele me fez largar o pente.
— Fala, Cadu.
Ele ergueu o celular.
— Por que você está mandando solicitação para a minha filha?
Silêncio.
Um silêncio absoluto.
Os rapazes que estavam esperando atendimento viraram a cabeça na mesma hora.
Meu pai abriu um sorriso tão grande que tive vontade de jogar uma toalha na cara dele.
— O QUÊ? — meu pai exclamou. — Bruno, você está querendo virar meu genro e não me contou nada?
— Ah, pronto! — reclamei.
As gargalhadas começaram imediatamente.
Um dos rapazes bateu na bancada.
— O homem nem aceitou o pedido ainda e já está querendo casar!
— Cala a boca! — respondi, tentando não rir.
Cadu continuava segurando meu celular.
— Estou esperando uma resposta, Bruno.
Respirei fundo.
— Qual é o problema? Eu conheço a Maju desde pequeno. Ela voltou para a comunidade, encontrei com ela ontem e mandei uma solicitação. Só isso!
Ele estreitou os olhos.
— Só isso?
— Só isso!
Meu pai passou o braço pelos ombros de Cadu.
— Deixa o menino, compadre. Vai que ele está interessado em construir uma família. Você já pensou nos netos?
— Não começa você também! — Cadu respondeu.
Meu pai estava se divertindo como se tivesse acabado de ganhar na loteria.
Eu, por outro lado, queria encontrar um buraco no chão e desaparecer.
Porque o pior não era a zoação.
O pior era que, enquanto tentava convencer todo mundo de que aquela solicitação não significava nada demais, eu sabia que não estava sendo completamente sincero.
Eu queria conversar com Maju.
Queria me aproximar dela.
E, sim, havia pensado na possibilidade de descobrir se poderíamos ser mais do que amigos.
Só não esperava que meu interesse fosse virar assunto público antes mesmo de ela aceitar meu pedido.
Cadu finalmente devolveu o telefone, mas não sem antes me lançar um olhar desconfiado.
— Estou de olho em você, rapaz.
— Eu não fiz nada!
— Ainda — meu pai acrescentou, caindo na gargalhada.
Foi a gota d'água.
Cadu virou para ele.
— Você está incentivando isso?
— Estou apenas apoiando o amor!
— Amor coisa nenhuma! Eu vou matar esse menino!
Quando percebi que ele estava avançando na minha direção, larguei tudo e saí correndo pelos fundos da barbearia.
— Cadu, pelo amor de Deus! Foi só uma solicitação!
— VOLTA AQUI, BRUNO!
Meu pai ria tanto que mal conseguia falar.
Os rapazes se afastaram para abrir caminho, alguns ainda gargalhando, enquanto eu tentava escapar de Cadu sem derrubar nada pelo caminho.
— EU VOU TE PEGAR, MOLEQUE!
— O SENHOR PRECISA RESPEITAR UM EMPREENDEDOR!
— EMPREENDEDOR É A MINHA MÃO!
Corri mais rápido.
Eu tinha certeza de que aquela história ainda renderia muita dor de cabeça.
E o mais absurdo era que tudo havia começado com uma simples solicitação nas redes sociais.
Uma solicitação que Maju nem sequer tinha aceitado.
Mas, enquanto eu escapava do pai dela e ouvia as gargalhadas vindas da barbearia, não conseguia evitar um sorriso.
Talvez eu estivesse me metendo numa confusão enorme.
Talvez Cadu realmente transformasse minha vida num inferno se descobrisse que eu queria me aproximar da filha dele.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, havia algo que eu queria descobrir mais do que temia as consequências.
Eu queria saber se aquela menina que conheci tantos anos atrás poderia se tornar a mulher que escolheria caminhar ao meu lado.
E, se para descobrir isso eu precisasse sobreviver ao mau humor do futuro sogro…
Bom, eu ainda teria muito trabalho pela frente.
Continua… ❤️
