Capítulo 1 LARISSA
(O molde de ferro antes de São Paulo)
Meu nome é Larissa Mendes. E a vida me ensinou, da pior maneira possível, que fraqueza é um luxo que eu não posso bancar.
Meu cabelo é tão negro quanto uma noite sem estrelas, liso, espesso e pesado, caindo em cascata até a cintura como se tivesse a urgência de chicotear o chão. Minha pele, marcada pelo sol implacável, carrega um dourado persistente, a prova física de que resisto ao tempo, ao clima e a qualquer força externa que tente me moldar. Minhas sobrancelhas são grossas, arqueadas e imponentes, a moldura de um rosto que não pede licença para existir e muito menos perdão por ocupar espaço. Minha boca, cheia e vibrante, quase sempre pintada em tons terrosos e escuros, é o lembrete diário de que aprendi a estar armada e pronta para o abate, mesmo quando o cansaço tenta corroer meus ossos.
Quando puxo meus fios e os amarro em um rabo de cavalo alto, puxando até o couro cabeludo arder, não é vaidade. É um ritual de guerra. É o meu estandarte, um grito silencioso por foco absoluto e disciplina cega. É o lembrete cravado na minha própria pele: nada me quebra sem que eu lute até arrancar sangue.
Ouso dizer que meu perfume é invasivo, minhas roupas são uma armadura impenetrável. Uso uma saia lápis que abraça minha silhueta sem pedir desculpas e uma camisa perfeitamente alinhada que exala autoridade. Meu relógio é frio, de metal pesado, e meus saltos agulha batem no chão como martelos ditando o meu próprio ritmo. Cada milímetro da minha aparência é calculado. Eu não nasci forte. Fui forjada a ferro e fogo para me tornar indestrutível.
Os doze anos e a espinha dorsal de aço
Meu mundo foi dilacerado cedo demais. Eu tinha apenas doze anos quando a morte levou meus pais em um acidente de carro brutal, transformando metal retorcido no caixão da minha infância. Era um sábado banal, letárgico, até o telefone gritar na sala e o pânico engolir o ar da casa, substituindo tudo por um silêncio sufocante e pesado. A imagem do par de chinelos do meu pai, largados de qualquer jeito na porta da cozinha, tatuou-se na minha mente uma lembrança ordinária que se transformou em uma hemorragia incurável na alma.
No velório, eu fui uma estátua. O choque paralisou minhas cordas vocais e secou meus canais lacrimais. Não derramei uma única lágrima; meu corpo simplesmente entrou em estado de defesa máxima. Mas três dias depois, numa manhã congelante, meus joelhos cederam e eu desabei contra o piso de azulejo frio da casa da minha avó. E foi ali, sentindo o cheiro de pudim de leite condensado que esfriava no balcão contrastando com o amargo da morte, que recebi minha primeira e mais letal lição.
Ela agarrou meu rosto, as mãos ásperas de trabalho, e ordenou:
— Chora, minha filha. Água parada apodrece. E você não vai apodrecer.
O alicerce que me reergueu
Meus avós, Zuleide e Agenor, tornaram-se o meu único norte. Ela, uma mulher pequena, mas com uma postura inabalável, era capaz de multiplicar pães e operar milagres no fogão velho. Ele, um homem de costas largas, calos nas mãos e uma sabedoria cortante, disparava frases curtas que valiam mais que qualquer código penal: "Não deve, não teme."
Essa frase foi a minha primeira constituição moral. O pilar do meu caráter, muito antes de eu abrir o primeiro Vade Mecum.
Aos treze, eu já assumia as rédeas da sobrevivência. Cozinhava, lavava e atravessava o caos da cidade de ônibus sozinha, com a espinha reta e o olhar de quem não aceitava intimidação. O vazio deixado pelos meus pais rasgava meu peito nas madrugadas, mas eu o engolia seco. Meu avô me esperava no portão da escola com pães de queijo enrolados num guardanapo pardo e café forte na garrafa térmica. "Pra não enfrentar o mundo de barriga vazia", ele dizia. E eu aprendi a devorar o mundo antes que ele me devorasse.
A adolescência como trincheira de guerra
Aos quatorze, entendi que a palavra "NÃO" era a minha arma mais letal. Não era falta de educação, era preservação. Aos quinze, eu era o muro de concreto onde minhas amigas desabavam quando a vida batia nelas. Eu não chorava junto; eu as mandava engolir o choro e bater de volta. Li Carolina Maria de Jesus antes mesmo de decorar os artigos da Constituição Federal. E entendi rapidamente que a lei, o papel e a tinta, só servem para quem tem dentes afiados o suficiente para morder e exigir sua dignidade.
Aos dezesseis, criei meu ritual de resistência inegociável. Unhas lixadas e pintadas como garras toda sexta-feira, cadernos milimetricamente organizados, metas traçadas a caneta vermelha. Eu parava diante do espelho trincado do meu quarto, olhava fundo nos meus próprios olhos escuros e decretava: "Você vai sair daqui com poder. Ninguém nunca mais vai olhar de cima para você."
A cicatriz chamada Gustavo
Eu cometi um único erro de cálculo na minha trajetória: tentei acreditar no amor aos dezessete anos. Baixei a guarda para a pior raça de homem que existe o manipulador mascarado de protetor.
Ele se chamava Gustavo. Tinha a aparência de um bom rapaz, palavras mansas e um sorriso calculadamente acolhedor. No início, era um teatro perfeito. Mensagens nas madrugadas, demonstrações de carinho excessivas. Mas logo percebi que a devoção dele era, na verdade, uma coleira.
O cuidado virou interrogatório. "Onde você está? Por que visualizou e não respondeu? Com quem você estava conversando?"
Na primeira vez que ele alterou o tom de voz comigo, meu sangue gelou, mas eu silenciei. Na primeira vez que os dedos dele apertaram meu braço, deixando marcas arroxeadas na minha pele dourada, eu arrumei uma desculpa inútil. Mas no dia em que ele ousou me empurrar contra a parede, prendendo meus pulsos e tentando me subjugar à força, o demônio adormecido dentro de mim acordou.
Quando eu disse "NÃO", a voz dele tentou sobrepor a minha. Ele não escutou o meu aviso. E foi ali que eu devolvi o empurrão com o dobro da força, cravando minhas unhas no pescoço dele até ver o pânico substituir a arrogância nos olhos daquele covarde.
Foi a ruptura definitiva. A tatuagem na minha alma que forjou a minha regra de ouro: nenhum homem jamais vai me dobrar. Aprendi de forma brutal que afeto mal administrado é invasão e prisão. Eu fiz um pacto com o diabo, ou com Deus, ou comigo mesma. Minha pele virou titânio e meu coração, uma muralha impenetrável. Entendi, naquele corredor estreito, que a verdadeira submissão só é aceitável quando é uma escolha consciente, um jogo de poder onde eu decido quando, como e para quem eu me entrego.
A obsessão e o terno de armadura
Passei no vestibular de Direito aos dezessete, estudando de madrugada em uma mesa de plástico bamba, com o barulho ensurdecedor da vizinhança rasgando meus ouvidos. Quando meu nome apareceu na lista dos aprovados, vi minha avó chorar copiosamente, enquanto meu avô disfarçava o orgulho engolindo em seco.
Na faculdade, eu não era apenas uma aluna. Eu era uma máquina. Aos dezoito, destruí a argumentação de um professor veterano em um júri simulado, sem alterar o tom de voz e sem piscar. Aos dezenove, na Defensoria Pública, mergulhei no submundo das agressões domésticas. Mulheres quebradas, humilhadas. Absorvi cada gota daquela miséria e transformei minha repulsa em combustível adulterado para a minha ambição.
Aos vinte e dois, comprei meu primeiro terno preto, com um corte afiado e ombros estruturados. Aquilo não era roupa. Era minha cota de malha. A lei não é só um amontoado de artigos, é a faca que eu decidi empunhar. Eu aprendi a ser fria, calculista, a rir da cara do perigo e a esmagar o ego de homens engravatados sem sequer amassar a minha saia.
Eu sou filha da tragédia, neta do suor e da sobrevivência. Uma mulher de aço puro. E nunca, sob nenhuma circunstância, eu abaixo a cabeça.
A virada: São Paulo e o covil do leão
O jogo mudou em uma terça-feira. Um dos meus mentores na faculdade, impressionado com a minha frieza e agressividade nos tribunais simulados, me indicou para uma vaga no maior império jurídico de São Paulo. Não era um escritório qualquer. Era a firma de Victor Alencar.
O nome dele circulava nos corredores como uma lenda urbana ou uma maldição. Advogado bilionário. Trinta e cinco anos. Arrogante ao extremo, prepotente, um ditador engravatado que destruía carreiras antes do almoço. Diziam que ele entrava nas salas e o oxigênio sumia. O tipo de homem que não pede absolutamente nada. Ele exige. Ele ordena. E espera que todos rastejem aos seus pés.
Quando recebi a proposta, eu sorri. Um sorriso letal. Que Victor Alencar tentasse me fazer rastejar. Ele ia descobrir rapidamente que os joelhos de Larissa Mendes não dobram para macho nenhum.
Na quarta-feira, liquidei minha vida antiga. Organizei documentos, rescindi meu contrato no estágio e fiz as malas. No nosso último jantar, a despedida teve gosto de arroz, feijão grosso e um bife acebolado feito na panela de ferro. Minha avó me olhava com um misto de saudade e certeza. Meu avô ergueu um copo americano e sentenciou:
— Engole a cidade grande antes que ela te engula. Mostra pra eles de onde você veio.
O embarque
Coloquei minha vida em duas malas estruturadas, levando apenas a essência: minha disciplina implacável, o retrato dos meus pais, o terço de madeira do meu avô e a minha ambição desmedida. Pintei as unhas com um esmalte vermelho-sangue denso, calcei meus saltos agulha e passei um hidratante de notas amadeiradas e intensas, exalando poder. Antes de sair, escrevi com meu batom escuro no espelho do quarto: "Pronta para o abate."
No portão de casa, abracei meus avós com a intensidade de quem sabe que está indo para o front de batalha. Minha avó enfiou um pacote de biscoito de polvilho na minha bolsa de couro estruturada.
— Pra você não esquecer da sua raiz, Larissa.
Meu avô me entregou um maço de notas amarradas com elástico. "Pra esmagar quem tentar te diminuir."
Enquanto o táxi me levava para a rodoviária, eu não chorei. Eu não olhei para trás com pena de mim mesma. Eu assisti a minha antiga cidade sumir pelo retrovisor, consciente de que estava enterrando a garota ferida para dar lugar à mulher letal.
