Capítulo 2 Victor
VICTOR ALENCAR
(O Predador no Topo da Cadeia — São Paulo)
Meu nome é Victor Alencar, e tenho trinta e cinco anos. Sou um homem de 1,87m de altura, com ombros largos e costas robustas. Meu corpo não foi esculpido apenas pela disciplina inflexível dos treinos pesados, mas por suportar, desde que me entendo por gente, o peso do império que fui destinado a comandar. Minha pele carrega um tom quente, marcado pelo sol nas poucas horas em que me permito estar fora das quatro paredes de vidro do meu escritório, e pelas guerras silenciosas que travo e venço diariamente. Minha mandíbula é rígida, sombreada por uma barba cerrada e milimetricamente aparada, a moldura perfeita para olhos escuros, densos e predatórios — o tipo de olhar que paralisa, disseca e intimida qualquer oponente antes mesmo que eu precise abrir a boca para disparar a primeira ordem.
Não uso adereços como meros enfeites. O relógio suíço de valor inestimável no meu pulso, as abotoaduras de ouro maciço e os ternos escuros, costurados sob medida com os tecidos mais caros da Europa, não são vaidade. São declarações de guerra. São o símbolo palpável do meu território, do legado que não apenas herdei, mas que multipliquei com ferocidade. Cada detalhe que me compõe é um reflexo do meu domínio absoluto.
Visto o poder como uma segunda pele. Uma camisa social de seda escura, impecavelmente alinhada, calças de corte perfeito e sapatos italianos que ecoam no mármore, anunciando a minha chegada como um trovão antes da tempestade. O meu perfume é amadeirado, denso, invasivo. Ele se infiltra no ambiente, preenche o ar e permanece muito tempo depois que eu já fui embora, como uma marca territorial. Não peço licença para entrar em nenhum lugar. Quando eu cruzo uma porta, o oxigênio é meu. A presença não se implora; ela se impõe, se crava na garganta dos outros. E eu sou o dono de cada sala em que piso.
Infância forjada em mármore, sangue e ferro
Nasci no epicentro do poder, em um berço cercado por mármore frio e expectativas implacáveis. Meu pai, Roberto Alencar, não era apenas um advogado criminalista; ele era um deus nos tribunais de São Paulo, o homem que fazia juízes suarem frio e promotores gaguejarem. Minha mãe, Helena, era a única âncora de humanidade em uma casa onde a fraqueza era tratada como uma doença contagiosa. Ela tentava me ensinar compaixão, me lembrando de que o poder sem controle era apenas tirania. Mas no mundo dos Alencar, a tirania muitas vezes era a única linguagem que os idiotas compreendiam.
Eu nunca soube o que era escassez material, mas a disciplina era uma corda atada ao meu pescoço. Enquanto os garotos da minha idade desperdiçavam o tempo brincando nas ruas ou jogando videogame, eu era forçado a sentar no escritório do meu pai, ouvindo debates brutais sobre jurisprudência, chantagens corporativas e destruição de reputações. Aos dez anos, eu sabia exatamente como funcionava um habeas corpus. Aos doze, eu devorava o Código Penal e os livros de Processo Civil com a mesma fome predatória que um animal tem pela carne. Meus parques de diversão eram as salas de audiência. Meus brinquedos, os processos arquivados.
A fornalha da adolescência e a aniquilação do erro
Minha adolescência não foi uma fase de descobertas idiotas; foi um campo de treinamento militar. Uma fornalha projetada para queimar qualquer traço de mediocridade. Enquanto meus colegas se embriagavam em festas fúteis, eu dissecava falhas em peças jurídicas, aprendendo a arte da retórica letal. Enquanto eles tentavam impressionar garotas com carros que os pais compravam, eu aprendia a sustentar um silêncio opressor, a olhar nos olhos de um homem mais velho e fazê-lo desviar o olhar primeiro.
Meu pai era um ditador. Ele abominava falhas. A frase que mais ouvi na vida foi dita com o dedo apontado para o meu peito: "O sobrenome Alencar não rasteja, Victor. Ele esmaga. Ele dita as regras. Se você baixar a cabeça, eu mesmo a corto." Notas abaixo da perfeição eram punidas com o silêncio gélido do desprezo. A vulnerabilidade era um defeito de fábrica inaceitável. Foi nesse inferno de pressão que absorvi minhas duas maiores verdades: a excelência não é uma opção, é um dever; e confiar nos outros é a maneira mais rápida de colocar uma bala na própria cabeça.
Essa criação me blindou. Fez de mim uma máquina. Mesmo rodeado por dezenas de pessoas, circulando pela alta sociedade de São Paulo, eu sempre fui intocável. Fui treinado para aniquilar, para vencer, e nunca, sob nenhuma hipótese, para abrir o meu peito e entregar o controle a alguém.
A escalada e o domínio da arena
Aos dezoito, o curso de Direito na melhor universidade do país não foi uma escolha, foi a coroação de um destino inadiável. Lá, a minha reputação de bastardo arrogante e intocável não apenas nasceu, mas se solidificou como concreto. E sim, eu era arrogante. Eu tinha o direito de ser. Enquanto os imbecis ao meu redor lutavam para decorar artigos para passar nas provas, eu já estava desenhando estratégias complexas para desmantelar testemunhas e destruir oponentes em tribunais simulados. Eu não queria apenas a nota. Eu queria a humilhação do adversário.
As mulheres, naturalmente, gravitavam em torno da minha gravidade. O poder é o maior afrodisíaco que existe. Elas sentiam o cheiro do meu controle a quilômetros de distância e se ofereciam em bandejas de prata. Eu sempre soube como usá-las, como consumi-las. Mantinha relacionamentos curtos, noites longas e intensas, foda suja, dura e sem amarras. A cama sempre foi um território fácil de explorar, um lugar onde o meu comando era absoluto. Mas o coração? Esse estava trancado em um cofre submerso onde ninguém tinha a senha.
Aos vinte e dois, recusei a cadeira macia no escritório do meu pai. Queria o gosto do meu próprio sangue na boca. Queria provar que eu era o monstro, e não apenas o filho do monstro. Fui para escritórios menores, peguei a escória, os casos impossíveis que ninguém queria tocar. Aprendi rapidamente que a lei é apenas uma sugestão nas mãos de quem tem o estômago mais forte. Nos tribunais, você não ganha só com a Constituição debaixo do braço. Você ganha com o terror que impõe no olhar, com a voz grave que não treme, com a capacidade de fazer o juiz e o júri comerem na palma da sua mão.
Aos vinte e cinco, peguei a jugular do meu primeiro peixe grande: um magnata acusado de uma fraude colossal. A mídia já o havia enforcado em praça pública. Todos diziam que era um caso perdido. Eu sorri. Entrei naquele tribunal e fiz um verdadeiro massacre. Quebrei o promotor no meio da argumentação, manipulei as testemunhas até elas chorarem em contradição e usei as pausas e os silêncios como uma guilhotina. A vitória foi brutal e absoluta.
No dia seguinte, a grande mídia de São Paulo não falava de outra coisa. "Victor Alencar: Calculista. Implacável. O Diabo de terno." Li a manchete enquanto bebia meu café e ri. O Direito não é um templo de justiça. É um matadouro. E quanto mais sangue você tem nas mãos, mais eles te respeitam.
O império em São Paulo e o vício do controle
Quando cheguei aos trinta, meu pai percebeu que o monstro que ele havia criado já era maior que ele. Ele se aposentou e me entregou as chaves do império. Não encarei aquilo como um presente, mas como um trono que eu já havia conquistado por direito. Não bastava manter o escritório no topo, eu precisava expandir, devorar a concorrência, tornar o nome Alencar o sinônimo do medo na Avenida Faria Lima.
Hoje, aos trinta e cinco anos, sou o dono absoluto do maior e mais letal escritório de advocacia de São Paulo. Políticos corruptos, bilionários desesperados, magnatas que não podem aceitar a ruína todos rastejam até a minha porta. E quando eu aceito um caso, eu dito as regras. A audiência só acaba quando eu decido que ela acabou. O juiz bate o martelo, mas sou eu quem segura a porra do cabo.
