Capítulo 4 VICTOR ALENCAR
VICTOR ALENCAR
(O Moedor de Carne — São Paulo)
Renata mal havia fechado a pesada porta de carvalho do meu escritório quando duas batidas fracas, quase inaudíveis, ecoaram na madeira. O som exato da hesitação. O som da fraqueza.
— Entre. — A minha voz cortou o ar gélido da sala, seca e sem margem para réplicas.
A porta se abriu lentamente e Beatriz, uma das estagiárias juniores do departamento de contencioso cível, adentrou o meu território. Ela devia ter uns vinte e poucos anos, usava óculos de armação fina e caminhava com os ombros tão curvados que parecia pedir desculpas ao carpete por estar pisando nele. O cheiro de medo exalava pelos poros dela, misturando-se ao perfume floral barato que me deu um leve enjoo. Em suas mãos trêmulas, ela segurava uma pasta transparente com capa azul. Para mim, capas azuis em pastas de rascunho eram o equivalente a uma bandeira branca de rendição: sinal de um trabalho medíocre pedindo socorro.
— Doutor Alencar... eu trouxe a petição inicial daquele caso da TechNorte — a voz dela saiu fina, quase sumindo, enquanto ela colocava a pasta sobre a minha mesa de mogno maciço com a delicadeza de quem desarma uma bomba.
Não respondi de imediato. Puxei a pasta, abri e passei os olhos pela primeira página. Bastaram exatos quatro segundos para que o meu sangue começasse a ferver com a incompetência escancarada à minha frente.
— Beatriz... — comecei, o meu tom de voz perigosamente calmo, macio como uma lâmina deslizando na pele antes do corte profundo. — Você endereçou a peça ao "Excelentíssimo Juiz de Direito da 5ª Vara Cível". Nosso caso trata de um litígio societário e quebra de patente em software. Ele tramita na 3ª Vara Empresarial. Você acabou de mandar um processo de trinta milhões de reais para o juiz errado.
Ela engoliu em seco, os olhos arregalados por trás das lentes. A cor fugiu do seu rosto.
Virei a primeira página com um movimento brusco, o papel estalando no silêncio da sala.
— A qualificação do nosso cliente está uma porcaria incompleta. Onde está a porra do CNPJ? Onde está o endereço eletrônico exigido pelo artigo 319 do Código de Processo Civil? O espaçamento está desconfigurado e a fonte está errada. Eu me recuso a assinar algo que parece ter sido formatado por um estagiário de primeiro semestre de ressaca em um domingo de manhã.
Virei para a segunda página, sentindo o meu maxilar travar de pura irritação.
— Fatos. O juiz não tem tempo para ler um diário adolescente, Beatriz. A cronologia está um lixo. Você começou pelo e--mail de rompimento em março e só na terceira página citou a assinatura do contrato base em 2022. Isso é um tribunal, não a porra de um filme com flashbacks artísticos. O magistrado quer a linha do tempo dissecada e esfregada na cara dele.
Passei para a terceira página e soltei um riso anasalado, sem um pingo de humor.
— Fundamentação jurídica. Você me cita o Código Civil de forma genérica quando a quebra contratual específica e a responsabilidade civil objetiva resolvem o massacre. Onde está a tutela de urgência do artigo 300? Onde está a demonstração inquestionável do periculum in mora? — Levantei o meu olhar, fuzilando o rosto pálido da garota. — E que caralho é essa jurisprudência de 2014? Você está em um escritório de elite em São Paulo ou escavando ruínas no Egito? Jurisprudência com mais de três anos é lixo arqueológico. Não serve para absolutamente nada.
— Doutor Alencar, eu... eu posso explicar...
— Eu não pago você para me dar explicações. Eu pago para me entregar munição letal. — Cortei, implacável. — Anexos. Onde está o contrato social da empresa? Onde está o laudo técnico do software provando a falha que paralisou a plataforma? Você conta uma história trágica, mas não me dá as provas. Uma petição inicial assinada por mim não é uma crônica literária, é uma arma carregada. E você me entregou um revólver sem balas.
Fui direto para a última página.
— E os pedidos... "Requer o que for de direito". — Eu li a frase em voz alta, sentindo nojo do amadorismo. — Que pedido patético e genérico. Eu quero essa merda estruturada. Um: inversão do ônus da prova. Dois: obrigação de fazer em quarenta e oito horas sob pena de multa diária de cem mil reais. Três: perdas e danos ancorados nos laudos técnicos. Quatro: o valor exato da causa, que você foi estúpida o suficiente para esquecer de colocar. E o fecho? Cadê a porra do local, data e o meu número da OAB? Esse tipo de lixo nos transforma em piada no balcão do cartório.
O silêncio absoluto engoliu a sala. O peso do meu Rolex de ouro no pulso parecia a única coisa ditando o tempo enquanto a garota prendia a respiração, à beira do colapso.
— Doutor, eu assumi essa pasta ontem à noite, a doutora Letícia disse que...
— A doutora Letícia não assina no meu lugar. A Letícia não dita as regras na minha mesa. Você está sob o meu teto agora. — Levantei-me da cadeira, a minha altura e a minha presença dominando o ambiente, sufocando-a.
Caminhei a passos firmes até a parede de vidro liso ao lado da estante. Puxei uma caneta de quadro branco do bolso interno do meu paletó e, com a caligrafia agressiva e afiada, comecei a riscar o vidro em letras garrafais, sem sequer olhar para ela.
