Capítulo 5 O PADRÃO ALENCAR

O PADRÃO ALENCAR — PROTOCOLO DE ANITQUILAÇÃO CÍVEL

Competência absoluta (Foro e Vara Empresarial).

Qualificação cirúrgica (CNPJ, endereço, e-mail).

Cronologia fria e documentada. Nada de histórias dramáticas.

Procuração, Contrato Social e Provas periciais anexadas e indexadas.

Fundamentação letal (CPC + Doutrina de ponta).

Jurisprudência máxima de 2 anos (STJ e TJSP).

Tutela de urgência agressiva (Risco + Probabilidade irrefutável).

Pedidos matemáticos e Valor da causa exato.

Formatação impecável do império Alencar.

Revisão cega. Um erro gramatical e você está na rua.

Virei-me, guardando a caneta. Apontei para o vidro.

— Isso não é um diferencial, Beatriz. Isso não é motivo para elogio. Isso é o chão que você pisa. É o mínimo absoluto para não ser chutada para fora deste prédio. Se você não consegue seguir doze linhas de raciocínio lógico, pegue suas coisas e suma da minha vista.

Ela tremia, os olhos marejados, a respiração curta.

— Você vai voltar para a sua mesa. Vai reescrever essa peça imunda do zero. Vai trazer três acórdãos do STJ desta semana que se encaixem cirurgicamente nessa tese. Vai calcular o valor da causa centavo por centavo com base no lucro cessante do cliente. Você tem quarenta minutos.

— Q-quarenta minutos, doutor Alencar? — ela gaguejou, o desespero estampado no rosto.

— Trinta seria a minha exigência normal. Quarenta é a minha generosidade de hoje. — Apoiei as mãos na mesa, inclinando-me na direção dela como um predador prestes a dar o bote. — Engula esse choro agora. Quem chora neste escritório é o advogado da parte contrária quando eu arranco o fígado dele na audiência. Suma.

Ela agarrou a pasta azul e fugiu da sala como se tivesse visto o próprio diabo, batendo a porta atrás de si.

Voltei para a minha cadeira, o maxilar ainda tenso. No instante seguinte, a porta se abriu novamente. Era Renata, silenciosa, impecável, trazendo uma bandeja com uma dose dupla de café expresso e uma pilha de novos contratos corporativos.

— A Beatriz passou correndo pelo corredor. Parecia que ia vomitar — Renata comentou, o tom neutro, colocando o café perfeitamente alinhado com o meu teclado.

— Se ela vomitar, chame a limpeza e depois mande-a terminar a peça com cheiro de desinfetante. Não me importo.

— O cliente da TechNorte está na linha dois. Ele está... exaltado.

Levei a xícara aos lábios, o líquido escuro e amargo descendo queimando. Apertei o botão do viva-voz. Imediatamente, a voz esganiçada do CEO da TechNorte invadiu a sala, gritando obscenidades sobre como a outra empresa estava roubando seus clientes. Deixei o imbecil gritar por dez segundos exatos.

— Terminou de dar o seu showzinho de histeria, Roberto? — Minha voz soou grave, arrastada e cortante como gelo. O silêncio do outro lado da linha foi instantâneo. — Preste muita atenção. O seu dinheiro compra a minha inteligência, as minhas noites em claro e o meu nome na capa do seu processo. Ele não compra a minha paciência para ouvir marmanjo ter ataque de pelanca no telefone.

— D-doutor Victor... eu só estou pressionado. Se o sistema não voltar...

— O sistema vai voltar porque eu vou obrigar o juiz a enfiar uma multa de cem mil reais por dia na garganta deles. Mas para isso, eu preciso da porra das provas. Quero os e-mails de ameaça, os laudos dos engenheiros e os contratos de confidencialidade na minha mesa em vinte minutos. Sem isso, você chora sozinho. Entendido?

— Sim, Victor. Estou enviando.

Desliguei na cara dele. Eu não nasci com talento para babá de bilionários. Fui forjado para ser o executor deles.

Olhei para o relógio suíço no meu pulso. Dezenove minutos haviam se passado. A porta do meu escritório se abriu com um rangido cauteloso.

Beatriz entrou. Ela estava suada, com o cabelo levemente desgrenhado, mas a postura era diferente. O medo ainda estava lá, mas havia sido engolido pela urgência da sobrevivência. Ela não trazia mais a patética capa azul. Trazia folhas impressas, grampeadas com firmeza.

Ela parou na frente da mesa e empurrou o documento.

Peguei o papel. Li em silêncio. 3ª Vara Empresarial. A qualificação estava impecável, o CNPJ gritando em negrito. A cronologia era um bisturi rasgando os fatos sem rodeios românticos. A tutela de urgência estava escorada por artigos inquestionáveis do Código de Processo Civil. A jurisprudência era de dois meses atrás, proferida por um Ministro carrasco do STJ. O valor da causa cravava vinte e dois milhões de reais, com os laudos anexados.

Levantei os olhos lentamente. Ela parecia prestes a ter um infarto, as unhas cravadas nas próprias palmas das mãos.

— Melhorou. Você parou de escrever como uma amadora romântica e começou a escrever como uma advogada. — Joguei a peça na mesa. — Falta um índice remissivo, já que a peça e os documentos passam de quarenta páginas. E no parágrafo sete, você usou o tempo verbal no futuro. Petição não promete nada, petição afirma o que é e pronto. Mude para o presente do indicativo. Corrija isso e protocole.

Beatriz soltou o ar de uma vez, os joelhos quase cedendo.

— Sim, doutor Alencar. Obrigada pela... pela paciência.

— Não confunda a minha exigência com paciência, Beatriz. Da próxima vez, não haverá segunda chance. Mande a petição protocolada em Word e PDF para o meu e-mail. Se vier em um formato só, você está demitida. Se a fonte estiver errada, você está demitida. Agora, suma.

Ela assentiu furiosamente e desapareceu no corredor.

Renata voltou para a sala trinta segundos depois, parecendo ter um radar embutido no cérebro.

— Quer que eu peça para o setor de TI transformar o seu protocolo no vidro em um papel de parede para os computadores dos juniores?

— Não. Se eles precisarem de um desenho para lembrar como se faz o básico, não merecem trabalhar para mim. Memorização ou demissão. Essa é a regra.

Levantei-me e caminhei até a imensa parede de vidro que ia do chão ao teto. São Paulo fervilhava lá embaixo. Carros pareciam formigas, pessoas pareciam poeira. Era exatamente assim que eu gostava de enxergar o mundo: de cima. Do topo absoluto da cadeia alimentar. Eu era o ápice da porra do sistema.

O meu celular vibrou sobre a mesa. Beatriz. Uma mensagem confirmando o protocolo. Tudo certo. Nenhuma falha. Respondi apenas: "Recebido. Prepare o Agravo de Instrumento para amanhã, caso o juiz seja covarde e negue a liminar."

Ela respondeu com um "Sim, doutor", seguido de um emoji de mãos juntas rezando.

Fechei a tela com força, sentindo o ódio borbulhar. Emojis. Maldita geração fraca. Neste escritório, nós não rezamos; nós executamos.

— Mais alguma coisa antes do meu almoço, Renata? — perguntei, sem me virar, os olhos cravados no horizonte cinza e metálico da cidade.

— Apenas a confirmação final do Recursos Humanos, doutor. — O tom de Renata hesitou por uma fração de segundo, o que era raro. — A falha no sistema é irrevogável devido à trava da cláusula de confidencialidade padrão diamante. A nova estagiária, Larissa Mendes, não pode ser realocada para outro departamento sem abrir um rombo jurídico no compliance do escritório.

Eu ri. Um riso rouco, escuro e sem um pingo de calor.

— Então o lixo que o RH jogou no meu colo chega amanhã.

— Sim, doutor. Oito horas em ponto na sua mesa.

Enfiei as mãos nos bolsos da calça social, sentindo a adrenalina fria da caça começar a correr nas minhas veias. As engrenagens do meu escritório já moíam pedras diariamente. Uma novata que acha que tem alguma garantia só porque o RH cometeu um erro contratual? Ela não duraria até o intervalo para o café.

— Excelente, Renata. Prepare a mesa dela aqui fora, bem onde eu possa vigiar cada respiração. — Virei-me, os meus olhos brilhando com a promessa de destruição. — Eu vou quebrar essa garota no meio no primeiro erro que ela cometer. Quando ela sair daqui, chorando e implorando para desistir do Direito, talvez o RH aprenda a nunca mais brincar com o meu sistema.

Renata engoliu em seco, assentindo em silêncio antes de recuar e fechar a porta.

Fiquei sozinho de novo. O silêncio era a minha música favorita. Arrogante? Prepotente? Ditador? Podem me chamar do que quiserem. Eu prefiro chamar de poder absoluto.

Eu sou Victor Alencar. O mundo gira em torno das minhas regras, e quem não tiver estômago para suportar a pressão, que se enforque na própria mediocridade.

Amanhã, a tal Larissa Mendes conhecerá o inferno de perto. E eu serei o diabo encarregado de conduzi-la pelo fogo.

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