Capítulo 2
Isla
“Pra onde a gente tá indo?”, pergunto pros dois homens que me arrastam pra fora.
Eles não respondem, só me enfiam na parte de trás de uma carruagem. “Deita”, mandam.
“Por quê?”
“Humanos não têm permissão de contemplar a minha propriedade”, Aeron diz. Procuro por ele na escuridão total, mas só o encontro quando os olhos dele brilham em vermelho. “Você está sangrando.”
A voz dele tem um efeito estranho em mim. É como chocolate quente em dia frio, me aquecendo de dentro pra fora. É deliciosa e reconfortante, e eu quero mais.
Eu me arrasto pra dentro da carruagem e seguro no banco pra me puxar pra cima. “A humana. No salão. Ela me cortou.”
“Qual é o nome dela?”
“Não sei.”
Dedos gelados deslizam pela minha pele, e então Aeron suspira. Um minuto depois, ele dá dois toques no teto da carruagem. “Tirem-me desse buraco de merda.” Ele me empurra com força de volta pro banco. “Mandaram você se deitar.”
Meu coração despenca pro estômago. O toque dele queima e acalma ao mesmo tempo, e eu não sei qual das duas sensações é melhor.
Eu devia estar com medo. Eu devia estar apavorada. Eu já vi o que acontece quando vampiros perdem o controle. Quando enlouquecem com a sede de sangue. “Príncipe?”, sussurro baixinho. “Por que o senhor me escolheu?”
Ninguém sabe o que acontece durante a colheita, porque ninguém jamais volta pra contar. Quem é levado nunca mais é visto vivo.
“Como assim, por quê?”, Aeron pergunta.
“P- pra quê? P- pra ser sua doadora pessoal?” Meus dentes começam a bater quando a mão fria do medo me agarra e uma língua de terror lambe meu interior. “Uma familiar?” Não é o pior destino. Mas também não é o melhor.
Sinto o príncipe se mexer, e então algo quente cai sobre o meu tronco. O casaco dele. “Nada disso”, ele finalmente responde.
Então o quê? O bichinho de estimação dele? Já ouvi histórias de vampiros adotando humanos como a gente adota cachorro.
“Meu pai me contou uma vez que, antigamente, existiam umas coisas chamadas automóveis. Ele me mostrou fotos. Carruagens sem cavalos.”
“Hm”, Aeron resmunga. “Coisas horríveis. Muito barulhentas.”
“Então é verdade?”, pergunto e me sento, mas ele me empurra de volta. “E imagens em movimento? Também existiam?”
“Sim. Era uma vez.”
Suspiro e fecho os olhos. “Deve ter sido algo e tanto de ver.”
“Foi. Às vezes eu sinto falta.”
“Por que vocês acabaram com isso?”
Ouço um sorriso na voz dele quando diz: “Depois de um tempo, essas imagens em movimento começam a apodrecer o cérebro.”
Fecho os olhos e escuto o toc-toc-toc dos cascos dos cavalos no paralelepípedo. Estou perfeitamente em paz. Calma. Parece até que voltei pra casa.
Escuto alguns gritos abafados do lado de fora – provavelmente humanos, vampiros não precisam gritar – e depois o rangido dos portões pesados de ferro se abrindo.
Já vi o lado de fora do castelo do Príncipe muitas vezes. De dia, é fortemente vigiado por lobisomens, e à noite, os iniciados montam guarda. Nenhum humano jamais conseguiu romper as defesas.
Quando eu era pequena, vinha escondida até aqui, testando pra ver até onde eu conseguia chegar antes de algum lobo me notar e latir mandando eu ir pra casa. Uma vez, o Alfa ligou pro meu pai pra reclamar de mim. Na primeira, meu pai só me ameaçou. Na segunda, me trancou no quarto por dois dias seguidos.
Aí eu comecei a vir de noite. Os iniciados não davam muita bola pra mim. Eles riam da garotinha humana que vinha até os portões enormes e ficava encarando o castelo. Eu não representava ameaça nenhuma pra eles.
Eu imagino o castelo se erguendo sobre nós. Um sentinela sombrio na noite. O musgo subindo pelas paredes. As janelinhas, como olhos, salpicando a pedra cinzenta, a fonte no fim do caminho circular. Os degraus que levam até as grandes portas duplas ornamentadas.
A carruagem dá um solavanco e para. “Ôôô”, o cocheiro acalma os animais.
Os cavalos relincham.
E então a porta se abre com um clique.
Aqui não está tão escuro quanto lá embaixo, na cidade. Estamos mais alto, e a neblina não chega até nós. Consigo distinguir mais ou menos os traços do príncipe Aeron à luz do luar.
Eu estremeço quando um vento gelado assobia pela esquina; ele levanta meu vestido e lambe minhas pernas nuas. “Mostrem as costas”, Aeron ordena.
A voz dele é baixa, autoritária e apavorante pra caralho. Dá pra sentir. A força dessa ordem. Ela me rasga por dentro, como se eu estivesse sendo castigada por algo que ainda nem fiz.
Como um só, todos os familiares viram as costas pra mim, e eu viro as costas pro Aeron. Só então a sensação de dilaceramento finalmente para e eu consigo respirar um pouco melhor.
“Você, não”, Aeron rosna, e me agarra pelo ombro, me virando pra encará-lo. “Minhas desculpas, eu devia ter sido mais preciso nas minhas ordens. Você pode olhar pra mim.”
Eu faço que sim com a cabeça. O medo que vinha brincando de pega-pega comigo nas últimas horas finalmente me alcançou.
Até este exato momento, eu ainda achava, de algum jeito, que não era real. Que ser escolhida pelo príncipe Aeron não significava uma sentença de morte certa.
Mas agora estou aqui, encarando o castelo que sempre me fascinou tanto, e sinto tudo desabando em cima de mim. O fim da minha vida como eu conhecia.
— Venha — diz Aeron, e começa a seguir à frente.
Eu preciso correr para acompanhar. Ele anda tão rápido que é difícil mantê‑lo no campo de visão.
— Príncipe! — chamo, desesperada para que ele diminua o passo.
Ele para e se vira para me olhar. Há um sorriso irritado no rosto.
— Esqueço como você é lenta, às vezes.
Eu chego até ele trotando, arfando e bufando como se tivesse acabado de correr atrás da minha irmãzinha de dois anos. A caçula do clã Oliver. Seguro minha cintura e me dobro ao meio.
— Merda — ofego.
Aeron fica ali parado, me observando.
— Você está mesmo bem, ou devo chamar o médico humano?
Não sei se ele está sendo condescendente ou sincero. É difícil dizer.
— Eu até que sou bem em forma, mas você é muito rápido.
Ele faz que sim, seco.
— Vou tentar lembrar disso daqui para frente.
Ele parte de novo, claramente se forçando a andar devagar, mas eu ainda assim tenho que trotar num ritmo bem puxado para acompanhar. Ele não sobe os degraus como um ser humano normal — ele desliza por eles, as pontas dos sapatos só roçando nas lajotas cinza‑ardósia.
Eu não tenho esse luxo; os degraus são altos, e eu realmente preciso me esticar para alcançá‑los. Quando finalmente chego lá em cima, estou pronta para desabar. Ofegante e me sentindo ainda mais trêmula nas pernas, caminho até Aeron, que me espera no patamar.
— Você é realmente inútil — ele diz, num tom seco.
— Desculpa aí — retruco, ferina —, eu não sei voar.
Ele ergue as sobrancelhas para mim.
— Cuidado com o que diz. — A voz dele é tão baixa e sombria que sinto vibrar dentro da minha alma. — Você pode ser o meu animalzinho escolhido para a colheita deste ano, mas continua sendo apenas humana. Abaixo até mesmo dos meus familiares.
Uma mão invisível se fecha ao redor da minha garganta e começa a apertar. Meu ar fica preso, e eu não consigo soltar a respiração.
Agora eu estou com medo. Apavorada de verdade.
— Respire — diz Aeron, e o ar explode para fora dos meus pulmões. — Vou levá‑la aos seus aposentos.
Sem nem pedir licença, ele me ergue e me joga por cima do ombro. Eu não resisto. Não chuto, não grito, não mordo. Seria ridículo. Aeron é antigo e absurdamente forte — ele nem sentiria, e eu não acho que seja uma boa ideia irritar meu novo mestre vampiro na primeira noite aqui.
Ele me carrega como se eu não pesasse nada, atravessando o castelo tão rápido que não consigo assimilar nenhum detalhe.
Não está totalmente escuro. As luzes estão acesas por causa dos familiares, mas são fracas, mal lançando um brilho.
Isso não me incomoda. Eu gosto da escuridão. Sempre me senti em casa nela.
De repente, Aeron para e empurra uma porta qualquer, revelando um quarto do outro lado.
Não é enorme, mas é maior do que o quarto que eu dividia com meus três irmãos mais novos na mansão do meu pai.
— Sinta‑se em casa — diz Aeron.
Eu entro e olho ao redor. Há uma cama de solteiro encostada na parede do fundo, logo abaixo de uma daquelas janelinhas. Uma cômoda e um guarda‑roupa na parede oposta e uma penteadeira ao lado da porta.
Ele me observa por um tempo, os olhos gelados deslizando por mim como se tentassem me decifrar.
— Qual é o seu nome?
— Isla.
— Isla. Há um banheiro no fim do corredor — explica Aeron. — Você vai compartilhá‑lo com os outros familiares deste andar.
Faço que sim e abaixo os olhos. A luz aqui dentro é um pouco mais forte do que a das muitas, muitas galerias e passagens.
— Você não deve sair do seu andar — ele instrui —, nem usar o banheiro quando os outros familiares estiverem lá dentro.
Eu apenas encaro ele. Eu sou tão inferior assim, que nem mesmo os familiares podem interagir comigo? É isso que ele está tentando me dizer?
Ele entra no quarto e fecha a porta atrás de si.
— Tire o vestido — ordena.
Eu engulo em seco. Então é isso, uma escrava de cama. Foi por isso que ele me escolheu.
Agora. Agora seria a hora de gritar e correr, mas eu não faço isso. Vampiros são conhecidos por serem hedonistas em todos os sentidos da palavra, e não têm a menor vergonha.
Mesmo assim, eu não quero. No mundo humano, tudo em que eu prestava era para parir mais gado para os vampiros, e agora tudo em que vou prestar é para ser o brinquedinho sexual do príncipe?
— Eu mandei você se despir — rosna Aeron, os olhos brilhando em vermelho.
