Capítulo 1

Ponto de vista de Calla

Era para ser nossa última viagem de turma antes da formatura. O ônibus perde o controle numa estrada de montanha e despenca do penhasco.

Acho que a gente vai morrer.

Quando abro os olhos de novo, estou sentada numa sala de aula que parece estar apodrecendo há décadas.

Um alerta do sistema berra dentro do meu crânio:

【Bem-vindo à Ravenwood High. Criaturas inomináveis vagam pelo campus. Sobreviva 7 dias. Descubra a verdade por trás da morte do Chefão do campus. Cada jogador que morrer adiciona US$ 800.000 ao prêmio acumulado. Saia vivo, e o dinheiro é seu.】

Todo mundo surta. Gritos, choro, caos total. A primeira coisa que o Brett faz é me empurrar em direção à porta para eu checar o corredor. Porque é claro que ele faz isso. Eu sou o saco de pancadas da turma. A garota de quem ninguém sentiria falta.

Todo mundo acha que eu vou ser a primeira a morrer.

O que ninguém vê é o sorriso repuxando o canto da minha boca quando eu paro naquela porta, encarando o que quer que esteja se contorcendo nas sombras do corredor.


O cheiro me atinge primeiro. Denso, podre, errado. Eu desperto num sobressalto.

Eu não morri. O ônibus caiu do penhasco, mas eu não morri. Estou sentada numa sala de aula em decomposição, as paredes manchadas por sangue velho e seco, meus colegas espalhados desacordados ao meu redor.

No quadro-negro, o giz se move sozinho, riscando linha após linha de texto vermelho.

【Bem-vindo à Instância de Ravenwood High.】

【Jogadores atualmente vivos: 45.】

【Prêmio acumulado base: US$ 5.000.000. Cada jogador que morrer adiciona US$ 800.000 ao prêmio acumulado.】

【Objetivo principal: Sobreviva 7 dias e monte a verdade por trás da morte do Chefão do campus, Emerson Shade.】

【Recompensa por conclusão: Saia da instância com o prêmio acumulado completo.】

【Aviso: Criaturas inomináveis vagam por este campus. Siga as regras. Fique vivo.】

A voz mecânica detona dentro da cabeça de todo mundo ao mesmo tempo.

A sala explode. Gritos, soluços, xingamentos, tudo se misturando num borrão só.

— Que lugar é esse? Eu quero ir pra casa! — Lacey Voss, a abelha-rainha, cobre o rosto com as mãos e grita, o rímel escorrendo pelas bochechas.

Brett Calloway, linebacker estrela e babaca em tempo integral, chuta uma carteira e a faz atravessar o chão. — Tá bom, quem é que tá com essa palhaçada? Aparece!

Eu fico no meu canto, cabeça baixa, o cabelo caindo sobre os olhos.

Ninguém percebe que eu estou sorrindo.

Cada jogador que morre adiciona US$ 800.000 ao prêmio acumulado.

Eu penso no chão do banheiro. O azulejo gelado pressionado contra a minha bochecha. Meus livros rasgados e jogados no lixo. Professores passando direto por mim como se eu nem existisse. Nem uma única pessoa disse uma palavra.

Para todo mundo nesta sala, isto aqui é o inferno. Sem lógica, sem misericórdia, a morte à espreita em cada sombra.

Mas eu?

Eu venho vivendo num lugar exatamente assim há três anos.

Pra mim, isto é o paraíso.

A porta enferrujada da sala de aula se escancara com uma força que faz as paredes tremerem. Além dela, estende-se um corredor longo e negro. Algo espesso e escuro pinga do teto. O ar traz o cheiro de podridão.

—A porta tá aberta! A gente pode sair correndo, ligar pro 190! —grita um dos caras do Brett.

Ele já está se mexendo quando Brett o agarra pela gola e o puxa de volta. Brett não é o mais esperto, mas também não é completamente idiota. Ele nota as palavras vermelhas ainda se arrastando pelo quadro-negro, depois olha para o corredor escuro, e então seus olhos caem em mim.

—Calla.

Ele cruza a sala em poucas passadas e me agarra pelo cabelo, me arrancando do lugar.

A dor rasga meu couro cabeludo. Eu faço o que sempre faço. Deixo meu rosto se desmanchar. Deixo meu corpo tremer.

—Brett, por favor, não—

—Cala a boca. —Ele me empurra na direção da porta. —Vai ver o corredor. Diz pra gente o que tem lá fora.

Lacey se escora numa carteira, braços cruzados, aproveitando cada segundo. —Sério. Você foi um peso morto nessa turma por três anos. Tá na hora de finalmente ser útil.

O resto concorda com a cabeça. Ninguém questiona. No mundo deles, eu existo para ser usada.

Eu mordo o lábio. Deixo meus olhos ficarem vidrados. Caminho até a porta, um passo relutante de cada vez.

Bem antes de atravessar o limiar, eu vejo. Lá em cima, perto do teto, meio engolido pela sombra, algo carnudo se mexe e pulsa. Sem olhos. Só um aglomerado de órgãos parecidos com tentáculos varrendo o ar lentamente.

O sistema apita: 【Criatura cega. Detecta som e calor.】

Eu paro. Travo o maxilar. Colo as costas na parede e fico completamente imóvel.

—O que você tá fazendo? Anda! —o cara do Brett avança para me empurrar por trás, os tênis chiando no piso no silêncio.

Ele atravessa a porta.

A sombra despenca.

A coisa abre uma boca cercada de dentes em gancho e a fecha em volta da cabeça dele. O corpo ainda dá mais um passo sozinho antes de o sangue jorrar, e então ele cai.

O calor atinge meu rosto antes mesmo de eu processar o que acabou de acontecer.

A sala de aula fica num silêncio mortal.

Então todo mundo começa a gritar.

Eu ergo a mão, limpo o sangue da minha bochecha e olho para o outro lado da sala, para Brett, que desabou contra uma carteira, assustado demais para se mexer.

—Brett —eu digo. —Acho que tá chovendo.

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