Capítulo 2
Ponto de vista de Calla
【Aviso do Sistema: A jogadora Wade Pruitt morreu.】
【Jogadores atualmente vivos: 44. Prêmio acumulado atualizado para: US$ 5.800.000.】
A voz do sistema é completamente neutra. Ainda assim, me acerta como uma injeção de adrenalina direto na veia.
Uma vida. Oitocentos mil.
A sala de aula surtou de vez. Lacey se enfia debaixo de uma carteira. Brett está encostado na parede do fundo, o rosto sem cor.
A coisa que arrancou a cabeça do Wade parece se alimentar dos gritos. Seus apêndices se debatem loucamente enquanto ela se vira na direção do barulho, fixando o alvo.
Eu fico exatamente onde estou, bem ao lado da porta. Imóvel.
Sem olhos. Ela rastreia som. Passa varrendo bem por mim e vai direto em quem estiver gritando mais alto.
Não olho para trás. Viro e sigo pelo corredor escuro.
Quanto mais eles morrerem, mais dinheiro eu vou levar quando sair. Por que eu salvaria alguém?
O corredor se estende à minha frente, as paredes forradas de folhas amareladas com regras. Pego o brilho fraco de uma luz de emergência na outra ponta e passo os olhos rápido nelas.
【Regra 3: Nada de barulho alto nos corredores depois das 22h. A segurança do campus precisa descansar.】
【Regra 7: Equipamentos do laboratório de química são caros. Danos devem ser compensados com itens de valor equivalente.】
Confiro o relógio de contagem regressiva que o sistema me deu.
21h45.
Desço as escadas até o térreo e vou direto para o laboratório de química.
A porta está trancada. Acho uma machadinha enferrujada guardada no armário da mangueira de incêndio ali perto e arrebento a fechadura com um golpe só. A porta se abre, e o cheiro de produtos químicos me atinge na hora. Entro, fecho a porta e empurro uma bancada do laboratório contra ela.
Começo a vasculhar os armários no escuro.
Permanganato de potássio. Ácido sulfúrico. Etanol anidro. Fita de magnésio.
No mundo real, eu sou a garota em quem todo mundo pisa. Também sou a melhor aluna da minha série. Eles destruíram meus livros. Em vez disso, eu construí uma biblioteca na minha cabeça.
Despejo o permanganato de potássio numa garrafa de vidro, acrescento o ácido sulfúrico e então vou pingando o etanol devagar.
É uma reação simples. Mas num jogo de terror sem armas de verdade, é o dispositivo incendiário mais eficiente que eu consigo montar agora.
Passos pesados do lado de fora da porta.
22h.
— Quem tá aí... — Uma voz raspa através da porta, baixa, úmida e errada. — ...mexendo no meu laboratório...
A segurança do campus.
Algo bate na porta com força suficiente para rachar a bancada que eu travei ali. Uma mão força passagem pela fresta: pálida, inchada, a pele manchada de áreas escuras.
Eu não recuo. Dou um passo à frente, enfio a garrafa incendiária naquela mão, encaixo junto uma tira de fita de magnésio acesa e me afasto.
— Considere isso uma compensação pelo equipamento.
Me jogo atrás da bancada mais próxima.
A explosão rasga a entrada numa parede de luz e calor. O permanganato de potássio oxida violentamente no ácido, e o que quer que esteja do outro lado da porta é engolido inteiro. Um grito estridente corta o ar e, então, vem o cheiro — queimado, denso e horrível.
【Aviso do Sistema: A jogadora Calla Merritt derrotou a variante básica “Guarda Vingativa”.】
【Pontos ganhos: 500.】
【Item de pista obtido: Página do diário da guarda (1/5).】
Eu me levanto e sacudo a poeira da camisa.
Abro a loja do sistema e gasto os 500 pontos: uma lanterna tática, um facão, três kits de cura de alta qualidade e um cheeseburger, ainda quente.
Sento no meio dos destroços do laboratório e dou uma mordida. A carne está perfeita. Suculenta e quente, como se nada disso estivesse acontecendo.
Minha interface do sistema se ilumina. O chat do grupo.
【Brett: SOCORRO!! Tem alguma coisa do lado de fora da sala da segurança!! Tá arrebentando a porta!!】
【Lacey: Brett, por favor!! Eu não quero morrer, meu Deus!!】
【Leo: Alguém tem alguma arma?? Alguém pode vir ajudar a gente, por favor!!】
Leio as mensagens e engulo outra mordida.
Aí eu digito.
【Calla: Gente, calma. O laboratório de química é totalmente seguro. Não tem monstro nenhum aqui.】
Fecho o chat, junto minhas coisas, empurro a janela para abrir e pulo para fora, na escuridão.
