Capítulo 3
Ponto de vista de Calla
Um vento gelado corta o campo de futebol, arrastando atrás de si um som baixo e oco.
Estou lá em cima, no topo das arquibancadas, com a lanterna acesa, lendo a página do diário do guarda que veio na entrega do sistema.
Uma única linha, rabiscada com letra trêmula: “Aquele garoto, Emerson Shade. O sangue dele encharcou o prédio inteiro. Mandaram eu ficar de boca fechada.”
Emerson Shade.
O Chefão do campus. Aquele para quem o objetivo principal está me apontando.
Então ele não apenas morreu. Alguém se certificou de que ninguém jamais descobrisse.
Guardo a página no meu inventário do sistema e encaro o prédio da escola.
Depois que eu mando aquela mensagem, o grupo fica em silêncio por uns dois minutos. Aí as notificações começam a chegar.
【Brett: Calla? Que porra é essa? Você… você tá mesmo viva?】
【Lacey: É realmente seguro aí dentro? Nem pense em mentir pra mim.】
【Calla: Por que eu mentiria? Eu achei comida aqui e a porta tranca direitinho. Só vem pra cá, eu tô com medo.】
Eu digito exatamente do jeito que eu sempre soei perto deles. Tímida. Ansiosa para agradar. Eu ainda coloco um emoji assustadinho, só pra garantir.
Eu sei exatamente como esse tipo de gente funciona.
Brett é paranoico e egoísta até o osso. Mostre qualquer sinal de força e ele não acredita nem por um segundo. Mas quanto mais eu ajo como alguém que ele pode pisar, mais confiante ele fica de que pode entrar e pegar tudo o que eu tiver.
E, como um relógio.
【Brett: Ótimo. Fica aí e mantém a porta trancada. Eu tô indo. E se você encostou naquela comida, eu juro por Deus.】
Fecho o chat e me encosto no corrimão gelado da arquibancada, esperando.
A porta do laboratório de química já está arrebentada por causa do guarda. Não tem comida lá dentro; só o cheiro pesado de sangue e coisa queimada.
Num jogo de horror, esse tipo de cheiro é a melhor isca que existe.
Cerca de dez minutos depois, sob a luz fina da lua, eu vejo cinco ou seis pessoas se atrapalhando, vindo da direção da sala da segurança até o laboratório de química do primeiro andar. Brett vai na frente, segurando uma barra de ferro enferrujada que achou em algum lugar. Lacey está com um punhado do casaco dele e mal consegue acompanhar.
Eles se enfiam no laboratório.
“Calla! Onde diabos você tá? Eu não tô vendo comida nenhuma!” A voz do Brett sai abafada, mas furiosa, ricocheteando pelas paredes do campus vazio.
Então.
Alguma coisa urra lá de dentro do prédio. Não é um som humano. É algo muito maior.
Eu observo das arquibancadas.
Uma figura rasga o corredor e toma a moldura da porta do laboratório: quase três metros de altura, o corpo costurado com partes incompatíveis, arrastando um enorme cutelo enferrujado. O cheiro do que restou do guarda, ainda no laboratório, foi o que o puxou até ali.
Gritos explodem lá dentro. O cutelo desce, e os gritos mudam.
Eu observo o chat do grupo.
【Anúncio do Sistema: O jogador Leo Hartley morreu.】
【Anúncio do Sistema: Um jogador morreu.】
【Anúncio do Sistema: Um jogador morreu.】
Um depois do outro. Como música.
【Jogadores atualmente vivos: 31. Prêmio acumulado atualizado para: US$ 16.200.000.】
Brett e Lacey ainda estão online.
【Brett: Você armou pra gente, sua psicopata!! Você fez isso de propósito!!】
【Lacey: Você vai pagar por isso!! Socorro!! Alguém, por favor, me ajuda!!】
Eu olho para a tela e o canto da minha boca se levanta.
Eu digito.
【Calla: Ah, é. Esqueci de mencionar: alguma coisa quebrou a porta do laboratório mais cedo. Vocês provavelmente deviam falar mais baixo aí dentro. Não vão querer atrair mais nada pra perto.】
Desligo as notificações e guardo o celular.
O medo vem de estar em desvantagem — em armas e em pensamento. Simples assim.
Eu me levanto e solto a rigidez do pescoço.
Hora de encontrar a próxima pista.
Olho para a ponta mais distante do campus, para o velho prédio de artes atrás da cerca de arame enferrujada.
“Emerson Shade”, eu digo, baixo. “Onde você está se escondendo?”
