Capítulo 4

Ponto de vista de Calla

Uma neblina espessa paira em volta do antigo prédio de artes como se nunca tivesse ido embora.

Na cerca de tela, há uma placa enferrujada de PROIBIDA A ENTRADA pendurada, manchada com marcas escuras de mãos.

Eu corto a cerca com o facão e me espreito por ela.

A temperatura despenca no segundo em que entro. O frio rasteja do chão e não para.

Minha lanterna mal consegue atravessar mais do que alguns metros de neblina.

Subo as escadas. Terceiro andar. A velha sala de música. Segundo o diário do segurança, era lá que Emerson Shade passava a maior parte do tempo.

Estou contornando o patamar do segundo andar quando ouço. Mastigação molhada, rítmica. E, por baixo, uma voz, pequena e desesperada.

— Por favor... só me deixa ir... eu faço qualquer coisa...

Lacey.

Ela realmente saiu viva daquele massacre. E acabou aqui.

Me movo sem fazer barulho e me agacho atrás de um busto de gesso esfarelando perto da parede, longe o bastante para enxergar.

No fim do corredor, Lacey está de joelhos diante de um cara num uniforme escolar limpo, de costas para ela. Ele parece alto, magro, completamente normal por trás. Como qualquer outro aluno.

É claro que Lacey decidiu que ele é algum tipo de NPC que ela pode seduzir e passar ilesa. Os mesmos truques que ela usa a vida inteira. Ela até puxa o colarinho já rasgado ainda mais para baixo, a pele pálida na luz fraca.

— Estou com tanto frio — ela diz, a voz suave e ensaiada. — Você pode me abraçar?

O cara se vira.

A metade de cima do rosto dele foi arrancada até ficar limpa. Sem pele, só músculo vermelho vivo e dois olhos expostos nas órbitas, pegando a luz de um jeito errado.

— Te abraçar? — A voz dele soa como um prego arrastado no vidro. — Claro. — Ele inclina a cabeça. — Sua pele parece tão macia.

Lacey grita e se vira para correr.

O braço dele dispara e a pega pela garganta, erguendo-a totalmente do chão.

— Não, não, por favor... — As pernas dela chutam o nada.

O som de rasgo que vem em seguida faz meus dentes doerem.

Ele esfol(a) ela. Com uma mão, começando na nuca, puxando para baixo. O sangue vem rápido. Lacey não morre na hora. A garganta dela solta um assobio úmido, os olhos presos na própria pele se desprendendo no punho dele.

Eu assisto e não sinto nada.

No mundo real, Lacey e algumas amigas me encurralaram no vestiário, trancaram a porta, me despiram e filmaram.

Agora alguém está fazendo o mesmo com ela.

O karma é uma coisa engraçada.

【Anúncio do Sistema: a jogadora Lacey Voss morreu.】

【Jogadores atualmente vivos: 25. Prêmio atualizado para: US$ 21.000.000.】

Ele vai embora cantarolando alguma coisa sem melodia, a pele dela dobrada sobre um braço como se ele estivesse carregando roupa.

Eu espero até ele sumir e então saio de trás do busto, passo por cima do que restou de Lacey e continuo subindo.

O corredor do terceiro andar é estranho. Limpo. Sem sangue, sem poeira. O ar até carrega um cheiro fraco, frio e quase doce, como o primeiro dia do inverno.

A sala de música fica no fim.

A porta está entreaberta.

Aperto o cabo do facão e empurro.

Sem luzes. O luar entra pelas janelas do chão ao teto e cai sobre um piano de cauda preto no centro da sala.

Então o sino da meia-noite começa a tocar em algum lugar lá fora. Doze badaladas lentas se espalhando pelo campus.

A cada uma, a sala fica mais fria. Minha respiração começa a aparecer.

Sangue brota pelas frestas entre as teclas do piano, pingando no chão num ritmo lento e constante.

Tem alguém sentado ao piano. Não sei em que momento ele chegou ali.

Uniforme escuro, caimento perfeito. Postura imóvel. Dedos longos e pálidos se movendo pelas teclas molhadas de sangue, arrancando algo lento e estranho e profundamente errado.

Cada músculo do meu corpo trava de uma vez.

Seja lá o que ele é, nada do que encontrei esta noite chega perto.

A música termina.

Ele para de tocar e vira a cabeça.

O rosto é marcante de um jeito que não parece certo. Pele pálida demais, quase translúcida. Olhos escuros e sem fundo. Os cantos contornados por uma linha fina de vermelho que parece menos um ferimento e mais algo que simplesmente cresceu ali.

Ele me encara e sorri. Sem pressa. Como se já soubesse exatamente como isso acaba.

— Um ratinho que entrou na sala errada.

A voz dele é baixa e macia e faz alguma coisa no meu peito ficar muito quieta.

— Como você quer morrer?

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