Capítulo 2
Tirei minha aliança sem dizer uma palavra e a deixei em cima da mesa. O gesto dizia tudo. Eu tinha terminado de cumprir os votos que fiz no altar.
Deus sabe o quanto lutei com todas as forças para me agarrar a ele e salvar o que tínhamos. Eu lhe dei cada grama do meu amor e todas as chances que pude. Não foi o bastante para nos manter juntos, mas posso ir embora com paz no coração, sabendo que nunca parei de lutar por ele até não restar mais nada para dar.
— Só lembre, Grey — o karma tem um jeito engraçado de dar a volta. Seu pai deixou sua mãe por uma mulher mais jovem. Agora você está me deixando por um amor antigo. Eu me pergunto... — olhei por cima do ombro, encontrando aquele olhar tempestuoso pela última vez. — Por quem a Natalia vai deixar você?
Sem esperar a resposta, eu saí, fechando a porta atrás de mim com uma quietude definitiva.
Fui a passos firmes até a área do estacionamento onde meu carro me esperava, abri a porta e me enfiei no banco do motorista.
Pelo retrovisor, vi Grey irromper para fora do restaurante e vir na direção do meu carro. Sua figura alta se movia depressa, quase correndo. Por um instante, meu coração saltou, traidor, dentro do peito.
Mas eu sabia melhor agora. Ele não estava vindo atrás de mim porque me amava ou porque queria salvar nosso casamento. Provavelmente estava furioso com minhas palavras de despedida sobre Natalia.
Enfiei a chave na ignição com as mãos trêmulas e liguei o motor. O som pareceu fazer Grey acelerar ainda mais.
— Lily! — a voz dele atravessou o estacionamento. — Lily, espera!
Engatei a ré e fui embora. Um último olhar pelo retrovisor lateral captou o rosto de Grey. A expressão dele era uma mistura de raiva e outra coisa — talvez arrependimento. Mas já não importava. Depois de quatro anos de casamento, incontáveis lembranças e uma criança morta, ele tinha feito sua escolha.
O restaurante foi ficando pequeno no retrovisor. A figura de Grey virou um ponto e, então, sumiu completamente quando entrei na avenida principal.
Minha visão embaçou de novo, e eu pisquei rápido. A última coisa de que eu precisava era sofrer um acidente. Um acidente de carro já tinha destruído minha família. Eu não deixaria outro tirar minha vida também.
O celular começou a tocar dentro da minha bolsa. Eu nem precisava olhar o identificador de chamadas para saber que era Grey, provavelmente ligando para gritar comigo.
O pedal do acelerador afundou sob meu pé. Eu não tinha um destino em mente. Casa era o último lugar para onde eu queria ir. Cada canto da casa que eu dividia com meu marido estava cheio de lembranças dele e do meu filho morto. Atravessar aquelas portas só abriria feridas que nunca tinham cicatrizado de verdade.
No fim, a casa da minha mãe foi o único lugar que me veio à cabeça.
O trajeto passou num borrão. Em algum momento, o toque insistente finalmente parou, mas o silêncio que veio depois foi tão sufocante quanto. Dezesseis chamadas perdidas. Todas e cada uma delas de Grey.
Logo, a velha árvore em frente à casa da minha infância surgiu à vista. Era a mesma árvore em que eu costumava subir quando era criança, ralando os joelhos e deixando minha mãe preocupada. Agora, aos vinte e três anos, eu estava quebrada de um jeito que nenhum curativo poderia consertar.
No instante em que entrei na garagem, saltei do carro e corri até a porta da frente. Tateando com a minha chave reserva, enfim destranquei e entrei às pressas.
Celine, a enfermeira que cuidava da minha mãe, já estava me esperando na sala de estar. No instante em que me viu entrar pela porta, ela se levantou do longo sofá vitoriano.
— Como a mamãe está? — As palavras ficaram presas na minha garganta enquanto o pavor apertava meu peito. Ela vinha lutando contra a doença havia muito tempo e, a cada dia que passava, parecia estar se afastando cada vez mais. Os médicos tinham lhe dado, no máximo, seis meses, mas ela se recusava a parar de lutar.
— Ela teve uma manhã difícil, Lily. O novo medicamento está castigando o organismo dela. Ela passou a maior parte do dia dormindo. — Celine não conseguiu conter as lágrimas que brilhavam no canto dos olhos. Ela era a enfermeira particular da minha mãe havia anos. As duas eram tão próximas que ela tratava a mamãe como se fosse a própria mãe, e nós éramos como irmãs.
Assenti, com a garganta tão apertada que doía respirar. Hoje, de todos os dias, eu precisava da minha mãe mais do que nunca, e ainda assim talvez ela nem estivesse consciente o bastante para falar comigo. Parecia que a vida sentia prazer em girar a faca quando eu já estava sangrando.
— Mas ela tem chamado por você — acrescentou Celine, baixinho. — Até dormindo, ela chama seu nome.
Um nó se formou na minha garganta.
— Vou subir para ver como ela está. Obrigada por cuidar da mamãe, mesmo que hoje devesse ser seu dia de folga.
Celine balançou a cabeça com um pequeno sorriso.
— Eu já disse, Lily, continuaria cuidando dela mesmo que você não me pagasse.
— Obrigada. Você é mesmo um anjo. Não sei o que faria sem você.
Ela estendeu a mão e apertou a minha de modo reconfortante antes de pegar a bolsa.
— Vai ficar tudo bem — disse ela, com gentileza.
Consegui esboçar um sorriso fraco.
— Boa viagem para casa. E não se esqueça de colocar o cinto de segurança.
— Prometo — respondeu Celine, assentindo. — Vejo você amanhã, Lily.
Com um último olhar tranquilizador, Celine foi até a porta e a fechou baixinho atrás de si.
Fiquei parada na sala vazia por um momento, olhando para todas as fotos de família nas paredes. Havia uma da mamãe comigo. Quando meus olhos pousaram em outra, do dia do meu casamento, desviei o olhar depressa.
Respirando fundo, subi as escadas. Quando cheguei à porta tão familiar do quarto da mamãe, meu coração estava batendo com tanta força que doía.
Minha mão pousou na maçaneta, mas eu não consegui girá-la. Um pensamento aterrorizante me enraizou no lugar. E se eu abrisse a porta só para encontrá-la morta?
A ideia de perdê-la era como se alguém estivesse esmagando meu coração com a mão.
Uma lágrima escorreu pela minha bochecha. Grey pedir o divórcio não tinha me quebrado o suficiente para me fazer chorar. De algum modo, eu conseguira me manter inteira. Mas a ideia de abrir aquela porta e encontrar a mamãe morta me desfez por completo. Ela era a única família que me restava. Perdê-la significaria perder o meu mundo inteiro.
Por fim, reuni coragem suficiente e girei a maçaneta. A porta se abriu, revelando uma cama vazia.
O choque me atingiu como um raio, e eu imediatamente corri para dentro do quarto à procura dela.
E se ela tivesse caído da cama?
O pensamento horrível me fez cair de joelhos. Olhei embaixo da cama, com o pulso martelando nos meus ouvidos, mas não havia sinal dela.
Então outra possibilidade terrível me atingiu. E se ela tivesse ido ao banheiro e escorregado? Corri até o banheiro e empurrei a porta.
Estava vazio.
— Mãe? — chamei, com a voz trêmula. Só o silêncio respondeu.
Onde ela estava?
