Capítulo 5 CAPÍTULO 5

Emerson narrando

Desde moleque, aprendi com meu pai que lugar de mulher é do lado do marido, servindo e obedecendo. Ele sempre dizia que quando um homem entra em casa, tem que ser tratado como rei. E que mulher de verdade é aquela que se cala, que não questiona, que obedece. Foi isso que eu cresci ouvindo, vendo ele gritar com a minha mãe, mandar nela, dizer o que ela podia ou não fazer. E por mais que muita gente ache isso errado, foi assim que me formei como homem. Eu acredito que mulher tem que saber o lugar dela.

Quando eu conheci a Thaís, claro que eu não mostrei tudo isso logo de cara. A gente não pode assustar uma mulher quando quer conquistá-la. Eu fui paciente, atencioso, fingia até que era diferente. Fazia ela se sentir especial, segura... porque eu sabia que, depois que ela se apaixonasse, ia ser mais fácil moldar do meu jeito. E foi exatamente isso que aconteceu.

No começo, ela era cheia de opinião, cheia de vontades, queria trabalhar, se vestir do jeito dela. Mas eu fui podando. Aos poucos. Um comentário aqui, uma crítica ali... “Essa saia tá curta demais.” “Essa pessoa é uma má influência.” “Pra que trabalhar fora se eu posso te sustentar?, fica aqui que vai ser mais na faculdade" E ela foi cedendo. Porque me amava. Porque acreditava que aquilo era cuidado. Mas era só controle. E quanto mais ela aceitava, mas eu tomava espaço.

Eu gostava de olhar pra ela e ver que tudo o que ela era agora tinha um pouco de mim. Que ela pensasse duas vezes antes de contrariar uma ordem minha. Que evita-se sair sem me avisar. Que tremia quando meu tom de voz mudava. Era isso que meu pai dizia: uma mulher bem educada é aquela que tem medo de perder o marido.

Mas teve um tempo que ela começou a querer se rebelar. A se arrumar sem me perguntar, a ter opinião nas conversas. E isso me tirava do sério. Eu tentava manter o controle, mas às vezes era mais forte que eu. Porque eu não suporto ser desafiado dentro da minha própria casa. Mulher minha não bate de frente. Mulher minha abaixa a cabeça.

Só que, por mais que ela tentasse sair das minhas rédeas, eu sempre dava um jeito de trazê-la de volta. Porque Thaís era minha. Minha mulher, minha propriedade. E eu ia fazer ela lembrar disso todas as vezes que esquecesse. Com palavras, com silêncio, com pressão... e, se precisasse, até com a força.

Para muitos, eu sou o vilão. Mas eu só sou o reflexo do que me ensinaram. E no meu mundo, isso não é errado. É ser homem. É ter pulso. É manter a ordem. Afinal, quem manda dentro de casa sou eu. Sempre fui. E sempre vou ser.

Aquele jeito dela de boa moça, com o olhar tímido e o sorriso inocente, sempre teve um efeito em mim que eu não sei explicar. Parecia frágil, do tipo que precisava ser protegida… ou moldada. Foi isso que me atraiu na Thaís desde o início. Ela parecia fácil de guiar, e eu sabia que, com o tempo, ia conseguir fazer dela exatamente o que eu queria: uma mulher obediente, que soubesse o lugar dela.

Mas o que mais me tirava do sério era ver que aquele mesmo jeitinho que me prendeu, prendia também os outros. Os clientes do restaurante não tiravam os olhos dela. Sempre tinha um idiota querendo puxar conversa, dar em cima, ou deixar uma gorjeta alta. Isso me deixava com ódio. Ela era minha. E não tinha nada mais irritante do que ver um homem achando que podia chegar perto do que é meu.

E, por incrível que pareça, ninguém ali atendia como ela. Ninguém sorria como ela. A Thaís sempre se destacava. O chefe chegou até a me pedir pra convencê-la a não sair quando ela pediu as contas. Mal sabia ele que fui eu que fiz isso acontecer. Comecei a colocar coisas na cabeça dela, dizer que ambiente de restaurante era pesado, que não era lugar pra mulher direita, que ela já não precisava mais trabalhar. Aos poucos, ela acreditou.

Quando o pai dela morreu, Thaís queria viajar, queria se despedir. Mas eu não deixei. Inventei desculpas, fiz chantagem emocional, disse que ela tinha que ficar. E depois que passou tudo, eu agradeci por dentro. Porque minha mulher não tem que ficar viajando sozinha, nem se metendo com gente de fora.

Tem que ficar aqui, comigo, debaixo da minha vigilância.

As outras garçonetes do restaurante até que são espertas. Umas duas vivem se oferecendo, rindo demais das minhas piadas, mexendo comigo quando passo. Sabem que se ficarem do meu lado, podem sair ganhando. E se tem uma coisa que aprendi com meu pai, é que quem manda pode tudo. E eu mando.

Claro que o jeito da Thaís me agrada. Tem aquele toque inocente que me dá prazer em dominar, mas é o desafio que ela representa às vezes, a resistência que insiste em surgir de vez em quando, que me dá vontade de mostrar quem é que tá no controle. Quando consegui fazer ela largar a faculdade, eu soube que tinha vencido. Ela chorou, esperneou um pouco, mas no fim cedeu. E é assim que funciona: comigo não tem separação, não tem bate-boca. Se ela estiver com raiva ou irritada, que vá dormir. No dia seguinte tudo volta ao normal. E se tentar bancar a valentona, leva uns tapas pra lembrar do lugar dela.

Meu chefe tá abrindo uma nova unidade em Minas e pediu pra eu ir uns dias fazer o treinamento do pessoal lá. Em casa, não vai mudar nada. Ela vai continuar como sempre: trancada, com comida e o necessário, esperando eu voltar. Porque é assim que é. Mulher que ama, espera.

A única coisa que ainda me incomoda é aquela prima dela, intrometida, que vive ligando. Já quis até vir visitar. E o pior: a Thaís teve a ousadia de perguntar se ela podia ficar uns dias aqui. Claro que eu neguei. Imagina? Uma mulher cheia de ideias modernas, querendo ensinar coisa errada pra minha mulher? Aqui não. Eu não deixo ninguém meter o nariz na minha casa, muito menos no meu casamento.

Amanhã cedo eu viajo. O patrão até me liberou mais cedo hoje pra fazer as malas. Ainda sugeriu que eu levasse a Thaís comigo, disse que ia ter hotel, estrutura. Mas inventei que ela viajou pra casa da mãe, que segundo minha história acabou de falecer. Ele ainda tentou ser gentil, disse que entendia se eu quisesse ir ficar com ela, mas balancei a cabeça e disse que ela já tinha ido e que eu seguiria pro treinamento como combinado.

É isso. Ela fica. Eu vou. E quando voltar, vai estar tudo do jeito que deixei. Porque é assim que tem que ser. Porque ela é minha. E quem manda, sou eu.

Cheguei em casa e a primeira coisa que senti foi aquele cheiro forte de limpeza no ar. Piso brilhando, tudo no lugar. É assim que eu gosto. Não vou ficar sustentando mulher pra ela ficar deitada o dia inteiro, não. O mínimo que tem que fazer é manter a casa em ordem, minhas roupas limpas, comida pronta. Não tô pedindo favor, tô exigindo o que é obrigação.

— O que que aconteceu? — perguntei assim que olhei pra cara dela. Tava estranha. O olhar fugindo do meu, um sorrisinho sem graça que não convenceu ninguém.

— Não aconteceu nada, tá tudo bem… por quê? — respondeu ela, mas a voz deu aquela balançada no final. Eu conheço. Thaís nunca soube mentir bem.

Fui na direção dela devagar, firme, e agarrei o braço dela.

— Você está mentindo pra mim? — perguntei olhando de cima a baixo. Foi aí que vi o vestido. Tava rasgado na lateral e tinha sangue na barra.

— Que merda é essa? O que foi que aconteceu?

— Não é nada, já disse que nada aconteceu — ela tentou se soltar, puxando o braço.

Olhei de novo. Tinha alguma coisa errada ali. O olhar dela, o jeito de se esquivar… não colava.

— E isso no seu vestido é o que, então? Como foi que você fez isso?

— Não foi nada… — respondeu de novo, mas dava pra ver que não tinha firmeza nenhuma no que dizia.

Aquilo me deu raiva. Muita. Peguei ela pelo pescoço e encostei na parede.

— Eu quero saber agora o que você fez. Como é que você se machucou e não tem nenhuma marca? Tá me achando com cara de otário? Eu vou te ensinar a nunca mais mentir pra mim.

Soltei o pescoço dela com força e dei um tapa que fez ela cair sentada no chão. O som da pancada ecoou na sala, e o silêncio que veio depois foi ainda mais pesado.

Ela levou a mão ao rosto, chorando, e respondeu:

— Eu já disse que não foi nada, Emerson. O vestido rasgou porque prendeu num prego da porta. O sangue é do meu nariz… você sabe que quando eu fico nervosa, chorando, meu nariz sangra. A minha mãe acabou de morrer… como você acha que eu passei o dia inteiro?

Fiquei olhando pra ela, sentada no chão, abraçando os joelhos, o rosto vermelho e os olhos inchados.

Respirei fundo e revirei os olhos.

— E por que você não falou logo? Precisou disso tudo? Já falei que tem que parar com esse drama. Todo mundo vai morrer um dia, é o ciclo da vida. Não tem por que você ficar se arrastando por causa disso.

Fui direto.

— Levanta daí logo e termina essa comida, porque amanhã tô indo viajar. Vinte dias fora. E você vai ficar aqui, me entendeu? Se inventar de sair ou tentar chamar atenção de alguém, quando eu voltar, eu te mato.

Ela só assentiu com a cabeça, calada. Eu gostava quando ela ficava assim: quieta, obediente, no canto dela.

— Você precisa ir ao mercado antes de ir... o arroz tá acabando, e a carne que tinha só deu pra hoje — ela murmurou, quase num sussurro.

Revirei os olhos de novo.

— Não vai dar tempo. Ainda tem arroz e ovo na geladeira. Aprende a economizar e vai dar até eu voltar.

Sem esperar mais nada, virei as costas e fui direto pro banheiro. Eu ainda tinha que arrumar minhas coisas, tomar banho, descansar. E ela que fica

sse ali. Sozinha. No silêncio da casa que ela mesma limpou. Exatamente como deve ser.

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