Capítulo 1 01
ROMERO VASCONCELLOS
— Você está me dizendo que não pode ter filhos?
Minha própria voz ecoa pela sala.
Fico olhando para Greici.
Não porque espero uma explicação.
Espero uma mentira.
Qualquer uma serviria.
Mas ela não chora.
Não baixa a cabeça.
Não tenta parecer frágil.
Apenas cruza os braços e me encara.
— Foi exatamente isso que eu disse.
Franzo a testa.
— E você está tranquila?
Um sorriso pequeno surge nos lábios dela.
Não é um sorriso de tristeza.
É quase diversão.
— Deveria estar desesperada?
— Você acabou de descobrir que não pode me dar um herdeiro.
Ela inclina a cabeça.
— Corrigindo: descobri que talvez não possa gerar um filho.
— Para mim, dá no mesmo.
— Claro que dá.
Ela caminha até o sofá e se senta com uma calma irritante.
Cruza as pernas.
— Afinal, tudo precisa girar em torno de Romero Vasconcellos.
Minha mandíbula trava.
— Não brinque comigo.
— Não estou brincando.
Ela pega uma taça de vinho que estava sobre a mesa e toma um gole.
— Você quer um herdeiro. Eu sei.
— E você sabe que isso é importante.
— Muito importante.
Ela sorri.
— Talvez mais importante do que sua própria esposa.
— Não coloque palavras na minha boca.
— Não preciso.
Ela coloca a taça sobre a mesa.
— Seu rosto já disse tudo.
Pego os exames.
— Os médicos disseram que as chances são muito baixas.
— Eu sei.
— E você não parece preocupada.
— Por que eu estaria?
Olho para ela.
— Porque você pode perder o seu casamento.
Greici solta uma risada.
Baixa.
Fria.
— Ah, Romero...
Ela se levanta.
— Você realmente acha que eu tenho medo de perder você?
Fico em silêncio.
Ela para diante de mim.
— Você se casou comigo porque precisava de uma esposa perfeita para o seu sobrenome.
— E você se casou comigo pelo quê?
Ela sorri.
— Pelo mesmo motivo.
A resposta me pega de surpresa.
— Dinheiro?
— Poder.
Ela não hesita.
— Status. Segurança. Seu sobrenome.
Aproxima-se mais.
— Não finja que nosso casamento nasceu de amor.
— Nunca disse que nasceu.
— Ótimo.
Ela ajeita o cabelo.
— Então estamos entendidos.
— Não estamos.
— Estamos, sim.
— Eu quero um filho.
— Eu sei.
— Um herdeiro.
— Também sei.
— E você não pode me dar um.
Ela sustenta meu olhar.
— Talvez eu não possa gerar um.
— Não faça diferença.
— Faz toda diferença.
Ela sorri de lado.
— Porque você ainda precisa de mim.
— Para quê?
— Para manter as aparências.
Silêncio.
Greici sabe exatamente onde tocar.
— Pense bem, Romero. Você é um homem respeitado. Um homem poderoso. Não pode simplesmente anunciar que sua esposa é incapaz de lhe dar um filho e depois sair procurando outra mulher.
— Posso fazer o que quiser.
— Pode.
Ela se aproxima do meu ouvido.
— Mas não deveria.
Afasto-me.
— Está me ameaçando?
— Estou te lembrando de quem eu sou.
— Minha esposa.
— Exatamente.
Ela pega os exames da minha mão.
— E, enquanto eu for sua esposa, ninguém vai ocupar meu lugar.
— Você não pode me impedir de ter um filho.
— Posso dificultar bastante.
Encaro-a.
— Você está se divertindo com isso.
— Um pouco.
— Você é doente.
— E você é previsível.
Ela devolve os exames.
— Vai procurar uma barriga de aluguel?
— Se for necessário.
— Então procure.
Ela dá um sorriso.
— Mas escolha bem.
— Por quê?
— Porque, quando essa mulher colocar os pés na sua vida, eu vou fazer questão de lembrar a ela quem é a verdadeira senhora Vasconcellos.
— Você acha que eu vou permitir que você maltrate a mãe do meu filho?
Greici ergue uma sobrancelha.
— Mãe?
Ela ri.
— Não seja ridículo.
— O que quer dizer?
— Ela vai carregar seu filho.
Aproxima-se novamente.
— Isso não significa que vai fazer parte da sua família.
— E você vai decidir isso?
— Alguém precisa.
Viro-me e caminho até a janela.
— Você está diferente.
— Não.
Ela sorri.
— Você apenas finalmente está conhecendo quem eu sou.
Olho para ela.
Pela primeira vez desde que recebi os exames, sinto que existe alguma coisa naquela mulher que eu não conheço.
E isso me incomoda.
— Amanhã vou à clínica.
— Vá.
— Vou procurar uma solução.
— Procure.
— E se eu encontrar uma mulher disposta a gerar meu filho?
Greici pega a bolsa.
— Então faça um favor a si mesmo.
— Qual?
Ela para diante da porta.
Olha para mim por cima do ombro.
— Não se apaixone por ela.
Meu olhar endurece.
— Isso nunca vai acontecer.
Greici sorri.
— Eu sei.
Abre a porta.
— Você não sabe amar ninguém, Romero.
— E você?
Ela segura a maçaneta.
— Eu sei amar.
Uma pausa.
— Só não confundo amor com fraqueza.
Ela sai.
Fico sozinho na sala.
Olho novamente para os exames.
Depois para a porta por onde ela acabou de desaparecer.
Greici não estava destruída.
Não estava com medo.
Não estava sequer preocupada.
Ela estava tranquila demais.
E, pela primeira vez, uma pergunta surge na minha cabeça:
O que exatamente minha esposa estava escondendo?
---
Na manhã seguinte, chego à clínica antes mesmo dela.
Sento na sala particular enquanto o médico analisa os exames.
— Como expliquei, senhor Vasconcellos, a condição da sua esposa torna uma gestação natural extremamente improvável.
— Fertilização?
— Podemos tentar.
— Chances?
Ele hesita.
— Baixas.
— Então não quero perder tempo.
O médico respira fundo.
— Existe outra possibilidade.
Levanto os olhos.
— Qual?
— Gestação por substituição.
Fico em silêncio.
— Uma mulher saudável poderia gestar o embrião.
— Meu filho.
— Possivelmente.
— Não gosto de "possivelmente".
— Precisamos realizar exames para determinar a viabilidade.
— Faça.
— Sua esposa precisa concordar.
— Ela vai saber.
A porta se abre.
Greici entra.
Dessa vez, não pede desculpas.
Nem explica o atraso.
Senta-se ao meu lado.
— E então?
Olho para ela.
— Encontramos uma solução.
Ela cruza as pernas.
— Estou ouvindo.
— Gestação por substituição.
Ela fica em silêncio.
Depois sorri.
— Interessante.
— Você não parece surpresa.
— Eu sabia que você chegaria nisso.
— Sabia?
— Conheço você.
Inclino-me para frente.
— Então já decidiu?
— Ainda não.
— O que está esperando?
Ela me encara.
— Quero saber o que ganho com isso.
— Você continua sendo minha esposa.
— Isso não é um benefício.
O médico olha para nós dois.
Eu permaneço em silêncio.
Greici se levanta.
— Quero garantias.
— De quê?
— Que essa mulher não vai permanecer na nossa vida depois que a criança nascer.
— Isso será resolvido.
— E que ela não terá direito a nada.
— Será feito um contrato.
Greici sorri.
— Ótimo.
— Você aceita?
Ela pega a bolsa.
— Aceito.
— Tão fácil assim?
Ela para.
— Romero, eu não tenho medo de dividir seu útero com outra mulher.
Meu olhar endurece.
— É meu filho que ela vai carregar.
— Melhor ainda.
Ela sorri.
— Porque, no fim, o filho será seu.
— E você?
Ela me encara.
— Eu continuarei sendo sua esposa.
— Mesmo sabendo que outra mulher estará carregando meu filho?
— Claro.
Ela se aproxima.
— Afinal, Romero...
Baixa a voz.
— Eu não preciso gerar o seu herdeiro para continuar sendo a mulher que manda nesta casa.
E sai.
Fico olhando para a porta fechada.
O médico limpa a garganta.
— Sua esposa parece bastante segura de si.
— Ela é.
— E o senhor confia nela?
Olho novamente para os exames.
— Não.
A resposta sai antes que eu consiga pensar.
E talvez aquele tenha sido o primeiro sinal de que meu casamento estava muito mais podre do que eu imaginava.
Porque Greici não tinha medo de perder o marido.
Ela tinha certeza de que nunca perderia o poder.
