Capítulo 2 02

GREICI VASCONCELLOS NARRANDO

Talvez, para ele, eu seja apenas mais uma cláusula esperando o fim do contrato.

Fico alguns segundos olhando para o teto.

Então me levanto.

Chega.

Já chorei o suficiente por um homem que não derramaria uma lágrima por mim.

Vou até o banheiro, lavo o rosto e encaro meu reflexo no espelho.

Meus olhos estão vermelhos.

Minha expressão, não.

Ela está fria.

Pego a escova e começo a pentear os cabelos.

Devagar.

Sem pressa.

Se Romero quer uma esposa perfeita, terá uma.

Só não terá mais a mulher apaixonada que fazia de tudo para agradá-lo.

Essa morreu hoje.

Saio do banheiro e abro o closet.

Escolho um vestido preto.

Salto alto.

Brincos discretos.

Passo perfume.

Maquiagem impecável.

Quando termino, pareço exatamente a mulher que todos esperam que eu seja.

Greici Vasconcellos.

Esposa de Romero Vasconcellos.

Elegante.

Intocável.

Perfeita.

Desço as escadas.

Encontro Romero na sala.

Ele está ao telefone.

— Resolva isso ainda hoje.

Ele encerra a ligação quando percebe minha presença.

Seus olhos passam pelo meu corpo.

Depois encontram os meus.

— Vai sair?

— Sim.

— Para onde?

Pego minha bolsa sobre o aparador.

— Não sabia que precisava pedir autorização.

— Não foi isso que perguntei.

— Então não precisa de resposta.

Ele me observa por alguns segundos.

— Está diferente.

Dou um sorriso pequeno.

— Estou exatamente igual.

— Não parece.

— Talvez você só tenha começado a prestar atenção.

Passo por ele.

— Greici.

Paro.

— O quê?

— Precisamos conversar.

Olho para o relógio.

— Sobre?

— Sobre o que aconteceu.

— Já conversamos.

— Não terminamos.

— Para mim, terminou.

Ele se aproxima.

— Você está com raiva.

— Não.

— Está magoada.

— Também não.

— Então o que está sentindo?

Olho diretamente para ele.

— Nada.

Ele franze a testa.

— Nada?

— É.

Dou de ombros.

— Você deixou bem claro o que nosso casamento significa para você.

— Eu só fui honesto.

— E eu agradeço.

— Agradece?

— Sim.

Ele parece não entender.

— Pelo menos agora eu sei onde estou pisando.

Cruzo os braços.

— Isso facilita bastante.

— O que você pretende fazer?

— Continuar sendo sua esposa.

— Só isso?

— Por enquanto.

Ele me encara.

— E sobre o tratamento?

— Não vou fazer.

— Por quê?

— Porque você já decidiu que não vale a pena.

— Eu disse que não quero perder anos.

— Então não perca.

Ele fica em silêncio.

— Existe outra alternativa.

Já sei qual é.

Mesmo assim, pergunto:

— Qual?

— Uma barriga de aluguel.

Meu rosto permanece impassível.

— Entendi.

— O médico disse que é uma possibilidade.

— Ótimo.

Ele parece surpreso com a minha reação.

— Você não vai discutir?

— Não.

— Não vai perguntar quem será?

— Quando eu precisar saber, você me conta.

— Greici...

— O quê?

— Isso não está parecendo normal.

Sorrio.

— Nosso casamento nunca foi normal.

Ele sustenta meu olhar.

— Você está aceitando outra mulher carregando meu filho?

— Seu filho.

Faço questão de corrigir.

— Não meu.

Ele se aproxima mais.

— Ela vai entrar na nossa vida.

— Então cuide para que ela saiba o lugar dela.

— E qual é o lugar dela?

Meu sorriso desaparece.

— Fora do meu casamento.

Romero permanece em silêncio.

— Eu não vou impedir você de ter seu herdeiro.

Faço uma pausa.

— Mas também não vou abrir espaço para outra mulher ocupar o meu lugar.

— Você acabou de dizer que não sente nada.

— Não confunda falta de amor com falta de orgulho.

Ele me olha de uma maneira diferente.

— Está me dizendo que não me ama mais?

Meu peito aperta.

Mas minha voz permanece firme.

— Estou dizendo que isso deixou de ser problema seu.

Ele fica parado.

— Greici...

— Você queria uma esposa.

Pego minha bolsa.

— Vai continuar tendo uma.

Caminho até a porta.

— Só não espere mais uma mulher apaixonada por você.

Abro a porta.

— Onde vai?

Olho para trás.

— Fazer compras.

Ele arqueia uma sobrancelha.

— Depois de tudo isso?

— Exatamente.

Saio.

Assim que entro no carro, meu sorriso desaparece.

Não porque estou triste.

Porque estou pensando.

Romero quer um filho.

Quer uma mulher para gerar esse filho.

Quer manter o casamento.

Perfeito.

Ele terá tudo.

Mas vai pagar caro.

Ligo o carro.

Enquanto dirijo, pego o celular e faço uma ligação.

— Alô?

— Sou eu.

— Greici?

— Preciso de um favor.

— Que tipo de favor?

Olho pelo retrovisor.

— Preciso que descubra tudo sobre uma mulher.

— Quem?

— Ainda não sei o nome.

— Então o que eu procuro?

— Mulheres que estejam sendo avaliadas pela clínica para gestação por substituição.

Há um breve silêncio.

— Você quer encontrar a barriga de aluguel do Romero?

— Quero.

— Para quê?

Sorrio.

— Para conhecê-la antes dele.

— Greici...

— Não faça perguntas.

— E se ela já tiver sido escolhida?

— Melhor ainda.

Desligo.

Aperto o volante.

Romero acredita que está resolvendo um problema.

Ele ainda não percebeu que acabou de criar outro.

Muito maior.

Porque se aquela mulher entrar na minha casa...

Eu vou descobrir tudo sobre ela.

De onde veio.

O que quer.

Quanto dinheiro deseja.

E, principalmente...

o quanto está disposta a fazer para entrar na vida de Romero Vasconcellos.

Porque eu posso não conseguir dar um filho a ele.

Mas ninguém vai tomar de mim o lugar que conquistei.

Nem mesmo a mulher que ele escolher para gerar o herdeiro.

Se Romero quer brincar de família...

Eu também sei jogar.

E não tenho intenção de perder.

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