Capítulo 3 03

LORENA DUARTE NARRANDO

— Você não pode fazer isso comigo!

Minha voz sai mais alta do que eu pretendia.

Meu irmão permanece sentado no sofá, completamente tranquilo, enquanto eu seguro as chaves da casa entre os dedos.

— Posso, sim.

— Essa casa era do nosso pai!

— Era.

Ele dá de ombros.

— Agora é minha.

Sinto meu peito apertar.

— Você não pode simplesmente me expulsar.

— Posso porque o imóvel ficou no meu nome.

— Mas papai nunca faria isso!

Ele ri.

— Papai morreu, Lorena.

As palavras me atingem como um tapa.

Fico alguns segundos sem conseguir responder.

Meu pai morreu há poucas semanas.

Ainda parece impossível dizer isso em voz alta.

E agora, além de perder a única pessoa que eu tinha, estou prestes a perder a única coisa que ele deixou para mim.

— Eu não tenho para onde ir.

Meu irmão se levanta.

— Isso não é problema meu.

— Eu sou sua irmã.

— E daí?

Ele passa por mim e abre a porta.

— Você tem emprego.

Olho para ele, incrédula.

— Eu ganho pouco.

— Então procure outro.

— Eu não consigo pagar um aluguel sozinha.

— Problema seu.

Ele pega uma caixa que estava no corredor e coloca algumas das minhas coisas dentro.

— Você tem até o fim do dia.

— Você está falando sério?

— Muito.

Sinto meus olhos encherem de lágrimas.

Não vou chorar na frente dele.

Não vou dar esse gosto.

Pego minha bolsa e começo a guardar algumas roupas às pressas.

Tudo o que consigo carregar.

Meu pai morreu e, em poucas semanas, minha vida inteira desmoronou.

Quando saio pela porta, olho uma última vez para aquela casa.

A casa onde cresci.

A casa onde meu pai ainda parecia estar presente em cada canto.

Respiro fundo.

— Eu vou conseguir.

Digo para mim mesma.

Mesmo sem acreditar.

Horas depois, estou sentada no fundo do ônibus, com uma pequena mala ao meu lado e o celular na mão.

Tenho pouco dinheiro na conta.

Pouquíssimo.

Não sei onde vou dormir.

Minha melhor opção é ficar alguns dias na casa de uma colega da cafeteria, até conseguir encontrar algum quarto barato para alugar.

Olho pela janela.

Rio de Janeiro passa diante dos meus olhos, mas hoje a cidade parece maior do que nunca.

Meu celular vibra.

É uma mensagem da gerente.

“Lorena, consegue chegar mais cedo amanhã?”

Respondo:

“Consigo.”

Não posso perder meu emprego.

É a única coisa que ainda tenho.

No dia seguinte, estou atrás do balcão da cafeteria desde cedo.

Sorrio para os clientes.

Sirvo cafés.

Entrego pedidos.

Finjo que está tudo bem.

Mas não está.

Minha cabeça dói e minhas pernas estão pesadas.

No intervalo, sento em uma pequena mesa nos fundos e conto o dinheiro que tenho na carteira.

Não chega nem perto do suficiente para pagar um aluguel.

Fecho os olhos.

— O que eu vou fazer?

Murmuro para mim mesma.

Uma lágrima escapa.

Passo rapidamente a mão pelo rosto quando escuto a voz da gerente.

— Lorena?

Levanto a cabeça.

— Oi?

— Você está bem?

Forço um sorriso.

— Estou.

Ela me observa por alguns segundos, mas não insiste.

Volto ao trabalho.

Até o fim do expediente.

Quando finalmente saio da cafeteria, o céu está completamente escuro.

E começa a chover.

Muito.

Puxo a bolsa contra o corpo e corro para debaixo do pequeno toldo da entrada.

Meu celular está quase sem bateria.

Não tenho dinheiro para um táxi.

E não tenho para onde ir.

Encosto na parede e fecho os olhos.

Dessa vez, não consigo segurar.

As lágrimas começam a cair.

Misturadas à chuva.

Baixo a cabeça e abraço meu próprio corpo.

— Pai...

Minha voz sai quebrada.

— Eu não sei o que fazer.

Não percebo o carro preto que para do outro lado da rua.

Não percebo o homem que desce dele.

Só continuo chorando.

Até ouvir uma voz masculina atrás de mim.

— Você está esperando alguém?

Levanto o rosto.

E encontro um homem que nunca vi na vida.

Terno escuro.

Expressão séria.

Postura imponente.

Ele me observa em silêncio.

Não parece alguém acostumado a perguntar duas vezes.

Enxugo rapidamente o rosto.

— Não.

Ele olha para a chuva.

Depois para mim.

— Então por que está aqui sozinha?

Aperto a alça da bolsa.

— Porque não tenho para onde ir.

O homem fica em silêncio.

E, naquele momento, eu não faço ideia de quem ele é.

Não sei que aquele homem é Romero Vasconcellos.

Não sei que ele acabou de sair de uma reunião onde discutia justamente a possibilidade de encontrar uma mulher para gerar seu herdeiro.

E muito menos imagino que, naquela noite de chuva, enquanto eu só consigo pensar em como vou sobreviver ao dia seguinte...

ele está prestes a enxergar em mim a solução para um problema que o dinheiro dele ainda não conseguiu resolver.

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