Capítulo 4 04
ROMERO VASCONCELLOS NARRANDO
Não sei por que parei.
Talvez porque aquela garota esteja completamente sozinha debaixo de uma chuva que parece não ter fim.
Talvez porque exista alguma coisa no jeito como ela segura a bolsa contra o corpo que me faz pensar que ela realmente não tem para onde ir.
Ou talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, alguma coisa tenha despertado minha curiosidade.
— Você não tem para onde ir? — repito.
Ela balança a cabeça.
— Não.
— Família?
Ela hesita.
— Não tenho mais ninguém.
Observo seu rosto.
Ela tenta esconder que está chorando, mas os olhos vermelhos entregam tudo.
— Amigos?
— Tenho uma colega do trabalho.
— E não pode ficar com ela?
— Já estou ficando.
Ela respira fundo.
— Só que não posso ficar lá por muito tempo.
Cruzo os braços.
— Então está procurando um lugar para morar?
Ela me encara, desconfiada.
— Estou.
— Quanto ganha?
Ela arregala os olhos.
— Desculpa?
— Seu salário.
— Por que quer saber?
— Responda.
Ela cruza os braços.
— Isso não é da sua conta.
Ergo uma sobrancelha.
Ela está chorando há poucos minutos e ainda encontra forças para me enfrentar.
Interessante.
— Você tem razão.
Dou um passo para trás.
— Não é da minha conta.
Ela parece surpresa.
Olho para o relógio.
Eu deveria ir embora.
Tenho uma reunião amanhã cedo.
Tenho empresas para administrar.
Tenho um casamento por contrato chegando ao fim.
E tenho um problema muito maior para resolver.
Um herdeiro.
Mas, quando volto a olhar para aquela garota, uma ideia começa a surgir.
Ainda não é uma decisão.
Apenas uma possibilidade.
— Qual é o seu nome?
Ela hesita novamente.
— Lorena.
— Lorena...
Repito o nome mentalmente.
— Lorena Duarte.
Ela franze a testa.
— Como sabe meu sobrenome?
Aponto para o crachá preso ao uniforme.
— Está escrito aí.
Ela olha para o próprio peito e parece constrangida.
Quase sorrio.
Quase.
— Quantos anos você tem?
— Vinte.
Vinte.
Muito jovem.
Desvio o olhar por um instante.
Não sei por que estou fazendo aquelas perguntas.
Ou talvez saiba.
Uma mulher para uma gestação de substituição precisa cumprir vários critérios.
Saúde.
Idade.
Exames.
Histórico.
E, acima de tudo, precisa aceitar o acordo.
Lorena parece estar em uma situação financeira delicada.
Isso pode facilitar.
Mas não posso tomar uma decisão baseada apenas nisso.
— Você está trabalhando aqui há quanto tempo?
— Alguns meses.
— Gosta do trabalho?
Ela dá de ombros.
— É o que eu tenho.
A resposta me faz olhar novamente para ela.
É o que eu tenho.
Conheço aquele tipo de frase.
Não porque já tenha vivido aquela realidade.
Mas porque sei reconhecer alguém que está sem opções.
— Entre no carro.
Ela arregala os olhos.
— O quê?
— Está chovendo.
— Eu não vou entrar no carro de um desconhecido.
— Justo.
Abro a porta do carro.
— Então espere a chuva passar.
Entro e fecho a porta.
Não insisto.
Se ela quiser continuar ali, problema dela.
Mas, antes de ligar o motor, olho pelo retrovisor.
Lorena continua parada no mesmo lugar.
Sozinha.
Molhada.
Com uma pequena bolsa apertada contra o corpo.
Penso novamente no que o médico me disse.
Gestação por substituição.
Talvez eu tenha acabado de encontrar alguém que possa ser avaliada.
Mas ainda não sei se ela é saudável.
Não sei se aceitaria.
Não sei nem se quero que seja ela.
Só sei que não posso tomar uma decisão precipitada.
Pego o celular.
— Alô?
Meu advogado atende.
— Preciso que você faça uma coisa.
— Agora?
— Agora.
Olho novamente para Lorena.
— Quero que levante todas as informações possíveis sobre a clínica que trabalha com gestação por substituição.
— Já estamos pesquisando isso.
— Então acelere.
Faço uma pausa.
— E encontre os critérios para selecionar uma candidata.
— Alguma candidata específica?
Olho para a garota através do vidro.
— Talvez.
— Quem?
— Ainda não sei.
Desligo.
Ligo o carro.
Antes de partir, olho uma última vez para Lorena.
Ela continua sem saber quem sou.
E eu ainda não sei se ela fará parte dos meus planos.
Mas alguma coisa me diz que essa noite não terminou por acaso.
