Capítulo 5 05
LORENA DUARTE
A porta da cafeteria bate atrás de mim no instante em que eu termino de guardar minhas coisas.
— Você vai mesmo embora sozinha nesse horário?
A voz de Camila me faz parar.
Olho por cima do ombro e encontro minha colega encostada no balcão, me observando com aquela expressão preocupada que ela tenta disfarçar desde que descobriu que eu não tenho para onde voltar.
— Eu não tenho muita escolha.
— Pode dormir lá em casa de novo.
— Eu já estou abusando da sua boa vontade.
— Lorena, você não está abusando de nada.
Dou um sorriso pequeno, mas não consigo sustentar.
— Estou, sim.
Pego minha bolsa e ajeito a alça no ombro.
Desde que saí da casa do meu pai, tudo parece provisório.
Minha roupa é provisória.
O lugar onde durmo é provisório.
Até a minha vida parece estar esperando alguém decidir o que vai acontecer comigo.
Camila suspira.
— Você falou com seu irmão?
Meu corpo endurece.
— Não quero falar sobre ele.
— Mas ele não pode simplesmente...
— Pode, Camila.
Interrompo antes que ela termine.
— Ele fez questão de deixar isso bem claro.
Meu pai morreu e, pouco tempo depois, eu descobri que o homem que deveria ser meu irmão não enxergava aquela casa como a última lembrança do nosso pai. Para ele, era apenas um imóvel.
Um imóvel que estava no nome dele.
E isso bastou.
Não importou que eu tivesse crescido ali.
Não importou que todas as minhas lembranças estivessem naquele lugar.
Não importou que, depois da morte do meu pai, aquela casa fosse tudo o que eu tinha.
Agora eu não tenho nem isso.
— Pelo menos espera a chuva diminuir — Camila pede.
Olho para a janela.
A chuva voltou.
Não tão forte quanto na noite anterior, mas suficiente para deixar as ruas molhadas e o céu completamente cinza.
Por um segundo, lembro do homem que apareceu diante de mim.
O homem do carro preto.
A voz grave.
O olhar sério.
As perguntas estranhas.
Principalmente a última coisa que ele perguntou.
Minha idade.
Não sei por que isso ainda está na minha cabeça.
Talvez porque ele tenha me olhado como se estivesse tentando descobrir alguma coisa.
— Você está pensando naquele homem, não está?
Volto os olhos para Camila.
— Que homem?
Ela ergue uma sobrancelha.
— O homem do carro preto.
Meu rosto esquenta.
— Não estou pensando nele.
— Está, sim.
— Ele só parou para perguntar se eu estava esperando alguém.
— E você contou para ele que não tinha para onde ir.
— Eu estava desesperada.
Camila se aproxima.
— E ele?
— Foi embora.
— Só isso?
— Só.
Não conto que ele perguntou meu nome.
Nem que perguntou minha idade.
Nem que fiquei com a sensação estranha de que ele estava analisando cada resposta que eu dava.
— Então pronto — ela diz. — Você não vai mais vê-lo.
Não sei por que aquela frase me incomoda.
Talvez porque uma parte de mim realmente acredite nisso.
— É melhor assim.
Pego meu guarda-chuva.
— Vou embora.
— Me manda mensagem quando chegar.
— Eu mando.
Saio da cafeteria.
O vento frio bate no meu rosto imediatamente.
Seguro o guarda-chuva com força e começo a caminhar.
Não tenho dinheiro para pegar um carro por aplicativo.
Meu salário mal consegue cobrir minhas necessidades básicas, e agora ainda tenho que pensar em como vou conseguir pagar algum lugar para morar.
Ando alguns metros quando meu celular vibra.
Olho para a tela.
Uma mensagem do meu irmão.
Meu coração acelera.
Abro.
“Espero que tenha tirado suas coisas da casa. Não volte.”
Fico parada no meio da calçada.
É isso.
Nem uma pergunta.
Nem um pedido de desculpas.
Nem uma palavra sobre nosso pai.
Apenas uma ordem.
Apago a mensagem.
Guardo o celular.
E continuo andando.
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Na manhã seguinte, chego à cafeteria mais cedo do que o normal.
Não dormi direito.
Passei boa parte da madrugada pensando em dinheiro.
Quanto tenho.
Quanto preciso.
Quanto tempo consigo continuar na casa da Camila sem começar a me sentir um peso.
E, principalmente, onde vou morar.
Estou colocando as primeiras xícaras no balcão quando meu celular toca.
É um número desconhecido.
Atendo.
— Alô?
— Lorena Duarte?
Minha postura muda.
— Sim.
— Estou falando da clínica Santa Helena.
Meu coração bate mais forte.
— Clínica?
— Sim. Gostaria de confirmar alguns dados seus.
Franzo a testa.
— Acho que você ligou para a pessoa errada.
— Seu nome completo é Lorena Duarte?
— Sim.
— Vinte anos?
Fico em silêncio.
Meu estômago se aperta.
— Sim, mas...
— Você possui disponibilidade para comparecer a uma entrevista?
— Entrevista para quê?
A mulher do outro lado faz uma pequena pausa.
— Para um processo de avaliação.
— Avaliação de quê?
Mais uma pausa.
— A senhora teria que comparecer pessoalmente para receber todas as informações.
Meu coração começa a acelerar.
— Eu nunca me candidatei a nada nessa clínica.
— Nós sabemos.
— Então como conseguiram meu número?
A pergunta parece deixá-la desconfortável.
— Seus dados foram encaminhados para uma pré-avaliação.
— Por quem?
Ela não responde imediatamente.
— A senhora pode comparecer hoje?
Olho para o relógio.
— Estou trabalhando.
— Podemos marcar para depois do seu expediente.
Minha primeira reação é desligar.
Tem alguma coisa errada.
Muito errada.
— Não estou interessada.
— Lorena, espere.
— Como vocês conseguiram meus dados?
— Seu nome foi incluído entre algumas possíveis candidatas.
Sinto um arrepio.
— Candidatas a quê?
Silêncio.
Então ela responde:
— Gestação por substituição.
Meu corpo inteiro congela.
Por alguns segundos, esqueço até de respirar.
— O quê?
— Gestação por substituição. A senhora pode receber todas as explicações pessoalmente, inclusive sobre a remuneração e os critérios médicos.
Remuneração.
A palavra fica presa na minha cabeça.
— Quanto?
Pergunto antes mesmo de conseguir pensar.
A mulher parece perceber minha mudança de tom.
— Isso depende da avaliação e do contrato, mas é uma proposta financeiramente significativa.
Olho para o balcão.
Para as poucas notas que tenho na carteira.
Para a minha mochila velha.
Para a realidade que estou tentando esconder de todo mundo.
— Quanto?
— Só podemos informar os valores após a entrevista.
Fecho os olhos por um instante.
— Onde fica?
Ela passa o endereço.
Anoto.
— Hoje?
— Se for possível.
Desligo.
Fico parada.
— Lorena?
A voz de Camila me faz levantar os olhos.
— Quem era?
Engulo em seco.
— Uma clínica.
— Você está bem?
— Estou.
Não estou.
Definitivamente não estou.
Porque agora existe uma coisa na minha frente que pode mudar tudo.
E eu nem sei se deveria considerar.
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No fim do expediente, troco de roupa rapidamente e sigo para a clínica.
Durante todo o caminho, penso que deveria desistir.
É absurdo.
Eu não conheço ninguém.
Não sei quem colocou meu nome naquela seleção.
Não sei quanto dinheiro estão oferecendo.
Não sei sequer se tenho coragem para fazer uma coisa dessas.
Mas, quando entro na clínica, percebo imediatamente que aquilo não é uma brincadeira.
O lugar é enorme.
Luxuoso.
Silencioso.
Tudo parece caro.
Uma recepcionista confere meu nome e pede que eu aguarde.
Sento.
Cruzo as mãos sobre o colo.
Minutos depois, uma mulher de jaleco vem até mim.
— Lorena Duarte?
Levanto.
— Sim.
— Meu nome é doutora Helena. Pode me acompanhar.
Entro em uma sala.
Ela fecha a porta.
— Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que você não está obrigada a aceitar absolutamente nada.
Assinto.
— Eu só quero entender.
Ela sorri.
— É exatamente assim que deve ser.
Sento diante dela.
— Como vocês chegaram até mim?
Ela hesita.
— Seu perfil foi indicado para uma avaliação preliminar.
— Por quem?
— Um responsável pelo processo.
— Quem?
— Ainda não posso revelar todos os detalhes.
Franzo a testa.
— Então vocês sabem quem eu sou, mas eu não sei quem está interessado em mim?
— É uma situação um pouco mais complexa.
— Eu não gosto disso.
— E você está certa em questionar.
Ela abre uma pasta.
— Vinte anos. Sem filhos. Sem histórico de gestação. Sem doenças relevantes registradas. Trabalha em uma cafeteria. Mora atualmente com uma amiga.
Meu coração dispara.
— Como vocês sabem onde eu moro?
A médica percebe meu desconforto.
— As informações foram levantadas para verificar se você poderia se enquadrar nos critérios básicos.
— Isso não responde.
Ela fecha a pasta.
— Você tem todo o direito de recusar.
Levanto.
— Acho melhor eu ir embora.
— Lorena.
Paro.
— Posso pelo menos explicar quanto seria a remuneração?
Meu corpo hesita.
O orgulho diz para eu ir embora.
A necessidade manda ficar.
Volto a sentar.
— Pode.
Ela fala o valor.
Não consigo esconder a reação.
É dinheiro suficiente para mudar completamente minha vida.
Dinheiro suficiente para alugar uma casa.
Comprar móveis.
Pagar dívidas.
Guardar.
Ter segurança.
Ter, finalmente, alguma coisa que ninguém pudesse simplesmente tomar de mim.
— Mas existe uma série de exigências — ela continua. — Avaliação médica completa, psicológica, acompanhamento durante toda a gestação e um contrato detalhado.
— E o bebê?
— Seria biologicamente dos pais contratantes. Você seria apenas a gestante.
Aperto os dedos.
— Eu não teria direito sobre ele?
— O contrato estabelece isso.
Baixo os olhos.
— E depois?
— Depois do nascimento, o acordo é encerrado, respeitando todas as condições legais previstas.
Fico em silêncio.
Uma pergunta surge.
— Quem é o pai?
A médica não responde.
— Você saberá quando houver uma proposta formal.
Meu coração acelera novamente.
— Então eu estou sendo avaliada para gerar o filho de um homem que eu nem conheço?
— Basicamente, sim.
Solto uma risada nervosa.
— Isso é loucura.
— Pode ser. Por isso você não deve decidir hoje.
Olho novamente para o valor anotado no papel.
Minha vida inteira parece caber naquele número.
— Eu quero pensar.
— Claro.
Levanto.
Quando estou quase chegando à porta, meu celular vibra.
Olho para a tela.
Outra mensagem de um número desconhecido.
“Não assine nada. Primeiro descubra quem está por trás dessa proposta.”
Meu sangue gela.
Levanto os olhos lentamente para a médica.
— Doutora...
— Sim?
Mostro a tela.
Ela perde o sorriso.
E, naquele instante, percebo que talvez aquela proposta seja muito maior do que eu imaginava.
