Capítulo 1

No dia em que a terceira tentativa de inseminação artificial de Lily Carter deu errado, seu marido estava no mesmo hospital, celebrando a gravidez de outra mulher.

— Sinto muito, Sra. Carter. Desta vez também não deu certo.

Lily continuou deitada na mesa de exame. Sob seus dedos tensos, o lençol de papel farfalhava.

Por alguns instantes, ela não reagiu.

Era a terceira tentativa.

A terceira vez que tinha ido sozinha ao hospital. Que tinha enfrentado o procedimento sozinha. Que tinha esperado por um resultado capaz de lhe dar, enfim, um motivo para continuar.

E, mais uma vez, tinha fracassado.

O Dr. Smith consultou o laudo antes de encará-la. Apesar da perplexidade evidente, suavizou a voz.

— Você e seu marido são casados oficialmente. Pelos exames anteriores, nenhum dos dois apresenta problemas de fertilidade. Posso perguntar por que vocês continuam recorrendo à inseminação artificial?

O rosto de Lily ardeu de vergonha.

Por quê?

Porque o marido não tocava nela.

Porque Ethan Blake nunca tinha aceitado de verdade aquele casamento.

Naquele dia, completavam três anos de casados. E lá estava ela, deitada numa sala de exames, tentando engravidar por meio de um procedimento que o marido mal aceitava.

Lily se sentou devagar e fechou o casaco em torno do corpo.

— Temos nossos motivos.

O Dr. Smith não insistiu.

— Se ainda quiser continuar, seu marido vai precisar voltar para fornecer uma nova amostra de sêmen no próximo ciclo.

Ela baixou os olhos.

— Entendo.

Ao sair do consultório, Lily ficou algum tempo sozinha no corredor antes de pegar o celular.

Ethan demorou a atender. Quando finalmente atendeu, sua voz estava fria e impaciente.

— O que foi?

Lily apertou o laudo.

— O médico disse que falhou de novo. Se quisermos continuar tentando, você precisa voltar ao hospital mais uma vez.

Houve um breve silêncio.

Então Ethan soltou uma risada sem humor.

— Lily, você ainda não cansou disso?

O coração dela despencou.

— Se meu avô não tivesse me obrigado, eu nem teria me casado com você. E agora você ainda quer me arrastar para ter um filho?

A garganta de Lily se fechou.

— Só mais uma vez. Por favor.

— Não.

Seco. Definitivo.

Antes que ela pudesse responder, Ethan desligou.

Lily encarou a tela apagada, com os dedos gelados em torno do aparelho.

Depois de três anos, já deveria estar acostumada à crueldade dele.

Mesmo assim, ainda doía.

Ela respirou fundo, obrigou-se a se levantar e seguiu em direção à saída.

Para chegar aos elevadores, precisava passar pela ala VIP da obstetrícia.

Lily não pretendia olhar para dentro, mas duas enfermeiras cruzaram o corredor às pressas, falando baixo.

— Por que você demorou tanto? A paciente da sala VIP 3 já perguntou por você duas vezes.

— É só uma consulta de pré-natal, não uma emergência.

— Fale baixo. O Sr. Blake está lá dentro com ela.

Lily parou.

Sr. Blake?

Os dedos se fecharam sobre a alça da bolsa.

Muitas pessoas tinham aquele sobrenome.

Não precisava ser Ethan.

No instante seguinte, porém, uma voz familiar veio do corredor VIP.

— Vá devagar.

Lily se virou antes que pudesse se conter.

Ethan Blake estava diante de uma das salas de exame, amparando uma mulher pelo braço.

Ela usava um casaco folgado e um chapéu claro, abaixado sobre o rosto. De onde estava, Lily não conseguia reconhecê-la.

Mas via Ethan perfeitamente.

Ele se inclinou e falou com a mulher num tom gentil que Lily quase nunca tinha ouvido.

Quando ela levou a mão à barriga, Ethan segurou sua mão na mesma hora.

— Não tenha pressa. O médico disse que está tudo bem, mas você ainda precisa tomar cuidado.

Um zumbido tomou conta dos ouvidos de Lily.

Poucos minutos antes, ele tinha se recusado a continuar tentando ter um filho com a própria esposa.

Agora acompanhava outra mulher grávida a uma consulta.

A mulher disse alguma coisa que Lily não conseguiu ouvir.

Ethan respondeu:

— Você não faz ideia de como estou feliz. Vou ser pai.

Ele baixou os olhos para a barriga dela.

Aquele olhar bastou.

Lily não precisava ouvir mais nada.

Ela recuou e se escondeu atrás da esquina antes que Ethan a notasse.

O estômago se contraiu. A náusea veio tão depressa que ela quase engasgou.

Com uma mão sobre a boca, correu para o banheiro.

Pouco depois que Lily saiu, o Dr. Smith voltou ao consultório.

Uma enfermeira entrou às pressas, trazendo o resultado atualizado do laboratório.

— Dr. Smith, o resultado da repetição do exame da Sra. Carter acabou de sair.

Ele pegou o papel, correu os olhos pelas informações e ficou imóvel.

O resultado preliminar estava errado.

Lily Carter estava grávida.

A expressão do médico mudou na mesma hora.

Ele pegou o telefone.

— Chamem o diretor Whitmore. Agora.

O diretor Whitmore não imaginava que passaria a tarde em uma sala VIP, de pé, com o suor se acumulando sob o colarinho.

Henry Thornton estava sentado no sofá, aparentemente calmo. Ainda assim, ninguém na sala ousava respirar alto demais.

Apesar de jovem para ocupar uma posição tão elevada, Henry já comandava o Grupo Thornton, a principal empresa de uma das dinastias empresariais mais poderosas do país.

— Sr. Thornton — começou Whitmore, cauteloso —, ainda estamos investigando como sua amostra entrou no nosso sistema. Até o momento, podemos confirmar que houve uma falha interna no manuseio. A amostra foi usada por engano em uma paciente submetida à inseminação artificial.

O olhar de Henry esfriou.

— Usada por engano?

Whitmore endireitou as costas.

— Sim. Este é um incidente médico grave, e conduziremos uma investigação completa. No entanto...

Ele hesitou, mas logo prosseguiu:

— O resultado preliminar do teste de gravidez da paciente foi negativo. Por enquanto, tudo indica que não houve nenhuma consequência irreversível.

Henry não disse nada.

O silêncio era pior do que a raiva.

O celular de Whitmore tocou.

Ele quase se encolheu antes de atender.

Bastaram alguns segundos de conversa para o pouco de cor que ainda restava em seu rosto desaparecer.

Henry ergueu os olhos.

— O que foi?

Whitmore abaixou o celular lentamente.

— Sr. Thornton... o resultado da repetição do exame acabou de sair.

Sua voz estava seca.

— A paciente que recebeu sua amostra está grávida.

O silêncio tomou conta da sala.

Henry se levantou.

— Quem é ela?

Whitmore respondeu sem demora:

— Lily Carter. Ela foi atendida hoje em nosso setor de obstetrícia.

A expressão de Henry se fechou.

— Bloqueiem as saídas e tragam essa mulher até mim. Agora.

Lily mal tinha saído do hospital quando o celular tocou.

Na tela aparecia o nome de Catherine Young.

Sua mãe biológica.

Ela fitou o nome por um instante antes de atender.

— Mãe.

— Lily, onde você está? — perguntou Catherine. — Sua irmã conseguiu um novo emprego. Seu pai e eu vamos fazer um jantar em família hoje à noite para comemorar. Venha para casa.

O primeiro impulso de Lily foi recusar.

Estava exausta. Depois do que tinha acabado de ver, sentia um vazio no peito.

Mas a palavra casa a fez parar.

Talvez, depois do que tinha acontecido com Ethan, voltar para a família não fosse tão ruim.

Talvez alguém percebesse que havia algo errado.

Talvez, pelo menos uma vez, ela não precisasse enfrentar tudo sozinha.

— Tenho uma coisa para...

— Mia preparou uma surpresa para você — interrompeu Catherine. — Ela disse que você precisa estar lá.

Uma surpresa.

Lily hesitou.

Uma pequena parte dela queria acreditar que seria algo bom.

Após um momento, respondeu:

— Está bem. Eu vou.

Ela encerrou a ligação e caminhou até o meio-fio, sem saber que, atrás dela, as saídas do hospital já estavam sendo bloqueadas e o saguão mergulhava no caos.

Próximo Capítulo