Capítulo 2

A casa dos Carter estava toda iluminada quando Lily chegou.

Dava para ouvir as risadas antes mesmo de ela alcançar a porta.

Lily parou do lado de fora por um instante, segurando a alça da bolsa com força, e só então tocou a campainha.

A própria Catherine Young abriu a porta.

— Finalmente — disse Catherine, pegando Lily pelo braço. — Entre. Estão todos esperando.

— Mãe, eu...

— Conversamos depois. O jantar já começou. — Catherine se virou em direção à sala de jantar. — Não faça Mia esperar.

Lily engoliu o que estava prestes a dizer e entrou atrás dela.

Aquela casa nunca tinha sido realmente seu lar.

Ela e Mia tinham sido trocadas ao nascer. Mia crescera como a filha amada da família Carter, enquanto Lily fora criada em outro lugar. Quando a verdade veio à tona, Catherine e Abner já tinham passado anos criando Mia.

Por isso, escolheram ficar com ela.

E Lily se tornou a filha que sobrava. Aquela que nunca parecia pertencer de verdade.

Ainda assim, Catherine e Abner eram seus pais biológicos.

Naquela noite, Lily queria acreditar que isso significava alguma coisa.

Na sala de jantar, Abner Carter ocupava a cabeceira da mesa e servia o vinho. Mia Carter estava sentada ao lado dele, com um sorriso radiante.

Diante dela, uma caixa de joias de veludo aberta exibia um par de brincos de pérola.

Catherine sorriu.

— Gostou?

— Amei. — Mia tocou os brincos, satisfeita. — Mãe, você tem um gosto impecável.

— O importante é que você tenha gostado — respondeu Catherine, gentil.

Lily se sentou em silêncio diante de Mia.

Ninguém perguntou por que ela parecia tão cansada.

Ninguém quis saber se estava tudo bem.

Mia ergueu a cabeça e sorriu.

— Lily, finalmente chegou. Achei que talvez não viesse.

— Eu disse que viria. — Lily se obrigou a manter a calma. — Parabéns pelo novo emprego.

— Obrigada. — O sorriso de Mia se alargou. — Mas meu emprego não é a verdadeira surpresa.

Sob a mesa, Lily fechou os dedos com força.

— Então o que é?

Mia se recostou na cadeira e levou uma das mãos à barriga.

Lily sentiu o estômago afundar.

A mulher ao lado de Ethan no hospital tinha feito o mesmo gesto.

Mia a fitou diretamente.

— Estou grávida.

O silêncio caiu sobre a mesa.

Catherine e Abner não pareciam surpresos — pareciam satisfeitos.

A garganta de Lily se fechou.

— Quem é o pai?

Mia sorriu.

— Ethan.

Aquela única palavra a atingiu como um tapa.

Por alguns segundos, Lily não conseguiu se mover.

Então, tudo o que tinha acontecido no hospital voltou de uma vez.

A mulher grávida que Ethan estava protegendo era Mia.

— Ethan me acompanhou em todas as consultas. Ele está muito feliz com o bebê — declarou Mia, orgulhosa.

Lily olhou de Catherine para Abner.

— Vocês já sabiam?

Catherine desviou o olhar.

Abner tomou um gole de vinho sem dizer nada.

Aquele silêncio já era uma resposta.

Lily soltou uma risada curta.

— Então foi por isso que me chamaram aqui.

— Lily — começou Catherine, cautelosa —, não faça uma cena.

— Fazer uma cena? — Lily voltou os olhos para a mãe. — Meu marido engravidou minha irmã, e você está preocupada com a cena?

Os olhos de Mia ficaram vermelhos na mesma hora.

— Mana, eu sei que te magoei. Mas Ethan e eu nos amamos de verdade. Esse bebê não foi planejado. Ele não tem culpa.

Lily ficou olhando para ela.

Não foi planejado?

Mia tinha dormido com o marido dela. Engravidado. Convidado Lily até ali. E, depois, anunciado o caso na cara dela.

Agora ainda queria se fazer de vítima.

Catherine logo estendeu a mão e acariciou a de Mia.

— Não chore. Você está grávida. Não pode ficar nervosa.

Lily observou as duas.

A mãe já consolava Mia antes mesmo que Lily tivesse dito qualquer coisa cruel.

Só então Abner falou:

— Lily, precisamos conversar sobre isso com calma.

Ela se virou para ele.

— O que há para conversar?

Mia enxugou os olhos antes de encará-la.

— Quero te pedir uma coisa.

A voz de Lily esfriou.

— O quê?

Mia tornou a pousar a mão sobre a barriga.

— Divorcie-se de Ethan.

A sala inteira emudeceu.

Mia prosseguiu:

— Vocês dois não são felizes mesmo. Ele não te ama. Nem sequer toca em você. Por que continuar se agarrando a um casamento que só faz todo mundo sofrer?

Lily olhou para Mia. Depois, para Catherine e Abner.

Esperou.

Esperou que um dos dois mandasse Mia parar com aquilo.

Nenhum deles fez isso.

Catherine suspirou.

— Lily, Mia está esperando um filho de Ethan. Essa criança precisa de uma família de verdade.

Lily mal conseguia acreditar no que ouvia.

— Então, só porque ela está grávida, eu devo entregar meu marido a ela?

Abner franziu a testa.

— Lily, seja sensata. Seu casamento com Ethan foi imposto pelo avô dele desde o início. Todo mundo sabe que Ethan nunca aceitou essa união.

Catherine acrescentou:

— Vocês estão casados há três anos e ainda não tiveram filhos. Mia já está grávida. Mais cedo ou mais tarde, a família Blake vai precisar de um herdeiro.

Os dedos de Lily começaram a tremer.

— Então sou inútil porque não tive um filho?

A expressão de Catherine endureceu.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Foi exatamente isso.

Mia baixou a cabeça e falou com suavidade:

— Mana, se você realmente não consegue aceitar, talvez seja melhor eu me livrar do bebê.

— Mia! — Catherine a puxou imediatamente para perto. — Não diga uma coisa dessas. O bebê é inocente.

O rosto de Abner escureceu.

— Lily, veja o que você fez. Ela está grávida, e você continua colocando pressão nela.

Lily fitou os três.

Ela não tinha feito nada.

Mesmo assim, de algum modo, era ela a pessoa cruel.

Mia se aconchegou ao lado de Catherine, com os olhos marejados.

— Não estou tentando tirar nada de você — disse ela. — Mas Ethan nunca foi realmente seu. Você sabe disso melhor do que ninguém.

O peito de Lily ficou dormente.

Mia sustentou o olhar dela e falou devagar:

— Deixe Ethan para mim. Deixe que ele se case com a mulher que ele ama. Deixe meu bebê ter um pai. Faça isso por mim.

Cada palavra era mais descarada que a anterior.

E todos à mesa agiam como se Lily fosse a única pessoa irracional ali.

— Se Ethan quer se divorciar, mande que venha dizer isso na minha cara — rebateu Lily.

Abner respondeu friamente:

— Arrastar essa situação não vai mudar nada. Só vai fazer você parecer ainda pior.

Catherine baixou a voz.

— Lily, Mia cresceu nesta família. Não podemos simplesmente abandoná-la agora.

Lily encarou a mãe.

— E eu sou sua filha biológica.

Catherine não respondeu.

Aquele silêncio doeu mais do que qualquer resposta.

Lily finalmente entendeu.

Eles tinham escolhido Mia muito antes daquela noite.

Aquilo não era um jantar em família.

Era uma armadilha.

Tinham levado Lily até ali para obrigá-la a sair do caminho.

Ela se virou e seguiu para o corredor.

Mia foi atrás.

— Lily.

Lily parou, mas não se virou.

Quando Mia voltou a falar, sua voz estava mais baixa — e ainda mais afiada.

— Não torne as coisas mais difíceis do que precisam ser. Ethan nunca quis ter um filho com você. Você sabe disso, não sabe?

Lily se virou devagar.

— O que você disse?

Mia tocou a barriga e esboçou um sorriso.

— Todas aquelas consultas de inseminação artificial... você realmente achou que dariam certo?

Um frio tomou conta do rosto de Lily.

— Ele concordou com elas.

— Porque o avô o pressionou. — Mia se aproximou. — Mas Ethan me contou há muito tempo. Ele jamais deixaria você prendê-lo com um filho.

Lily não conseguia desviar os olhos dela.

Mia baixou ainda mais a voz.

— Você deveria perguntar a ele o que foi que ele realmente entregou à clínica.

Lily conteve a respiração.

— O que isso quer dizer?

O sorriso de Mia vacilou por um instante.

— Nada. Só estou dizendo que, se Ethan não queria que você engravidasse, você realmente acha que ele não teria um jeito de impedir?

Mia voltou para a sala de jantar.

Lily ficou parada no corredor, sozinha, com aquelas palavras ecoando na cabeça.

"Pergunte a ele o que foi que ele realmente entregou à clínica."

Três tentativas de inseminação artificial.

Três fracassos.

Ethan tinha odiado cada segundo daquele casamento. Tinha se recusado a tocá-la. Tinha se recusado a construir uma vida ao lado dela.

Então por que concordara em fornecer amostras tantas vezes?

Por que tinha aceitado o procedimento?

A menos que...

A menos que algo estivesse errado desde o início.

Foi então que Lily se lembrou de uma coisa.

Os documentos.

Depois de cada procedimento de inseminação, a clínica tinha entregado a ela cópias dos formulários e de toda a documentação. Ethan nunca tinha se interessado por nada daquilo. Lily tinha levado tudo para casa e guardado sozinha.

Os papéis ainda estavam lá.

Na última gaveta da escrivaninha do quarto deles, na casa da família Blake.

Lily pegou a bolsa.

Se Mia sabia de alguma coisa, talvez aqueles documentos tivessem a resposta.

Ela saiu pela porta da frente sem se despedir.

Dessa vez, sabia exatamente para onde estava indo.

De volta à casa da família Blake.

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