Capítulo 3
A casa dos Blake estava vazia quando Lily entrou.
Ela subiu direto para o quarto, ajoelhou-se diante da escrivaninha no canto do cômodo e abriu a gaveta de baixo.
Na gaveta, encontrou três pastas, uma para cada ciclo, todas carimbadas com uma data.
Espalhou os documentos sobre a escrivaninha e começou a ler.
A princípio, quase não percebeu. Os formulários estavam cheios de termos clínicos que, nas outras vezes, ela só havia passado os olhos.
Dessa vez, voltou ao início e examinou cada linha.
Em todas as pastas constava a origem da amostra.
Nenhuma trazia a palavra cônjuge.
Todas traziam doador.
Lily se sentou sobre os calcanhares. A página tremia de leve entre seus dedos.
Nunca tinha pensado em conferir aquilo. Ethan tinha entrado na sala. Tinha fornecido a amostra. Para ela, o assunto terminava ali.
Mas os formulários diziam outra coisa.
Ainda encarava a página quando ouviu a porta da frente se abrir no andar de baixo. Logo depois, os passos de Ethan ecoaram na escada.
Ao vê-la sentada no chão, cercada pelas pastas, ele parou à porta.
— O que você está fazendo?
Lily ergueu uma das páginas.
— Me diga o que isso significa.
Ele nem se aproximou para olhar.
Aquilo revelou tudo antes mesmo que ele dissesse uma palavra.
— É só papelada — respondeu. — Não sei o que você quer que eu diga.
— Aqui diz doador, Ethan. — Sua voz saiu mais firme do que ela se sentia. — Três vezes. Não cônjuge. Doador. De quem era a amostra que usaram?
Ele se recostou no batente e permaneceu em silêncio.
— Me responda.
— Isso importa? — perguntou por fim.
Lily não se moveu.
— Repita.
— Não importa. — Ele deu de ombros. — Você nunca engravidaria com a minha amostra. Eu me certifiquei disso desde a primeira consulta.
Um zumbido tomou conta dos ouvidos dela, igual ao que tinha sentido no corredor do hospital naquela manhã.
Todas as consultas. Todos os procedimentos. Todos os resultados negativos pelos quais tinha se culpado.
Nunca tinha sido culpa dela.
Ele sabia.
Durante todo aquele tempo, ele sabia.
— Você trocou as amostras. De propósito.
— Meu avô queria um herdeiro. Não ia desistir até que eu concordasse em tentar. — A voz de Ethan continuava impassível. — Eu concordei com o procedimento. Nunca concordei em ter um filho com você.
— Três vezes. — Lily se levantou. — Passei por tudo aquilo sozinha três vezes, e você já sabia que não funcionaria.
— Você queria tanto um bebê que nunca fez as perguntas certas. — Ele falou como se estivesse apenas constatando um fato. — A culpa não é minha.
— Você deixou que eu me culpasse. — A voz dela falhou. — A cada resultado negativo, eu achava que o problema era comigo.
— Você devia se sentir aliviada. Agora sabe que não havia nada de errado com você.
Lily o encarou.
— Abri mão do meu emprego em Chicago por você. Fiquei ao seu lado em todos os eventos a que seu avô obrigou você a comparecer e sorri como se aquilo significasse alguma coisa.
— Ninguém pediu que você fizesse nada disso.
— Não — respondeu ela, agora em voz baixa. — Fiz porque acreditava que éramos casados de verdade. Não porque esperava ganhar alguma coisa com isso.
Ethan não respondeu.
Durante três anos, Lily repetiu para si mesma que precisava ter paciência.
Talvez, um dia, Ethan aceitasse aquele casamento. Talvez parasse de tratá-la como a mulher que o avô o obrigara a aceitar.
Agora, não havia mais nada a esperar.
Ele tinha uma mulher que amava. Tinha um filho com ela. E tinha se certificado de que Lily jamais teria um filho dele.
Durante todo aquele tempo, só ela tentara salvar o casamento.
Os dedos de Lily perderam a força ao redor da pasta.
— Eu quero o divórcio.
Ele não contestou.
Nem sequer pareceu surpreso.
Em vez disso, soltou uma risada breve.
— Finalmente. Eu já estava me perguntando por quanto tempo você continuaria se agarrando a um homem que nunca quis você.
A pasta escapou dos dedos dela e caiu no chão.
Não havia mais nada a dizer.
Lily não chorou enquanto arrumava as malas.
Nora, a governanta, apareceu à porta poucos minutos depois e estendeu a mão para pegar a bagagem.
— Deixe-me ajudar, senhora...
— Não encoste na mala.
A voz de Ethan veio do corredor.
Ele entrou no quarto e cruzou os braços.
— Ela não vai levar nada que não seja dela. Nora, reviste a mala dela antes que ela vá embora.
Nora ficou paralisada, alternando o olhar entre os dois.
Lily não se abalou.
— Pode verificar.
Com as mãos hesitantes, Nora abriu o zíper e revistou a mala sob o olhar atento de Ethan.
Roupas.
Um notebook.
Uma foto emoldurada de Lily e Jordan na época da faculdade.
Uma escova de dentes ainda na caixa.
Nada mais.
As joias que a família de Ethan tinha lhe dado continuavam intactas no estojo sobre a cômoda, exatamente onde ela as deixara.
Nora tornou a fechar a mala e olhou para Ethan, visivelmente constrangida com a atitude dele.
— Só estão aqui as coisas dela, senhor.
O maxilar de Ethan se contraiu.
Antes que Nora pudesse fazer qualquer coisa, a própria Lily pegou a mala.
— Eu nunca quis nada que fosse seu — disse. — Nem o anel. Nem o dinheiro. Nem o seu nome.
E passou por ele.
Jordan abriu a porta do apartamento antes mesmo que Lily terminasse de bater.
— Tá. Você está aqui. Está bem.
Ela segurou Lily pelo pulso e a puxou para dentro. Depois de passar os olhos pelo rosto dela e pela mala, fechou a porta.
— Me conte tudo.
Lily deixou a mala no chão e começou a falar.
Quando terminou, Jordan andava de um lado para o outro na cozinha.
— Ele trocou a amostra — repetiu, como se precisasse ouvir aquilo em voz alta para acreditar. — Três vezes. Deixou você pensar que o problema estava no seu corpo, quando tinha armado tudo desde o primeiro dia.
— Foi isso que ele fez.
Jordan lançou um olhar para a mala junto à porta.
— Espera. Foi só isso que você trouxe?
— Só as minhas coisas.
— E ele realmente mandou Nora revistar sua mala?
Lily desviou os olhos.
— Eu não queria nada que pertencesse a eles.
Jordan a encarou por um instante antes de soltar uma risada breve e furiosa.
— É isso que mais me revolta.
Lily ergueu o olhar.
— Ele ficou lá, garantindo que você não levasse um colar ou uma bolsa da preciosa família dele. — Jordan se inclinou para a frente. — Será que ele faz ideia de que talvez não tivesse sobrado nada da fortuna dos Blake se não fosse por você?
— Jordan.
— Não, estou falando sério. — Ela baixou a voz. — Oito milhões de dólares, Lily. Você arriscou a própria vida para ajudar os Blake quando eles estavam em apuros. E, hoje à noite, Ethan mandou revistar sua mala como se você estivesse tentando roubá-lo.
Lily contraiu o maxilar.
— Nós não falamos sobre isso.
— Por causa do acordo de confidencialidade. Eu sei.
Jordan balançou a cabeça.
— Ele realmente acha que você não trouxe nada para esse casamento, não é? Quero ver a cara dele quando descobrir o que a família dele de fato deve a você.
Lily não respondeu.
Não queria pensar naquilo naquela noite.
Nem nos detalhes.
Nem no acordo de confidencialidade.
Nem no preço que tinha pagado.
O celular tocou sobre a mesa entre as duas.
Lily esperava ver o nome de Ethan na tela.
Mas não era ele.
Vovô Blake.
Ela endireitou a postura e atendeu.
— Vovô?
A voz dele parecia mais rouca do que Lily se lembrava.
— Lily. Preciso ver você.
— Está tudo bem?
O silêncio do outro lado se prolongou o bastante para preocupá-la.
— Venha amanhã — disse ele. — Eu explico quando você chegar.
Ele desligou antes que Lily pudesse fazer outra pergunta.
Ela baixou o celular devagar.
Por que o avô de Ethan queria vê-la de repente?
Lily não tinha uma resposta.
E era exatamente isso que a preocupava.
