Capítulo 4
Lily chegou à casa de Arthur Blake na manhã seguinte.
O carro de Ethan já estava estacionado do lado de fora.
Ela hesitou por meio segundo antes de entrar.
A governanta abriu a porta e pareceu aliviada ao vê-la.
— Sra. Blake, a senhora veio.
Lily não a corrigiu.
— Como está o vovô?
— A pressão dele subiu ontem à noite. O médico veio examiná-lo e disse que ele precisa descansar, mas ele insistiu em ver a senhora e o Sr. Blake.
Lily sentiu um aperto no peito.
— Onde ele está?
— No escritório.
Quando Lily entrou, Ethan já estava lá, perto da janela, com uma expressão fria.
Arthur estava sentado em uma poltrona. Parecia mais fraco que de costume, mas o olhar continuava atento e incisivo.
Assim que viu Lily, sua expressão se suavizou.
— Lily, venha aqui.
Ela se aproximou.
— Vovô.
Arthur examinou o rosto dela por alguns segundos.
— Você está péssima.
Lily esboçou um sorriso.
— Estou bem.
— Não minta para mim. — O tom de Arthur ficou sério. — Você saiu de casa com uma mala.
Então ele se virou para Ethan.
— O que você fez?
Ethan franziu a testa.
— Vovô, isso é entre mim e a Lily.
Arthur bateu no braço da poltrona.
— Lily é da família. Então isso também é da minha conta.
Lily baixou os olhos.
Na casa dos Carter, os próprios pais dela tinham pedido que ela se afastasse.
Ali, Arthur já tomava as dores dela antes mesmo de ouvir qualquer explicação.
Ele voltou a encará-la.
— Lily, me diga a verdade. Mia Carter está esperando um filho do Ethan?
O silêncio dominou o escritório.
O maxilar de Ethan se contraiu.
Lily não queria aborrecer o avô, mas também não protegeria Ethan outra vez.
— Sim — respondeu em voz baixa.
As feições de Arthur endureceram no mesmo instante.
— E você já sabia? — perguntou a Ethan.
Ethan desviou o olhar.
— Sim.
A mão de Arthur tremeu de raiva.
— Você devia ter vergonha na cara.
— Vovô...
— Você é casado e engravidou outra mulher. Agora a Lily saiu de casa. Está orgulhoso?
A expressão de Ethan ficou ainda mais fria.
— Eu nunca quis esse casamento. Foi o senhor quem me obrigou a casar com ela.
O olhar de Arthur se aguçou.
— E só porque fui eu que arranjei esse casamento, você acha que tem o direito de machucá-la como bem entender?
— Eu não pedi para ela ficar — rebateu Ethan. — Desde o início, ela sabia que eu não a amava.
Lily permaneceu em silêncio ao lado de Arthur.
Aquelas palavras ainda doíam.
Mas não como antes.
Algo dentro dela já tinha desistido.
Arthur fitou Lily, e a raiva em seu rosto cedeu.
— Lily, espere lá fora um instante. Quero falar com ele a sós.
Ela hesitou.
— Vovô, a sua saúde...
— Estou bem. — Arthur fez um gesto com a mão. — Vá. Não vou deixar que ele faça mal a você.
Lily assentiu e saiu.
Não pretendia escutar, mas a porta do escritório não se fechou por completo, e a voz de Arthur atravessou a fresta.
— Você é uma vergonha.
Ethan respondeu logo depois, com a voz tensa de frustração:
— Vovô, Mia está grávida. O filho é meu. O senhor vai mesmo fingir que seu próprio bisneto não existe?
— Não estou fingindo que a criança não existe. Mas Mia Carter nunca fará parte desta família.
— Por quê? — retrucou Ethan. — Ela também é uma Carter. O que Lily tem de tão especial? Ela cresceu longe dos Carter, tem origem humilde e não trouxe nada para este casamento.
Os dedos de Lily se fecharam em torno da alça da bolsa.
Lá estava aquilo de novo.
Nada.
Aos olhos de Ethan, ela sempre tinha sido isso: nada.
A resposta de Arthur veio gelada:
— Seu idiota. Você acha mesmo que Lily não trouxe nada?
Ethan não respondeu.
Arthur continuou:
— Se não fosse por ela, você acha que a família Blake ainda estaria de pé depois do que aconteceu naquela época?
Por um instante, o coração de Lily pareceu parar.
Dentro do escritório, Ethan perguntou de repente:
— O que o senhor quer dizer com isso?
Arthur pareceu perceber que tinha falado demais.
Após uma breve pausa, respondeu:
— Quero dizer que você não sabe de nada.
— O que ela fez?
— Você não precisa saber disso agora.
Lily fechou os olhos.
As palavras de Jordan na noite anterior ecoaram em sua mente.
"Ele não faz ideia do que a família dele realmente deve a você."
Ela não queria que aquele passado viesse à tona.
Ainda assim, ouvir Arthur defendê-la fez Lily engolir em seco.
Alguns minutos depois, a porta se abriu.
Ethan foi o primeiro a sair, com uma expressão sombria. Ao ver Lily, fixou o olhar nela, desconfiado.
— O que o vovô quis dizer?
Lily o encarou com calma.
— Se o vovô quiser que você saiba, ele mesmo vai contar.
Passou por Ethan e entrou no escritório.
Arthur estava recostado na poltrona e respirava com mais dificuldade do que antes.
Lily correu até ele.
— Vovô, não fique mais nervoso. O médico disse que o senhor precisa descansar.
Arthur deu leves tapinhas na mão dela.
— Me desculpe.
Lily ficou imóvel.
Ele a fitou com olhos cansados.
— Eu achei que Ethan acabaria aprendendo a valorizar você. Estava errado.
Os olhos de Lily se encheram de lágrimas.
— Vovô...
— Você sofreu nesta família — continuou ele, num tom mais brando. — E eu não a protegi o bastante.
Ela balançou a cabeça.
— O senhor sempre foi gentil comigo.
Arthur suspirou.
— Me diga a verdade. Você quer mesmo se divorciar dele?
Lily baixou o olhar e permaneceu em silêncio.
Arthur pareceu entender a resposta sem que ela precisasse dizê-la.
— Não vou dizer que Ethan merece outra chance. Ele não merece — disse Arthur, exausto.
Então apertou a mão dela com mais força.
Lily tornou a erguer os olhos.
— Mas, enquanto você ainda for esposa dele, faz parte desta família. Se alguém tentar fazer mal a você, posso me colocar entre você e essa pessoa, e ninguém terá o direito de questionar o motivo.
Uma expressão amarga atravessou o rosto dele.
— Você sabe como são seus pais. E Ethan... — Arthur balançou a cabeça. — Está claro que não podemos confiar nesse tolo para proteger você.
Os olhos de Lily arderam.
— Mesmo que você abandone este casamento, eu vou continuar me importando com você. Isso não vai mudar. Mas sempre haverá quem diga que você não é mais uma Blake e que eu não tenho o direito de interferir.
Arthur fez uma pausa.
— Por isso, estou fazendo um pedido egoísta. Não tome essa decisão hoje. Dê mais uma chance a ele. Me dê um pouco mais de tempo para garantir que você ficará bem, mesmo sem esta família para apoiá-la.
Lily tornou a baixar os olhos.
Não podia prometer aquilo.
Mas, diante do velho à sua frente, também não conseguia recusar de forma direta.
— Você não precisa me responder agora — disse Arthur. — Apenas pense no assunto.
— Vovô...
Foi tudo o que Lily conseguiu dizer.
Ela já tinha tomado sua decisão.
Os documentos finais do divórcio ficaram prontos naquela tarde.
Os advogados já tinham resolvido todo o resto. Faltava apenas assinar e protocolar os papéis.
Lily se sentou diante de Ethan, em uma mesa simples perto do fórum.
Um funcionário colocou os documentos à frente dos dois.
— Seus advogados já revisaram o acordo. A senhora abriu mão de qualquer direito sobre a casa e da pensão alimentícia.
Ethan levantou a cabeça.
— Você concordou com isso?
— Sim.
Lily pegou a caneta e assinou.
— Por quê?
Ela empurrou os documentos na direção dele.
— Porque não quero nada que me prenda a você.
Ethan a encarou por alguns instantes.
No dia anterior, tinha mandado Nora revistar a mala de Lily para garantir que ela não levasse nada da casa dele.
Naquele dia, ela saía do casamento da mesma maneira.
Sem nada.
Sem pedir nada a ele.
— Sua vez — disse Lily.
Os dedos de Ethan se fecharam em torno da caneta.
Então ele assinou.
Pouco depois, o funcionário voltou.
— Está feito.
— Não conte nada ao vovô por enquanto — pediu Ethan.
Lily o encarou.
— A saúde dele já está ruim o bastante.
Ela não discutiu. Pegou a bolsa e se levantou.
Ethan permaneceu sentado.
Pela primeira vez, parecia ter entendido que Lily não tinha apenas ameaçado partir.
Ela tinha ido embora.
Lily saiu sem olhar para trás.
O celular tocou assim que ela deixou o fórum.
Número desconhecido.
Lily olhou para a tela por um instante antes de atender.
— Alô?
Do outro lado, um homem falou em voz baixa e controlada:
— É Lily Carter?
— Sim. Quem é?
— Preciso falar com você sobre o bebê que está carregando.
Lily franziu a testa.
— Que bebê? Isso é algum tipo de golpe?
Houve uma pausa.
— Estou falando do procedimento pelo qual você passou no Centro Médico Westbridge.
Lily apertou o celular com mais força.
— Como você sabe disso?
— O Westbridge entrou em contato comigo a respeito do seu caso.
— Quem é você?
— Precisamos conversar pessoalmente.
A desconfiança de Lily aumentou.
— Certo. Seja lá qual for esse golpe, procure outra pessoa.
Ela desligou.
Durante alguns segundos, permaneceu imóvel, olhando para o celular.
Uma tentativa de golpe.
Só podia ser.
Mas uma pergunta insistia em atormentá-la.
Como aquele homem sabia sobre o Centro Médico Westbridge?
