Capítulo 5

Assim que entrou na cozinha, Lily sentiu o estômago embrulhar com o cheiro do café de Jordan.

Levou a mão à boca e recuou para junto da janela. Respirou pela boca até a náusea passar.

Jordan ergueu os olhos da própria caneca, preocupada.

— Você está bem?

— Estou. — Lily fez um gesto para encerrar o assunto. — Não tenho dormido direito. Acho que meu estômago também resolveu colaborar com o caos.

— Você quase não comeu nos últimos dois dias.

— Como alguma coisa mais tarde. — Lily esboçou um sorriso sem graça. — Estresse. Divórcio. O de sempre.

Jordan não pareceu convencida, mas não insistiu.

Quando o enjoo cedeu, Lily se sentou à mesa e voltou a pegar as três pastas. Espalhou todas diante de si, exatamente como tinha feito duas noites antes.

"Doador."

Já tinha lido aquela palavra tantas vezes que ela nem parecia mais uma palavra.

E ainda havia a ligação.

Aquele homem sabia o nome dela. Sabia que ela tinha ido à Westbridge. Sabia que, supostamente, havia um bebê envolvido.

Lily repetia para si mesma que era um golpe. Metade dela ainda acreditava nisso.

A outra metade não conseguia parar de pensar no assunto.

Pegou o celular e ligou direto para o Centro Médico Westbridge.

— Agradecemos por ligar para a Westbridge. Aguarde enquanto transferimos sua chamada para o departamento responsável.

Música de espera.

Depois, mais música de espera.

Lily ficou ali, tamborilando os dedos sobre uma das pastas, à espera de alguém que parecia nunca atender.

Enquanto isso, no Centro Médico Westbridge, uma coordenadora encarava um resultado de exame corrigido com o nome de Lily no topo.

Naquele exato momento, a mulher tentava ligar para ela por outra linha.

— Dr. Smith, o resultado corrigido da Sra. Carter já foi inserido no sistema. Tentamos entrar em contato, mas ela não atendeu.

— Deixe uma mensagem — orientou o Dr. Smith.

"Sra. Carter, aqui é do Centro Médico Westbridge. Precisamos falar com a senhora sobre os resultados dos seus exames recentes. Por favor, retorne a ligação o mais rápido possível."

Quando Lily finalmente desistiu da espera e desligou, a chamada perdida e a mensagem de voz já estavam soterradas sob uma pilha de outras notificações.

Ela se levantou, pegou as chaves e tomou uma decisão.

— Vou até lá — avisou a Jordan. — Se ninguém atende o telefone, vou perguntar pessoalmente.

— Quer que eu vá com você?

— Eu dou conta. — Lily já vestia o casaco. — Preciso descobrir exatamente o que usaram.


Henry não esperou o assistente concluir a busca.

Tinha ligado para Lily Carter no dia anterior, e ela desligara na cara dele como se estivesse falando com um operador de telemarketing.

Henry não tinha o hábito de pedir duas vezes.

Mas também não ficaria sentado no escritório, esperando outra pessoa localizar uma mulher que claramente não pretendia retornar sua ligação.

Ele tinha o endereço da mansão dos Blake.

E foi até lá pessoalmente.

Uma governanta o conduziu à sala de estar.

Isabella Blake ergueu os olhos, surpresa.

O terno sob medida, o carro à espera do lado de fora e Alex, parada meio passo atrás dele, fizeram Isabella engolir a primeira pergunta grosseira que lhe veio à cabeça.

Henry permaneceu de pé.

— Estou procurando Lily Carter.

A expressão de Isabella mudou no mesmo instante.

— Lily?

— Sim.

— Quem é você para ela? — A desconfiança crescia em sua voz.

Henry a encarou com frieza.

— Onde ela está?

Isabella enrijeceu sob aquele olhar.

Pretendia tratá-lo com superioridade, mas estava claro que aquele homem não era alguém que ela pudesse ofender sem pensar nas consequências.

— Ela não mora mais aqui — respondeu. — Ethan se divorciou dela ontem. Lily arrumou as coisas e foi embora.

Os olhos de Henry se estreitaram.

Divorciada.

Tinha se mudado.

— Para onde ela foi?

— E como eu vou saber? — Isabella retrucou. Então, incapaz de se conter, acrescentou com desdém: — Ela saiu daqui com uma única mala. Provavelmente correu para a casa de alguma amiga. Uma mulher como ela...

Henry se virou antes que Isabella terminasse.

Alex o acompanhou de imediato.

Isabella permaneceu parada, dividida entre a irritação e a inquietação.

Só depois que a porta se fechou ela ousou murmurar:

— Quem ele pensa que é?


O celular de Henry tocou antes mesmo que saíssem da entrada da propriedade.

David Thornton nem se deu ao trabalho de cumprimentá-lo.

— Soube que a mãe de Nicole Hayes tentou salvar o acordo entre as famílias depois do acidente da filha.

— Ela coletou uma amostra biológica minha sem consentimento e a enviou para a Westbridge — respondeu Henry, enquanto via a mansão dos Blake diminuir pela janela traseira.

— Para Nicole?

— Sim. O hospital usou a amostra na paciente errada.

Houve um breve silêncio.

— A mulher que você está procurando — concluiu David.

Henry não confirmou.

Não precisava.

— Ela está grávida?

— A Westbridge diz que sim.

Dessa vez, a pausa foi mais longa.

Quando David voltou a falar, seu tom era estritamente profissional.

— Você sabe o que isso significa para a herança do seu avô.

— Eu comando a empresa. Sei exatamente o que significa.

— Comandar o Grupo Thornton e herdar os bens pessoais do seu avô são coisas diferentes. E você sabe disso.

A voz de David permaneceu impassível.

— Pelas regras da família, se você não tiver um filho, não herdará os bens dele. Todos os seus tios têm herdeiros. Eles vêm preparando os próprios filhos há anos.

Henry ficou em silêncio.

Até poucos dias antes, aquela gravidez não passava de um problema. Um erro do hospital que deveria ser resolvido discretamente. Uma complicação a ser tratada e esquecida.

Agora, seu pai dizia em voz alta o que Henry já começara a calcular da maneira mais fria e prática possível.

— Preciso falar com ela antes que alguém tome qualquer decisão — declarou Henry.

— Então encontre-a.

— Estou cuidando disso.

Ele encerrou a ligação e encarou Alex pelo retrovisor.

— Ninguém toma nenhuma providência em relação a essa gravidez. Nenhuma orientação do hospital, nenhum documento, nada. Não antes de eu falar com ela pessoalmente.

— Entendido.

— Preciso vê-la — disse Henry. — Hoje.


Mia Carter saiu do Centro Médico Westbridge com o laudo da última ultrassonografia na bolsa e uma das mãos pousada de leve sobre a barriga.

A consulta tinha corrido bem.

O bebê estava saudável.

Aquilo deveria bastar para deixá-la de bom humor.

Afinal, Lily e Ethan estavam divorciados. Ethan estava livre. E Mia carregava o filho dele.

Em tudo o que realmente importava, ela tinha vencido.

Mesmo assim, não conseguia se livrar da inquietação.

Ethan andava distraído nos últimos tempos. Arthur Blake ainda se recusava a reconhecê-la. E Lily praticamente desaparecera depois do divórcio.

Mia não conseguia evitar a suspeita de que ela estivesse planejando algum tipo de retorno.

Ajustou os óculos escuros e seguiu até o estacionamento.

Naquele dia, Ethan tinha deixado que ela dirigisse seu carro esportivo. A pintura em vermelho-vivo chamava atenção de longe, e Mia gostava disso. Gostava de saber que todos podiam ver o que Ethan estava disposto a lhe dar.

Acomodou-se no banco do motorista e ligou o motor.

No instante em que saiu do estacionamento do hospital e entrou na via principal, um sedã conhecido surgiu na mesma rua, um pouco mais à frente.

O sorriso de Mia desapareceu.

Lily.

Por um segundo, pensou que estivesse enganada.

Mas não.

Aquele era o carro de Lily.

E ela seguia em direção à Westbridge.

Mia apertou o volante com tanta força que os nós dos dedos esbranquiçaram.

Por que Lily estava indo até lá?

Para Mia, só havia uma explicação.

Lily devia saber quando eram suas consultas de pré-natal. E, se não soubesse, poderia ter descoberto com facilidade.

Agora estava ali, aparecendo no hospital justamente no mesmo dia em que Mia estivera lá.

"Ela está divorciada. Perdeu. E ainda não desistiu."

Mia não pensou além disso.

Pisou no acelerador e foi atrás dela.

Antes mesmo de decidir o que diria, já estava ligando para Lily pelo viva-voz.

Lily atendeu com a voz seca:

— O que você quer?

— O que você está fazendo aqui? — A pergunta de Mia saiu mais cortante do que ela pretendia.

— Como assim?

— Você está indo para a Westbridge. Eu acabei de sair de lá. — Mia apertou ainda mais o volante. — Está me seguindo?

Ela acelerou e diminuiu a distância entre os dois carros.

Houve uma breve pausa. Quando Lily voltou a falar, seu tom era de pura incredulidade.

— Tenho uma coisa para resolver. Não tem nada a ver com você.

— Uma coisa para resolver — repetiu Mia, soltando uma risada curta e descrente. — Justamente no hospital onde eu vou. No mesmo dia em que estou lá.

— Eu não consulto a sua agenda antes de fazer meus planos, Mia.

Lily reduziu a velocidade e mudou de faixa, claramente tentando deixá-la passar.

Em vez disso, Mia emparelhou com o carro dela.

— Então por que você não me diz logo o que foi fazer lá?

— Porque não é da sua conta.

Mia travou o maxilar.

Foi isso que a fez explodir.

Lily não lhe deu uma explicação. Nem sequer tentou negar. Apenas respondeu com aquela indiferença fria, recusando-se a lhe oferecer até a cortesia de uma mentira.

— Você perdeu, Lily. Ele se divorciou de você. Eu estou esperando o filho dele. — A voz de Mia subiu. — Por que você não aceita isso de uma vez e fica longe da gente?

— Eu não estou perto de você nem do Ethan — respondeu Lily. — Estou indo para a Westbridge porque tenho algo para resolver. Só isso.

Mia avançou um pouco mais, tentando cortar a frente do sedã.

— Então dê meia-volta.

— Não.

— Lily...

— Tenho algo para resolver. — O tom de Lily não vacilou. — Seja lá o que você acha que está acontecendo, está enganada. E eu não te devo mais satisfação nenhuma.

A ligação foi encerrada.

Mia encarou a estrada, sentindo o peito apertado.

Toda a satisfação que sentira depois da consulta havia desaparecido. Em seu lugar, restava uma raiva ardente e irracional.

"Ela nem me leva a sério. Continua fazendo isso. Continua tentando se meter onde não é bem-vinda."

Mia afundou ainda mais o pé no acelerador.


Uma buzina ecoou.

Pelo canto do olho, Lily viu o carro esportivo vermelho avançar em sua direção.

Seu primeiro impulso foi frear, mas a faixa à frente já se estreitava. Carros entravam pela direita, e a barreira da obra quase não deixava espaço para escapar.

Lily agarrou o volante e desviou, tentando evitar o carro de Mia.

A lateral do esportivo raspou no para-choque traseiro do sedã com um guincho agudo de metal.

O carro de Lily foi arremessado para o lado, fora de controle.

Um veículo preto de luxo ocupou todo o para-brisa.

Então veio o impacto.

O airbag explodiu diante dela. A dor atravessou seu rosto e seu peito.

A visão ficou turva.

No banco traseiro do carro preto, Henry Thornton abriu os olhos de supetão.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo