Capítulo 2

POV de Kyra

Saltei da cama, desesperada para fugir, mas Nathan me segurou pelo pulso. O aperto firme carregava a força de um Alfa. Eu jamais conseguiria me soltar. Antes que ele percebesse, enxuguei depressa as lágrimas que escorriam pelo meu rosto.

Meu coração se partiu em mil pedaços.

Eu pensei... pensei que, depois dos três anos que passamos juntos, conseguiria fazer com que ele se apaixonasse por mim. Que os sentimentos dele se tornariam mais profundos. Que um dia ele me enxergaria como mulher, não apenas como sua melhor amiga.

Eu tinha fracassado.

Por mais que eu tentasse ser sua companheira escolhida, sua Luna, o coração dele sempre pertenceu a outra: Sophia, seu primeiro amor e sua companheira predestinada.

— Kyra...

Forcei um sorriso.

— Preciso tomar banho antes de comer.

Nathan me encarou, como se tentasse decifrar meus pensamentos. Ele me conhecia bem demais. Por isso, escondi a dor com todas as forças e sustentei o sorriso.

Ele suspirou e soltou meu pulso.

— Tudo bem. Eu te espero aqui. Depois a gente come e vai trabalhar junto.

Junto?

Como ele podia ser tão cruel? Acabou de dizer que o primeiro amor tinha voltado e que queria me deixar, mas ainda esperava que tudo entre nós continuasse como antes?

Talvez eu tivesse conseguido permanecer no papel de melhor amiga e desejar a felicidade dele no passado. Depois dos três anos que passamos juntos, porém, já não tinha forças para isso. Não suportaria aquela tortura outra vez.

Ainda mais agora, carregando o filhote dele.

O filhote...

Eu tinha acreditado que seria uma boa notícia para nós. Agora, porém, provavelmente se tornaria um fardo para Nathan. Um peso que o impediria de encontrar o verdadeiro amor e conquistar a liberdade.

Eu sabia muito bem como era crescer sendo um filhote indesejado. Meus pais tinham se divorciado antes mesmo da morte da minha mãe, e a nova família do meu pai me odiava.

Aquilo doía como o inferno.

Eu não permitiria que meu filhote passasse pelo mesmo sofrimento.

Forcei outro sorriso.

— Não podemos. Preciso ir ao estúdio para o ensaio fotográfico dos nossos novos modelos...

— Eu vou com você...

— Não. — Afastei a mão dele. — Você tem documentos para assinar. Nossas agendas já estão fechadas, lembra?

— Mas...

— Vou ficar bem sozinha.

Nathan soltou outro suspiro e assentiu devagar.

Entrei no banheiro, liguei o chuveiro e deixei a água fria cair sobre mim. As lágrimas desabaram. Cobri a boca com a mão para abafar os soluços.

"Não fique triste, Kyra. Eu sempre vou estar ao seu lado e ao lado do filhote." Sylvia me tranquilizou.

Sequei o rosto e acariciei a barriga com delicadeza. Não podia colocar a vida do meu filhote em risco só porque meu coração estava partido.

Eu precisava ser forte.

Precisava me acalmar.

Quando saí do banheiro, me assustei ao encontrar Nathan ainda ali. Ele tentava ajeitar a gravata sem muito sucesso.

Sobre a cama, havia um vestido e um par de sapatos de salto que ele tinha separado para mim.

— Ei! Escolhi seu vestido para hoje.

Mantínhamos nosso casamento em segredo na empresa para evitar qualquer impressão de envolvimento amoroso no ambiente de trabalho. Nathan tinha prometido fazer pequenas coisas por mim como companheiro e cumprira a promessa. Eu costumava adorar aqueles momentos de carinho.

Agora, aquilo estava me matando.

Guardei o vestido branco e peguei um vermelho. Quando me virei, ele me observava com a testa franzida.

Sorri.

— Hoje prefiro o vermelho.

Nathan assentiu e veio até mim.

— Tudo bem. Mas me ajuda com isso primeiro.

O olhar dele não se afastava de mim. Respirei fundo e mordi o lábio inferior enquanto ajeitava a gravata. Minha visão voltou a ficar turva.

Droga!

— Kyra...

Levei um susto.

— Hã?

— Você está bem?

Ergui os olhos para ele e sorri.

— Sim.

— Tenho mais uma coisa para dizer.

Terminei de arrumar a gravata, lancei um olhar rápido para Nathan e passei por ele.

— Conversamos outra hora. Vou me atrasar.

Ouvi o suspiro dele antes que voltasse a me seguir.

— Kyra, estamos de acordo, né?

Fiquei encarando-o.

Não, Nathan. Nunca estivemos de acordo. Tudo aquilo não passava de uma fantasia idiota que eu tinha inventado. Pensei que você sentisse algo por mim.

Como eu estava errada.

— Se está falando da rejeição, eu entendi tudo, Nathan. Sei o que preciso fazer. Só me dê um pouco de tempo, porque estou muito ocupada com a empresa.

— Kyra, não estou fazendo isso apenas por mim. Também estou fazendo por você. Desde que nos casamos, você está presa a mim. Sei que não é feliz, porque, no fundo, também deseja encontrar o companheiro predestinado que merece. Alguém que ame você de verdade. Não eu. Não alguém que só consegue oferecer um amor morno.

— Entendo o que você está tentando dizer, Nathan.

Ele me observou com preocupação.

— Você é minha melhor amiga. Não quero perder você, Kyra. É uma das poucas pessoas que tenho...

— Eu sei! — respondi, frustrada.

O choque no rosto dele me fez recuperar o controle.

— Eu... eu sei. Não precisa se preocupar. Só estou estressada com o trabalho. Não tem nada a ver com a nossa rejeição.

Os lábios dele se entreabriram, mas Nathan apenas assentiu devagar. Então se aproximou. Fiquei imóvel quando ele depositou um beijo delicado na minha testa.

— Obrigado, Kyra — sussurrou.

Meu peito se apertou.

Três anos tinham se passado, mas eu continuava sendo uma covarde.

Sylvia uivou dentro da minha mente: "Por que você não consegue simplesmente dizer que o ama, Kyra? Ele é seu companheiro, e você está carregando o filhote dele! Conte a verdade. Talvez ele mude de ideia!"

Engoli em seco e me preparei para falar, mas o celular dele tocou.

Não pude deixar de ver o nome na tela.

Sophia. De novo.

— Preciso ir. — Nathan saiu do quarto murmurando um pedido de desculpas, e não me escapou o sorriso que se formava nos lábios dele. — Chamei Luke. Ele está esperando lá fora. Coma antes de sair, está bem?

Por que eu tinha imaginado que ainda poderia ter alguma chance?

Ele já tinha feito sua escolha no instante em que pediu a rejeição.


Entrei no estúdio com um vestido vermelho e saltos da mesma cor. Todos se viraram para me olhar enquanto eu atravessava o corredor. Recebi vários cumprimentos acompanhados de sorrisos, mas mantive o rosto impassível, sem deixar transparecer qualquer emoção.

A conversa daquela manhã com Nathan ainda martelava na minha cabeça. Mesmo assim, eu não podia permitir que afetasse meu trabalho.

Não podia fracassar profissionalmente depois de já ter fracassado no casamento.

Respirei fundo, tentando me recompor. No entanto, assim que entrei na sala do ensaio fotográfico, estava tudo um caos.

— Não conseguimos! Ela não atende às ligações. O que vamos fazer? A vice-presidente vem hoje. Ela vai ficar furiosa.

— Podemos simplesmente contar a verdade. Ela é gentil.

— Não nesta situação, Lily! Ela vai acabar com a gente...

— O que está acontecendo aqui? — perguntei ao entrar.

Toda a equipe se virou para mim com expressões preocupadas. Bastou olhar para eles para saber que havia um problema.

— B-bom dia, Sra. Monroe.

Sra. Monroe.

Claro. Com exceção dos lobisomens da nossa alcateia, os funcionários humanos não sabiam que Nathan e eu éramos casados.

Encarei a funcionária sem demonstrar emoção.

— O que foi?

— T-temos um problema, Sra. Monroe. A Sra. Chen, nossa modelo, não está atendendo às ligações. Ela disse que soube que vamos substituí-la e... não quer vir. Está até ameaçando nos processar.

Ela abaixou a cabeça.

A Sra. Chen era uma modelo renomada na sociedade humana. Eu mesma a tinha escolhido para estampar a capa da edição asiática da nossa revista.

Cerrei os dentes e passei os olhos pela sala.

— Onde está a gerente de marketing?

— E-ela ainda está tentando convencer a Sra. Chen.

Massageei a testa e apertei os olhos. Depois, soltei um suspiro frustrado e inspirei profundamente antes de tornar a encará-los.

— Sra. Monroe...

— Que história é essa, Sra. Hayley? Você é a gerente de marketing. O que está acontecendo?

— Sra. Monroe, não sei como isso aconteceu, mas a Sra. Chen ficou sabendo que você pretende trocar nossa modelo. Ela está prestes a nos processar...

Trocar a modelo?

Como eu não sabia de nada?

A Sra. Chen sempre tinha sido uma parceira de confiança. A menos que fosse absolutamente necessário, substituir a modelo de um ensaio comercial em cima da hora só traria problemas para a empresa. Eu jamais permitiria um erro tão descuidado.

— Eu nunca pedi isso. Você deve estar enganada — interrompi, sem querer perder mais tempo. — Resolva essa bagunça ou vou ter que demitir você!

— Sra. Monroe... foi o Senhor Presidente quem pediu a substituição — explicou Hayley, hesitante. — Ele deu a ordem assim que voltou da viagem de negócios, ontem. Hoje, informou que uma nova modelo viria substituir a Sra. Chen.

Fiquei paralisada.

Uma ordem de Nathan?

Por que ele não tinha me contado? Nathan sempre discutia comigo todas as decisões importantes antes de agir.

— Não pode ser...

Eu estava confusa. Nathan não era um empresário irresponsável. Sempre separava com cuidado o trabalho da vida pessoal, e era justamente por isso que tinha tanto sucesso. Também era por esse motivo que insistia em manter nosso casamento em segredo.

— Sim, Kyra. Fui eu quem deu a ordem.

A voz me arrancou dos pensamentos.

— Sr. Presidente... — Hayley se curvou respeitosamente ao ver o homem que surgiu atrás de mim.

Antes que eu pudesse reagir, uma voz familiar, doce a ponto de se tornar enjoativa, atravessou a sala.

— Olá, minha querida Kyra. Quanto tempo.

Sophia.

Eu me virei e a vi parada ao lado de Nathan, com um vestido de grife moldando cada curva do corpo.

Assim como no ensino médio, os dois pareciam feitos um para o outro. Juntos, eram deslumbrantes.

No instante em que a vi, meu estômago se revirou.

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