Capítulo 1 — A Ligação das Três da Manhã
Quando ele me ligou às três da manhã dizendo que precisava "conversar sobre o futuro", eu ainda não sabia que "futuro" para ele não incluía nem eu nem o filho que crescia dentro de mim.
Eu estava deitada na nossa cama — que ainda era nossa naquela época —, com a mão aberta sobre a barriga de três meses. Quase nada a ver por fora ainda. Só eu sabia. E ele, desde a semana anterior, quando eu tinha segurado o exame positivo nas duas mãos e encontrado os olhos dele do outro lado da mesa da cozinha.
A expressão dele não tinha sido de alegria. Tinha sido de cálculo.
— Vou descer tomar água — ele disse naquela noite, aquela semana atrás. — Preciso pensar.
Ele não voltou para a cama em duas horas. Quando voltou, estava com o celular na mão e o colarinho da camisa aberto, e disse que tínhamos que conversar, mas não naquela noite, ele estava cansado, a semana tinha sido pesada na empresa. Eu disse tudo bem. Eu disse tudo bem porque aprendi desde cedo que homens como Lucas Costa precisam de espaço para processar, e que mulheres como eu precisam aprender a esperar.
Então quando ele ligou às três da manhã — do escritório, ele disse, trabalhando até tarde — e disse que precisava conversar sobre o futuro, eu me sentei na cama no escuro e pensei: agora ele vai me dizer que vai ficar. Que a gente vai dar um jeito. Que filho não estava nos planos, mas planos mudam.
— Ana — a voz dele era controlada, a voz que ele usava em reuniões —, eu pensei muito essa semana. Sobre nós. Sobre o que você me contou.
— Eu sei — eu disse.
— Filho... não estava nos planos.
O silêncio entre nós pesava mais do que qualquer palavra. Eu segurei o telefone com as duas mãos. A barriga ainda estava lisa por fora. O bebê, se é que já era um bebê, ainda era menor do que uma ameixa. Mas já era real. Para mim, ele já era completamente real.
— Eu sei que não estava — eu disse devagar. — Mas ele está aqui agora.
— É que... — ele parou. Eu ouvi ele respirar. — Eu não estou pronto para isso, Ana. Para nenhuma disso. Você sabe como a minha vida é agora. A empresa está numa fase crítica, a rodada de investimento—
— Lucas.
— Eu preciso ser honesto contigo. É a única coisa que posso te oferecer agora: honestidade.
E o que ele me ofereceu, naquela ligação das três da manhã, enquanto eu estava sentada no escuro com a mão sobre a barriga, foi isso: que ele não conseguia ser o homem que eu precisava que ele fosse. Que não era sobre mim — nunca é sobre a pessoa que está sendo deixada, é sempre sobre o outro e suas limitações, suas circunstâncias, suas fases críticas e suas rodadas de investimento. Que ele esperava que eu entendesse. Que ele iria me ajudar financeiramente, claro, ele não era esse tipo de homem.
Ele era exatamente esse tipo de homem.
Eu não chorei naquela noite. Não sei por quê. Fiquei sentada na cama até as cinco da manhã olhando para a janela enquanto a cidade foi acordando aos poucos — o barulho do primeiro ônibus, a luz cinzenta entrando pelas persianas, o cachorro do vizinho latindo uma vez e parando. Fiquei pensando que tinha que ir trabalhar dali a três horas. Que tinha plantão no Hospital Municipal São Lucas. Que ia ter que colocar o jaleco branco e triagem e não mostrar nada no rosto porque a UPA às seis da manhã não aceita choro, só trabalho.
Ele deixou o apartamento três dias depois, enquanto eu estava no hospital. Levou as coisas dele organizadamente. Deixou as chaves em cima da bancada da cozinha. Deixou um envelope com dois mil reais em dinheiro e um bilhete que dizia Para as primeiras despesas. Qualquer coisa, me liga. Eu nunca liguei.
Três anos depois, eu estou no mesmo hospital.
É segunda-feira de manhã, seis e quarenta e cinco, e o corredor do pronto-socorro já está cheio. Fluorescentes piscando no teto, o cheiro de álcool gel e café requentado, a fila da triagem se estendendo até o lado de fora da porta. Eu coloco o crachá com o clipe que já não prende direito — tenho que falar com o RH sobre isso, mas o RH tem duzentas outras prioridades — e começo a organizar a mesa antes da troca de plantão.
— Boa sorte — Cláudia me diz, entregando a pasta de prontuários. Ela está com olheiras até o queixo. — Teve dois politrauma à meia-noite, um infarto às quatro, e a criança do leito seis ainda não tem diagnóstico fechado.
— A criança do leito seis?
— Três anos, febre há quatro dias, não baixa direito com antitérmico. Mãe está com ela, mas a pediatra de plantão só chega às oito.
Eu anoto. Depois eu anoto mais seis coisas. Depois eu começo a trabalhar.
Isso é a minha vida agora: uma lista de coisas a fazer que nunca termina, e no fim da lista tem Miguel.
Miguel tem três anos e três meses, e está na creche municipal a quatro quarteirões daqui porque é a mais perto do hospital e porque foi a única vaga que consegui depois de dezoito meses numa fila do SUS que eu mesma tinha que ligar toda semana para não perder a posição. Ele tem os olhos castanhos e grandes do pai — essa é a única coisa do pai que eu não consegui controlar — e tem o meu jeito de apertar os lábios quando está concentrado. Ele gosta de dinossauros e de comer macarrão com queijo e dorme abraçado a um urso que se chama Beto.
Eu criei o Beto sozinha. Eu criei o Miguel sozinha. E eu construí a minha vida sozinha, tijolo por tijolo, plantão por plantão, Pix de aluguel por Pix de aluguel, nesse apartamento de dois quartos no Ipiranga onde a janela do banheiro gruda e o vizinho do quinto andar toca pagode até meia-noite.
Não é a vida que eu tinha imaginado. Mas é uma vida que eu fiz com as minhas próprias mãos, e isso vale mais do que qualquer coisa que ele poderia ter me dado.
