Capítulo 2 — Plantão
Seis horas de plantão passam de um jeito que só quem trabalha em UPA consegue entender: não em minutos, mas em corpos. Em casos. Em decisões que têm que ser tomadas em trinta segundos com informação incompleta e equipamento que às vezes funciona e às vezes não.
A criança do leito seis se chama Gabriel. Três anos, exatamente a idade de Miguel, e isso é uma coisa que eu não posso deixar entrar, então não deixo. Coloco a luva, verifico o soro, anoto a temperatura — ainda trinta e oito e oito — e sorrio para a mãe que está sentada na cadeira ao lado com o casaco que ela não tirou desde que chegou.
— Ele dormiu um pouco? — eu pergunto.
— Uma hora — ela diz. Ela tem uns trinta anos e parece dez a mais. — Doutora, quando vai ter médico?
— A pediatra chega em quarenta minutos. O Dr. Pedro está cobrindo enquanto isso, se tiver qualquer piora chama a gente imediatamente.
— Dr. Pedro — ela repete, como se estivesse tentando memorizar.
— Ele é bom — eu digo, e não é por acaso que eu digo isso, é porque é verdade. Pedro Santos tem vinte e oito anos e faz residência em medicina de emergência no nosso hospital há um ano e meio, e ele é o tipo de médico que ainda tem energia às sete da manhã depois de doze horas de plantão, o tipo que pede desculpas quando interrompe a enfermagem e agradecer quando a gente resolve um problema antes de ele ter que pedir.
Há uma semana, ele me ajudou a convencer a farmácia a liberar um medicamento fora do protocolo padrão para uma paciente que não tinha convênio e não podia pagar. Ficou quarenta minutos ao telefone com a supervisão enquanto eu ficava com a paciente. Isso não é obrigação de ninguém. Ele fez porque quis.
Não estou pensando em Pedro de nenhum jeito específico. Estou pensando que é bom ter colegas de confiança. Estou pensando que, aos vinte e seis anos, depois de tudo o que aconteceu, a capacidade de confiar em alguém já é, por si mesma, uma conquista.
Às oito da manhã a Dra. Maria Fernandes — a pediatra do turno — chega e assume o leito seis. Ela é uma mulher de cinquenta e poucos anos que já trabalhou em três hospitais diferentes antes do São Lucas e que tem o tipo de calma que só vem de ver muita coisa. Eu gosto dela. Ela é justa com a equipe de enfermagem, o que não é garantido.
Às nove, eu tomo o café que esqueci às sete e que está completamente frio. Bebo assim mesmo, de pé, em frente à janela que dá para o estacionamento — a vista mais bonita do hospital não é aqui, mas o estacionamento tem uma jabuticabeira plantada no canto que ninguém sabe explicar por que está ali, e em agosto ela floresce, e por uns três dias o estacionamento de hospital público cheira a alguma coisa que não é hospital.
Não é agosto. Mas eu me lembro da jabuticabeira.
Às dez, atendo um homem de cinquenta e dois anos com dor no peito que acaba sendo ansiedade mas que a gente trata como cardíaco até provar o contrário — regra número um, você sempre trata como o pior cenário até ter prova de que não é. Ele está nervoso porque perdeu o emprego na semana passada e a mulher dele não sabe ainda e ele não consegue dormir. Eu faço os exames, chamo o médico, escuto a história toda porque ele precisa que alguém escute, anoto tudo no prontuário e não julgo nada.
Às onze, troco curativo de um menino de doze anos que caiu de bicicleta. Ele chora um pouco e depois decide que não vai chorar porque tem doze anos. Eu finjo não ver as lágrimas que ele engoliu.
Ao meio-dia, verifico os prontuários da manhã. Há sempre alguma inconsistência pequena, alguma informação que ficou vaga, alguma abreviação que o médico vai entender e a enfermagem do turno seguinte vai ter que decifrar. Corrijo o que posso. Deixo nota para o que não posso corrigir sozinha.
Ao meio-dia e quinze, Pedro aparece na sala de enfermagem com dois copos de plástico de café.
— Da máquina horrível — ele avisa, colocando um dos copos na minha frente. — Mas é quente.
— Você é um santo — eu digo.
Ele ri. Ele tem um jeito de rir que é... não importa. É um riso que não tem pressa, que não está tentando convencer ninguém de nada. Ele sorri e diz que a Dra. Maria pediu mais exames para o Gabriel, que deve ter resultado à tarde, e que ele já passou o caso para o próximo plantão. Eu agradeço. Ele vai embora. O corredor volta a ser um corredor, com a fila e o fluorescente e os cinquenta e oito leitos em quarenta e dois disponíveis.
Às duas da tarde eu pego Miguel na creche.
Ele sai correndo, como sempre, de mochila nas costas e um desenho na mão — hoje é um dinossauro verde que tem cinco patas porque ele ainda está descobrindo a simetria — e bate no meu joelho antes de levantar os braços para eu pegar.
— Mamãe. Eu fiz um dinosauro.
— Eu vi — eu digo, e o pego no colo e ele pesa quinze quilos de calor e cheiro de suor e tinta guache, e é a melhor coisa do dia. Da semana. De tudo. — É lindo, meu amor. Quantas patas tem?
— Cinco — ele diz, absolutamente satisfeito com isso.
— Os dinossauros de verdade tinham quatro.
— O meu tem cinco — ele insiste.
— Tá bom — eu digo. — O seu pode ter cinco.
Nós dois vamos para casa de ônibus, porque o carro que eu tinha antes de Miguel eu vendi quando ele nasceu para pagar o quarto no hospital particular que o SUS não cobria naquela época. Agora eu economizo para um carro usado que talvez compre no fim do ano. Miguel gosta do ônibus porque pode ver os caminhões pela janela, e ele tem um sistema de contagem que só ele entende completamente — vermelhos valem mais, caminhões-baú valem mais ainda, e os tanques de combustível são o jackpot, o que significa que às vezes ele exclama no meio do ônibus e todo mundo olha e ele não percebe porque está muito ocupado comemorando.
Eu faço macarrão com queijo porque era o que ele pediu. É sempre macarrão com queijo quando ele tem escolha. Eu já tentei introduzir variações — macarrão com molho, macarrão com legumes, macarrão de cores diferentes — e ele aceita com a tolerância de alguém que está fazendo um favor, não com entusiasmo. Então é macarrão com queijo.
Ele dorme às oito e meia abraçado ao Beto. Eu fico mais uma hora acordada organizando as contas do mês, passando por tudo — aluguel, creche, mercado, a conta de luz que veio mais cara esse mês porque o inverno chegou e o aquecedor do banheiro está trabalhando mais, o remédio que Miguel tomou no mês passado para a virose que durou dez dias e me custou dois turnos de plantão extra para cobrir a folga. Quando termino, o saldo está no positivo, mas só um pouco.
Um pouco é suficiente. Eu aprendi que suficiente é diferente de pouco — que suficiente é um estado completo, não uma falta de mais.
Eu fecho o notebook e apago a luz.
A porta que eu fechei para Lucas Costa há três anos não se abre de noite. Eu aprendi a não deixar. Tem noites que eu sinto o peso dela, como se tivesse alguma coisa do outro lado querendo entrar — alguma versão mais nova de mim mesma que ainda não sabia como o mundo era, que ainda acreditava que homens como ele ficam. Mas a porta fica fechada. Eu escolhi isso.
E essa escolha, toda vez que a reafirmo, pesa um pouco menos.
Durmo.
