Capítulo 5 5

Delancy ainda estava no chão, o coração disparado e a respiração em fragmentos. A presença de Liam pairava sobre ela como uma sombra viva: grande, firme e inabalável. Ele era alto, muito mais alto do que imaginava. O paletó de alfaiataria mal escondia os músculos definidos por baixo da camisa branca aberta no colarinho. O peito largo se movia com lentidão, como se cada inspiração carregasse a medida exata de controle.

Mas o que a imobilizava de verdade eram os olhos.

Ele a observava como se já tivesse medido seu valor… e talvez considerado insuficiente.

"Você está bem?" ele repetiu, a voz mais grave do que antes, ressoando dentro dela como uma batida de tambor abafado.

Delancy engoliu em seco.

Seu corpo inteiro queria fugir, mas o olhar dele a mantinha ancorada, exposta. Uma parte dela quis responder, contar tudo, que tinha sido usada, que aquilo não era escolha sua, que Isla…

Isla…

Mas e se ele achasse que o plano era de Delancy? E se pensasse que ela queria isso? Que estava ali por interesse?

Os olhos dele eram os de alguém que não perdoava manipulações.

"Sim…" sussurrou Delancy, a voz falhando. "Foi só um susto."

Isla desceu os últimos degraus com passos apressados e firmes, o som dos saltos ecoando pelo mármore. Seu rosto estava pálido, mas ela tentava sorrir, um sorriso  falso. "Sr. Russell!" disse, com a voz um pouco mais aguda do que o normal. "Que surpresa... Não sabíamos que já tinha chegado."

Ele não tirou os olhos de Delancy, como se estivesse tentando desvendar uma equação complexa gravada em sua pele. Depois de alguns segundos, se endireitou e ofereceu a mão para ajudá-la a levantar.

Ela hesitou, mas pegou.

Os dedos dele eram grandes, quentes e firmes. Quando a puxou, foi com facilidade, como se ela não pesasse nada. Por um instante, ficou tão próxima que pôde sentir o perfume dele: algo amadeirado, escuro, como fumaça e madeira cara.

"Quem é?" ele perguntou, seco.

"Minha filha," Isla respondeu antes que Delancy pudesse sequer respirar.

Ele arqueou uma sobrancelha.

"Ela chegou esta manhã. Tive que buscá-la no terminal. Um problema familiar… passageiro." Isla agarrou o braço da filha com dedos firmes demais. "Ela vai ficar apenas por alguns dias, até que eu resolva as coisas com o pai dela."

Liam desviou o olhar devagar, como se ainda não acreditasse totalmente na história. Mas não fez mais perguntas. Apenas assentiu com um movimento mínimo de cabeça. "Tenha cuidado na escada," disse, antes de se afastar.

Delancy só conseguiu respirar de novo quando ele desapareceu por um corredor lateral, seus passos fortes ecoando pela casa.

Isla girou o rosto com violência em direção à filha. O brilho de pânico já se transformava em raiva. Com um puxão brusco, ela agarrou o pulso de Delancy e a arrastou pelo corredor, os saltos ecoando como tiros abafados. A jovem quase tropeçou tentando acompanhar o passo furioso da mãe.

"Anda", rosnou Isla entre os dentes, olhando para os lados como se cada canto da mansão pudesse esconder alguém.

Chegaram a uma ala lateral, afastada das áreas sociais. Isla empurrou uma porta qualquer, jogou Delancy para dentro e, antes que a filha se equilibrasse, a prensou com força contra a parede. "Quer contar ao Liam que está grávida?" Sua voz era um sussurro. "Vá em frente. Conta, sua ingrata do caralho. Assim ele te mata e resolve o problema. Uma bala resolve muito rápido, querida."

Delancy arregalou os olhos, o coração disparado.

Isla aproximou o rosto, os olhos verdes selvagens, furiosos. "Ou quer fugir?" continuou, a voz ganhando volume. "Pode voltar pro terminal e passar fome com esse bebê dentro de você. Dormir em banco de concreto e mendigar trocado. Melhor ainda… pede pro seu namoradinho de classe média sustentar você e o bastardo. Vamos ver quanto tempo ele aguenta."

Delancy sentiu o sangue ferver. A raiva subiu como um calor nauseante, sufocando o medo. As palavras saíram antes que ela pudesse medir o impacto. "De qualquer forma, eu ainda seria uma mãe melhor do que você."

Foi como jogar gasolina numa fogueira.

Slap!

O tapa veio seco, estalando contra o lado do rosto de Delancy com brutalidade. O som ressoou na parede abafada do cômodo. Sua cabeça virou com o impacto, o cabelo se espalhando sobre o rosto. Um gosto metálico invadiu sua boca.

Por um segundo, tudo ficou em silêncio.

Só o som dos dois corações batendo forte: o de Delancy, tentando resistir, e de Isla, tentando dominar.

Isla estava ofegante. O braço ainda estendido. O olhar fervendo em algo que ia além da raiva… era medo. Desespero. Perda de controle. "Você não sabe com quem está lidando", sussurrou Isla, a voz embargada de ódio. "E se continuar bancando a heroína, vai acabar enterrando esse filho antes mesmo de parir."

Delancy não respondeu. Não chorou. Apenas olhou para ela, olhos vermelhos, mas frios. Lentamente, ergueu a cabeça.

**

O quarto era abafado e apertado, com paredes claras demais para tanta escuridão acumulada em seu peito. Delancy estava sentada no chão, encostada na cama, abraçada às próprias pernas. O celular ainda vibrava em sua mão.

Peter: 18 ligações não atendidas; 4 mensagens de voz; "Me responde, por favor."; "Não importa onde você está, eu vou até você."

Delancy apertou a tela, respirou fundo, e ligou.

Ele atendeu antes do segundo toque. “Delancy! Graças a Deus. Onde você está? Eu estou desesperado. Você sumiu! Aconteceu alguma coisa? Está bem?”

Ela esperou o silêncio se instalar, mesmo que só por dois segundos. E então falou, seca: “Peter, acabou.”

Era melhor terminar tudo por telefone do que explicar para Peter que ela estava grávida de outro homem contra sua vontade. Ele jamais entenderia, ou acreditaria.

Ele travou. “Como assim? Que... que tipo de brincadeira é essa?”

“Não é brincadeira. Estou terminando com você. É melhor assim.”

“Delancy, por favor... Eu sei que você está assustada, eu também ficaria. Mas a gente consegue resolver. Eu posso pegar um ônibus no fim de semana. Essa distância é só um obstáculo.”

“Você não entendeu. Eu não quero mais superar nada. Especialmente com você.”

Do outro lado, o silêncio parecia vir pesado, quase doloroso. “Você... não está dizendo isso de verdade.”

“Estou, sim.” Ela se levantou devagar, caminhando até a janela. “Eu estou cansada de fingir que um relacionamento com você é suficiente pra mim.”

Claro, ela estava mentindo, mas, de outra forma, Peter jamais aceitaria. Ele precisava ser machucado para se afastar. Delancy não queria apenas terminar, queria que Peter saísse de sua vida.

“Como assim, suficiente?”

“Você trabalha numa lanchonete, Peter, e divide quarto com o irmão. Anda com o mesmo tênis furado desde que a gente se conheceu.” Ela fechou os olhos com força, porque dizer tudo aquilo doía mais nela do que nele. Era mentira, porque ela adorava os tênis furados dele. “Eu tentei, de verdade. Mas não quero essa vida.”

Ela escutou a respiração dele vacilar, se tornar mais rápida. A voz, quando veio, estava falhando. “Você sempre soube quem eu era, Del. Eu nunca te escondi nada. Achei que você não se importava com essas coisas.”

“Eu não me importava, mas cresci.” Ela disse, dura. “E agora eu quero algo que você não pode me dar.”

“Você está me deixando por dinheiro?” A voz dele vinha em pedaços. “Você conheceu alguém aí”

Delancy afastou o celular para que ele não ouvisse ela fungando. “Sim.”

Uma única palavra. Fria, letal.

Do outro lado, o silêncio durou mais que qualquer um dos anteriores. Então ele murmurou: “Você nunca foi assim.”

“Talvez você nunca me conheceu de verdade.” Ela apertou o colar que ele havia lhe dado e, mesmo com o coração gritando, manteve a voz firme. “E sinceramente? Você é gentil demais. Sonhador demais. Ingênuo. Isso me sufoca.”

“Eu te amei com tudo que tinha.”

“E não foi o bastante.”

Ele arfou. E por um instante, ela achou que ele fosse implorar. Mas não. Ele apenas respirou fundo, e sua voz voltou, quebrada: “Se algum dia você se arrepender, eu não vou mais estar aqui.”

“Eu sei.”

Ela desligou.

E então, com as mãos tremendo, soltou o celular sobre a cama e desabou no chão, onde ninguém podia vê-la. A frieza dela havia sido uma armadura, mas por dentro, Delancy estava quebrada.

E agora, estava sozinha.

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