Capítulo 1 Valentina

Meu nome é Valentina Bellini, tenho vinte anos e, desde que aprendi a entender o mundo, também aprendi que o meu destino nunca me pertenceu.

Enquanto outras garotas da minha idade sonhavam com uma profissão, um intercâmbio ou o primeiro amor, eu cresci ouvindo que um dia herdaria um império construído com inteligência, estratégia e lealdade. Não fui criada para ser uma princesa. Fui preparada para ser uma líder.

Sou filha de Lorenzo Bellini, o homem que comanda uma das organizações criminosas mais influentes da Itália. Ao lado dele está meu tio, Vittorio Bellini, seu braço direito e o homem em quem meu pai mais confia. Os dois construíram um legado que atravessou gerações, e agora chegou a nossa vez de provar que somos dignas de carregá-lo.

Quando digo "nossa", estou falando de mim e da minha irmã gêmea, Antonella.

Somos idênticas fisicamente, mas completamente diferentes quando alguém tem a oportunidade de nos conhecer.

Antonella é paciente, calma e sempre pensa antes de agir. Eu... bom, eu costumo agir antes mesmo de perceber que já tomei uma decisão.

Ela consegue resolver conflitos apenas conversando.

Eu prefiro garantir que eles nunca mais aconteçam.

Meu pai sempre brinca dizendo que ela herdou a inteligência da família e eu herdei o temperamento dos Bellini. Minha mãe apenas ri, porque sabe que, no fundo, nós duas somos exatamente iguais quando alguém ameaça quem amamos.

A única diferença é que eu demonstro primeiro.

Apesar do sobrenome que carregamos, nossa infância foi muito mais feliz do que as pessoas imaginam. Meus pais fizeram de tudo para que crescêssemos como duas jovens normais. Estudávamos, viajávamos nas férias, comemorávamos aniversários em família e tínhamos amigos que jamais imaginaram quem realmente éramos.

Pouquíssimas pessoas conhecem a verdadeira história dos Bellini.

Esse sempre foi o nosso maior trunfo.

Vivíamos escondidos aos olhos de quem procurava destruir nossa família.

Foi somente aos quinze anos que nossa vida mudou completamente.

Meu pai nos reuniu na sala de treinamento e disse que estava na hora de começarmos a aprender aquilo que um dia garantiria nossa sobrevivência.

Naquele dia, segurei uma arma pela primeira vez.

Achei que sentiria medo.

Não senti.

Senti responsabilidade.

A partir dali, nossa rotina passou a ser dividida entre estudos e treinamentos. Aprendemos defesa pessoal, tiro de precisão, direção ofensiva, idiomas, negociação, estratégias de infiltração e tudo o que fosse necessário para comandar uma organização.

Enquanto muitos homens treinavam apenas força física, meu pai insistia que o cérebro sempre venceria uma guerra antes da primeira bala ser disparada.

Era impossível discordar dele.

Com o passar dos anos, eu e Antonella participamos de pequenas operações supervisionadas. Nunca demos um passo maior do que podíamos suportar, mas cada missão servia para provar que estávamos prontas para desafios maiores.

Nossos inimigos jamais imaginavam que, por trás de planos tão bem executados, existiam duas mulheres.

Eles procuravam homens.

E continuariam procurando.

Subestimar uma mulher sempre foi o erro mais caro de qualquer adversário.

Talvez por isso meu pai nunca tenha permitido que ninguém diminuísse nossa capacidade.

— O respeito não é dado. É conquistado todos os dias — ele repetia sempre que encerrávamos um treinamento.

Essas palavras ficaram gravadas dentro de mim.

Mas existe uma lembrança que nunca saiu da minha cabeça.

Eu tinha dezesseis anos quando nossa casa foi invadida.

Meu pai e Antonella estavam em uma reunião. Minha mãe preparava o jantar enquanto cuidava do meu irmão mais novo.

Tudo aconteceu em questão de segundos.

Três homens armados entraram na casa.

Minha mãe tentou protegê-lo sem pensar duas vezes.

Ela não sabia lutar.

Não sabia atirar.

Mesmo assim, enfrentou os invasores.

Foi derrubada.

Lembro do barulho da queda.

Lembro do medo.

E lembro, principalmente, da arma escondida atrás da estante do escritório do meu pai.

Corri até lá sem pensar.

Minhas mãos tremiam.

Meu coração parecia querer sair do peito.

Respirei fundo, apontei e atirei.

Uma vez.

Duas.

Três.

Quando percebi, os três homens estavam caídos.

Eu nunca vou esquecer o silêncio que tomou conta da casa depois daqueles disparos.

Foi a primeira vez que tirei uma vida.

Também foi a primeira vez que entendi que algumas decisões mudam uma pessoa para sempre.

Poucos minutos depois, meu pai chegou acompanhado da Antonella.

Jamais vou esquecer o olhar desesperado dele ao entrar na sala.

A preocupação desapareceu apenas quando viu minha mãe acordando e meu irmão ileso.

Ele caminhou até mim sem dizer uma única palavra.

Pegou a arma das minhas mãos.

Depois me abraçou.

Foi um abraço forte.

Silencioso.

Quando nos afastamos, ele segurou meu rosto.

— Você salvou sua família.

Não havia orgulho nos olhos dele.

Havia alívio.

Naquela noite, eu percebi que ser uma Bellini significava muito mais do que carregar um sobrenome.

Significava proteger quem amávamos.

Sempre.

Foi justamente essa confiança que fez meu pai nos chamar para uma reunião poucos anos depois.

Sobre a mesa havia mapas, fotografias, documentos e um dossiê completo.

No centro da pasta estava escrito:

Rio de Janeiro — Brasil.

Meu coração acelerou imediatamente.

Meu pai cruzou os braços antes de falar.

— Chegou a hora de vocês assumirem uma missão própria.

Troquei um olhar com Antonella.

Nenhuma de nós conseguiu esconder a ansiedade.

— Nossa organização possui uma antiga aliança no Brasil. Quero que vocês fortaleçam essa parceria e passem um tempo no Rio de Janeiro. A partir de agora, vocês representarão os Bellini naquele território.

Passei as páginas lentamente até encontrar a fotografia de um lugar cercado por vielas, casas coloridas e uma vista impressionante.

Na legenda havia apenas duas palavras.

Morro da Fé.

— Esse será o principal ponto de apoio de vocês — explicou meu tio. — Os homens que comandam aquele território são aliados de confiança. Trabalhem juntos, aprendam como funciona a realidade deles e mostrem por que vocês nasceram para liderar.

Fechei a pasta devagar.

A missão era exatamente o desafio que eu esperava.

Mas, no fundo, existia outro sentimento crescendo dentro de mim.

Curiosidade.

Sempre ouvi dizer que o Brasil era um país intenso.

Cheio de música, praias, festas e pessoas apaixonadas pela vida.

Sorri sozinha.

Minha mãe percebeu.

— Já está pensando em aproveitar a viagem?

Ri discretamente.

— Vou cumprir minha missão... mas não prometo passar todos os dias trabalhando.

Meu pai balançou a cabeça, fingindo indignação.

— Conheço esse sorriso, Valentina.

Levantei da cadeira e beijei sua testa.

— Relaxa, papà. Eu nunca esqueço quem eu sou.

E era verdade.

Eu só não imaginava que aquela viagem mudaria completamente o rumo da minha vida.

Porque, às vezes, o destino não avisa quando está prestes a colocar pessoas capazes de transformar tudo aquilo em que sempre acreditamos.

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