Capítulo 2 Antoniella

Meu nome é Antonella Bellini, tenho vinte anos e, se existe uma coisa que aprendi desde pequena, é que as aparências enganam.

Quem me conhece pela primeira vez costuma dizer que sou a mais tranquila entre as gêmeas. Dizem que meu jeito calmo transmite paz, que meu sorriso inspira confiança e que meus olhos dificilmente demonstram o que estou pensando. Eu apenas sorrio quando escuto isso, porque ninguém imagina quantas decisões difíceis já precisei tomar antes mesmo de completar dezoito anos.

Se perguntarem para a Valentina quem é a mais perigosa entre nós, ela responderá sem pensar duas vezes que sou eu.

Ela sempre diz que prefere uma guerra declarada a enfrentar o meu silêncio.

Talvez ela tenha razão.

Enquanto minha irmã resolve tudo no impulso, eu gosto de observar. Analiso cada detalhe, escuto todos os lados e só tomo uma decisão quando tenho certeza de que estou fazendo a coisa certa. Não ajo movida pela raiva. Ajo pela razão.

E, às vezes, isso assusta muito mais.

Apesar das nossas diferenças, nunca existiu competição entre nós. Desde crianças aprendemos que somos uma só equipe. Se uma cai, a outra levanta. Se uma está em perigo, a outra enfrenta o mundo inteiro para protegê-la.

Sempre foi assim.

Sempre será.

Meus pais fizeram questão de criar uma família unida. Dentro da nossa casa, meu pai nunca foi apenas o homem que comandava uma poderosa organização. Antes de qualquer coisa, ele era o nosso pai.

Era ele quem fazia questão de jantar conosco sempre que podia, quem nos levava para passear quando o trabalho permitia e quem nos ensinava que respeito se conquista dentro de casa antes de ser exigido do lado de fora.

Minha mãe completava tudo aquilo.

Ela sempre foi o equilíbrio da nossa família.

Foi com ela que aprendi que força não significa levantar a voz. Significa permanecer firme mesmo quando tudo parece desabar.

Talvez seja por isso que eu nunca precise provar para ninguém quem eu sou.

Eu simplesmente sei.

Quando a Valentina salvou a nossa mãe e o nosso irmão durante aquela invasão, senti um misto de orgulho e culpa. Orgulho porque ela teve coragem de agir. Culpa porque eu não estava ao lado dela.

Naquele dia prometi a mim mesma que nunca mais deixaria minha irmã enfrentar qualquer perigo sozinha.

Desde então, nos tornamos ainda mais inseparáveis.

Os treinamentos começaram cedo e, com o passar dos anos, deixaram de ser uma obrigação para se tornarem parte da nossa rotina. Aprendi a atirar, lutar, dirigir em alta velocidade e planejar operações complexas.

Mas minha maior habilidade nunca foi a força.

Sempre foi enxergar aquilo que quase ninguém percebe.

Enquanto muitos olham apenas para as armas, eu observo as pessoas.

Um olhar inseguro.

Uma respiração acelerada.

Uma mentira mal contada.

Tudo isso diz muito mais do que qualquer palavra.

Meu pai costuma brincar que eu seria uma excelente investigadora se tivesse escolhido outro caminho.

Mas eu nunca tive outro caminho.

Nasci Bellini.

E sinto orgulho disso.

Quando ele anunciou que viajaríamos para o Brasil para representar nossa família, meu coração acelerou de um jeito diferente.

Era o início de uma nova etapa.

Ao mesmo tempo em que seria uma enorme responsabilidade, também significava liberdade.

Pela primeira vez, eu e Valentina ficaríamos responsáveis por uma missão desse tamanho.

Confiavam em nós.

Isso significava tudo.

Depois da reunião, subi para o meu quarto e comecei a pesquisar sobre o Rio de Janeiro.

As imagens me deixaram encantada.

Praias enormes.

Pôr do sol.

Montanhas.

Música.

Pessoas sorrindo.

Parecia um lugar completamente diferente de tudo o que eu conhecia.

Sorri imaginando como seria caminhar pela areia sem me preocupar com horários ou reuniões.

Logo depois comecei a pesquisar sobre o Morro da Fé.

Encontrei poucas informações.

Quase tudo era mantido em absoluto sigilo.

Apenas alguns relatos diziam que o território era comandado por dois irmãos conhecidos por nunca abandonarem os seus.

Gabriel.

Arthur.

Os apelidos chamavam ainda mais atenção.

China e Lobo.

Sorri discretamente.

— Então são vocês que vamos conhecer...

Não havia fotografias recentes.

Nem muitas informações.

Apenas rumores.

Diziam que eram estrategistas, respeitados pelos aliados e temidos pelos inimigos.

Fechei o computador.

Não fazia sentido criar expectativas.

Eles provavelmente também não sabiam nada sobre nós.

Ou melhor...

Achavam que sabiam.

Meu pai explicou que os nossos aliados no Rio apenas tinham sido informados de que dois representantes da família Bellini chegariam da Itália.

Ninguém mencionou nossos nomes.

Muito menos que éramos mulheres.

Confesso que achei divertido imaginar a reação deles quando nos vissem.

Valentina provavelmente faria alguma brincadeira.

Eu apenas observaria.

Na manhã seguinte, minha mãe entrou no quarto enquanto eu terminava de organizar as malas.

Sentou-se ao meu lado na cama e segurou minha mão.

— Está com medo?

Olhei para ela e sorri.

— Estou ansiosa.

Ela acariciou meu rosto.

— Nunca deixe que o trabalho faça você esquecer de viver.

Franzi a testa.

— Como assim?

Ela riu baixinho.

— Você e sua irmã são jovens. Trabalhem, honrem a nossa família, mas também permitam que o coração de vocês viva. Nem tudo precisa ser uma missão.

Abracei minha mãe.

Ela sempre encontrava as palavras certas.

Antes de sair, ainda disse uma frase que ficou gravada na minha memória.

— O amor não escolhe o lugar nem a hora para acontecer.

Balancei a cabeça, rindo.

— Acho difícil isso acontecer comigo.

Ela apenas sorriu.

— Um dia você vai lembrar desta conversa.

Assim que ela saiu, ouvi a porta do meu quarto abrir novamente.

Era Valentina.

Entrou sem bater, como fazia desde crianças.

— Terminou?

Assenti.

Ela olhou para as malas e depois para mim.

— Está preparada para conquistar o Brasil?

Ri da empolgação dela.

— Preparada para trabalhar.

— E para conhecer os brasileiros?

Revirei os olhos.

— Você não muda.

Ela deu de ombros.

— Dizem que o Rio tem homens bonitos.

Acabei rindo junto.

— Você pensa em paquerar até durante uma missão.

— Claro. A gente vai trabalhar, mas ninguém é de ferro.

Cruzei os braços.

— Só não esquece que continuamos representando a família Bellini.

Ela caminhou até mim e passou um braço pelos meus ombros.

— Relaxa. Eu posso até brincar... mas nunca esqueço quem somos.

Olhei para minha irmã e tive a certeza de que estávamos prontas.

Prontas para enfrentar qualquer desafio.

O que nenhuma de nós imaginava era que, do outro lado do oceano, dois irmãos também aguardavam a chegada dos enviados da Itália.

E eles jamais imaginariam que os novos aliados da família Bellini seriam duas mulheres capazes de mudar completamente a história do Morro da Fé.

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