Capítulo 4 Lorenzo Bellini
Meu nome é Lorenzo Bellini, tenho quarenta e cinco anos e sou o Don da família Bellini, uma das organizações mais respeitadas da Itália. Ao meu lado está meu irmão, Vittorio Bellini, meu braço direito e o homem em quem confio de olhos fechados. Antes de sermos líderes, estrategistas ou responsáveis por um império, somos irmãos. Foi assim que nosso pai nos criou e foi assim que escolhemos viver.
Ele sempre dizia que uma organização pode sobreviver sem dinheiro por um tempo, sem territórios por algum tempo, mas jamais sobrevive quando a família deixa de caminhar unida, carrego esse ensinamento comigo todos os dias.
Dentro da organização, sou o Don e tomo decisões que, muitas vezes, mudam o destino de muitas pessoas. Dentro de casa, sou apenas um marido apaixonado e um pai que faria qualquer coisa para proteger os filhos.
Sempre fiz questão de separar essas duas vidas.
Minha esposa, Isabella, é a mulher da minha vida. Estamos juntos desde muito jovens. Ela tinha apenas dezenove anos quando deu à luz às nossas gêmeas, Valentina e Antonella, e eu tinha vinte. Ainda hoje me lembro da emoção que senti ao segurá-las nos braços pela primeira vez. Naquele instante, prometi que faria tudo para que elas crescessem felizes e protegidas.
Os anos passaram depressa.
Hoje elas têm vinte anos e se tornaram exatamente as mulheres que eu esperava criar, fortes, e inteligentes, corajosas.
Sempre fiz questão de esconder do mundo quem elas realmente eram. Pouquíssimas pessoas sabiam que minhas filhas eram as herdeiras da família Bellini. Enquanto cresciam, puderam estudar, fazer amizades, viajar e viver uma vida o mais próxima possível da normalidade.
Claro que nunca estiveram realmente sozinhas, mesmo sem perceberem, sempre existiram homens de confiança acompanhando cada passo delas, nunca foi falta de confiança, foi proteção.
Valentina sempre teve um temperamento forte. Desde pequena nunca aceitou ver injustiças. Se alguém implicava com Antonella na escola, bastava alguns minutos para eu receber uma ligação da diretoria dizendo que minha filha havia brigado novamente, perdi as contas de quantas vezes precisei ir buscá-la.
Mesmo tentando demonstrar seriedade, no fundo eu tinha orgulho daquela coragem, ela sempre protegeu a irmã, já Antonella, por outro lado, herdou a calma da mãe.
Pensa antes de agir, observa antes de falar, mas quem acredita que ela é frágil está completamente enganado.
As pessoas mais silenciosas costumam ser as mais perigosas quando são levadas ao limite.
Além das meninas, tenho um filho de dez anos, Matteo, e meu irmão tem um menino da mesma idade, Enrico. Os dois crescerão juntos e, no futuro, serão responsáveis por continuar nosso legado na Itália.
Enquanto isso, minhas filhas escreverão a própria história, durante anos eu e Vittorio treinamos Valentina e Antonella pessoalmente, ensinamos tudo o que sabíamos, estratégia, negociação, combate, defesa pessoal, planejamento, liderança.
Elas aprenderam a utilizar qualquer arma, a comandar equipes e a tomar decisões sob pressão.
Jamais permiti que fossem tratadas de maneira diferente por serem mulheres.
Aqui competência sempre falou mais alto do que qualquer preconceito.
Se hoje elas são respeitadas, foi porque conquistaram esse respeito com esforço.
Há alguns meses tomei a decisão mais difícil da minha vida.
Expandimos nossos negócios no Brasil há muitos anos e construímos alianças importantes. Chegou o momento de enviar alguém da família para assumir aquela responsabilidade.
Escolhi minhas filhas, confesso que, como pai, tive vontade de desistir inúmera
as vezes.
O Brasil é um país lindo, mas também apresenta desafios enormes para quem vive do nosso mundo, foi Isabella quem me fez enxergar a verdade.
— Se você quer que elas liderem um dia, precisa confiar nelas agora.
Ela estava certa, comprei um apartamento para as duas em um dos bairros mais nobres do Rio de Janeiro. A equipe de segurança foi escolhida pessoalmente por mim, mas elas não fazem ideia de quantos homens estarão discretamente protegendo cada passo delas.
Prefiro que continuem acreditando que estão completamente livres.
A missão delas será representar nossa família no Brasil e fortalecer alianças importantes.
Entre todas, existe uma que merece atenção especial, o Morro da Fé.
Há muitos anos construímos uma relação de respeito com os homens que comandam aquela comunidade. Meu pai conheceu o pai deles ainda jovem, e essa parceria atravessou gerações.
Hoje, o comando está nas mãos de dois irmãos, Gabriel, conhecido como China, e Arthur, chamado de Lobo, ouvi muitos elogios sobre os dois.
São homens inteligentes, respeitados pelo próprio povo e extremamente leais à palavra que dão, tenho certeza de que essa parceria continuará forte.
Por enquanto, eles sabem apenas que representantes da família Bellini chegarão ao Brasil, nada mais, não revelei que seriam minhas filhas.
Quero que elas conquistem respeito pelas próprias atitudes, não pelo sobrenome que carregam.
Além do Morro da Fé, Valentina e Antonella também acompanharão as operações da nossa sede brasileira. Precisarão participar de reuniões, supervisionar equipes, conhecer cada detalhe da organização e provar que estão prontas para liderar.
Todos os homens e mulheres que trabalham para nossa família já foram avisados de que deverão respeitá-las como respeitam a mim, quem desobedecer responderá diretamente comigo.
Nunca aceitei desrespeito dentro da organização,muito menos contra minhas filhas.
Apesar da confiança que tenho nelas, continuo sendo pai,e pai nunca deixa de se preocupar,conheço Valentina melhor do que ninguém.
Se alguém cruzar o caminho dela procurando problemas, provavelmente encontrará exatamente isso.
Antonella será o equilíbrio de que a irmã precisará durante essa nova fase,as duas sempre funcionaram melhor juntas.
Enquanto uma age, a outra pensa,enquanto uma enfrenta, a outra protege.
É por isso que tenho certeza de que darão certo,hoje é o dia da viagem.
Vejo as duas caminhando pela mansão com aquele brilho nos olhos de quem está prestes a viver a maior aventura da própria vida,sinto orgulho.
Mas também sinto saudade antes mesmo de elas partirem.
Isabella apenas sorri, ela conhece minhas preocupações.
Também sabe que tento escondê-las,no fundo, sei que minhas filhas não viajarão apenas para trabalhar.
São jovens, vão conhecer um país novo, pessoas novas e viver experiências que jamais tiveram.
Como pai, não consigo evitar imaginar quantos homens tentarão se aproximar delas.
Isso me incomoda, muito.
Mas também confio na educação que receberam e nas mulheres que se tornaram.
Elas sabem exatamente quem são.
Sabem o peso do sobrenome que carregam,e acima de tudo, sabem se proteger.
Se algum dia precisarem de mim, não importa a distância.
Eu atravessarei o oceano sem pensar duas vezes.
Porque antes de ser o Don da família Bellini...
Eu sempre serei o pai de Valentina e Antonella.
