Capítulo 5 Valentina

Acordei mais tarde do que o normal, a culpa era completamente minha. Passei boa parte da madrugada terminando de organizar as malas para a viagem ao Brasil. Sempre deixava tudo para a última hora, por mais que minha mãe insistisse para eu me organizar com antecedência.

Segundo ela, esse era um dos meus maiores defeitos.Segundo eu...

Funcionava perfeitamente.

Abri os olhos devagar e fiquei alguns segundos encarando o teto do quarto. Era estranho pensar que aquela seria minha última manhã na Itália por um bom tempo. Pela primeira vez, eu pisaria em um país completamente diferente para assumir uma responsabilidade enorme, não o era uma viagem de férias.

Era uma missão, mesmo assim, não consegui evitar um sorriso, levantei da cama, caminhei até o banheiro e deixei a água quente cair sobre meu corpo enquanto minha cabeça viajava para o outro lado do oceano.

Como seria viver no Rio de Janeiro?

Será que eu conseguiria me adaptar?

Como seriam as pessoas?

O Morro da Fé era completamente diferente de tudo o que eu conhecia.

Pela primeira vez, senti um frio na barriga.

Não era medo da missão.

Era a ansiedade por começar uma vida nova.

Nunca fui do tipo que se preocupava com a opinião dos outros. Quem gostasse de mim, ótimo. Quem não gostasse... paciência.

Ainda assim, eu sabia que precisaria conquistar respeito em um lugar onde ninguém me conhecia.

Depois do banho, escolhi uma roupa confortável, sequei os cabelos e desci as escadas.

Assim que entrei na sala, encontrei minha mãe brincando com Matteo.

Meu irmão mais novo corria pela casa segurando um carrinho enquanto Isabella ria de cada resposta engraçada dele.

Aquela cena aqueceu meu coração.

— Bom dia, dorminhoca. — minha mãe sorriu.

— Bom dia.

Dei um beijo em sua bochecha e baguncei os cabelos do Matteo.

— Cadê a Antonella?

— Saiu cedo para resolver algumas coisas antes da viagem.

Balancei a cabeça, aquilo era a cara da minha irmã.

Enquanto eu deixava tudo para a última hora, ela já estava resolvendo metade da vida.

Caminhei até a cozinha, meu estômago reclamava.

Preparei um sanduíche natural e servi um copo de suco de uva. Comi rapidamente e subi novamente para terminar de me arrumar.

Meu pai havia pedido que eu passasse na sede da organização antes de irmos para o aeroporto.

Provavelmente ainda existiam detalhes da missão para conversar.

Pouco tempo depois, peguei a chave do carro e saí da mansão.

Dirigir sempre foi uma das coisas que mais gostei de fazer.

O caminho até a sede era curto, e aproveitei aqueles minutos para colocar as ideias no lugar.

Estava prestes a representar a família Bellini em outro continente, a responsabilidade era enorme, estacionei na garagem, entrei no prédio e segui direto para a sala do meu pai.

Bati duas vezes na porta.

— Entra.

Abri a porta e encontrei Lorenzo sentado atrás da enorme mesa de madeira.

Assim que me viu, cruzou os braços.

— Bela hora para aparecer, senhorita Bellini.

Sorri.

— Fiquei até tarde terminando as malas.

Ele balançou a cabeça, segurando o riso.

— Você nunca muda.

Aproximei-me da mesa.

— Pelo menos consegui terminar tudo.

— Quando era pequena, sua mãe fazia isso por você. Agora quero ver como será sem ela por perto.

Ri.

— Se eu estivesse indo sozinha, talvez fosse um desastre.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Talvez?

Antes que eu pudesse responder, a porta voltou a se abrir, Antonella entrou carregando algumas pastas.

— Já estão falando mal de mim?

Olhei para ela.

— Só estava dizendo que você não vai deixar nosso apartamento virar uma bagunça.

Ela riu.

— Alguém precisa manter a organização.

Meu pai apenas observava nossa implicância, claramente divertido.

— Vocês duas nunca vão mudar.

— Ainda bem. — respondi.

Passamos quase uma hora conversando sobre a viagem.

Meu pai explicou novamente como funcionaria nossa rotina no Brasil.

Teríamos alguns dias para descansar e conhecer a cidade antes de assumirmos oficialmente as responsabilidades.

Depois disso, começaríamos a frequentar reuniões, visitar a sede da organização e conhecer nossos principais aliados.

Também nos apresentou os nomes das pessoas que fariam parte da nossa equipe de confiança, um homem seria responsável pela logística e segurança mais próxima.

Uma mulher, escolhida pessoalmente por ele, nos auxiliaria em tudo o que fosse necessário durante nossa adaptação.

— Confiem neles como confiam em mim — disse meu pai.

Assentimos ao mesmo tempo, naquele instante, alguém bateu na porta.

— Pode entrar.

Meu tio Vittorio apareceu sorrindo.

— Então é verdade...

Ninguém mais trabalha por aqui?

Olhei para Antonella e comecei a rir, meu tio caminhou até nós, beijou nossas testas e apertou a mão do meu pai.

— Bom dia, meninas.

— Bom dia, tio.

Cruzei os braços.

— O senhor está muito engraçadinho hoje.

— Claro. Aproveitando antes que vocês abandonem a gente.

Sorri.

— Relaxa. Ainda dá tempo de eu te desafiar para uma luta antes de ir.

Ele fingiu indignação.

— Você anda muito confiante.

Antonella entrou na brincadeira.

— Acho que os alunos já superaram os professores.

Vittorio colocou a mão no peito.

— Lorenzo, está vendo isso? Depois de anos treinando essas duas, agora sou tratado assim.

Meu pai caiu na risada.

— A culpa foi sua. Você ensinou bem demais.

Os quatro rimos juntos.

Era exatamente isso que eu mais gostava na nossa família.

Apesar da responsabilidade que todos carregavam, sempre existia espaço para brincadeiras.

Depois de resolvermos os últimos detalhes, voltamos para casa.

Meu pai dirigia meu carro, Antonella foi ao lado dele, enquanto eu seguia no banco de trás.

Durante todo o caminho, Lorenzo repetiu recomendações que já tínhamos ouvido dezenas de vezes.

— Quero que mantenham o foco na missão.

— Nós vamos, pai.

— E nada de se envolverem com qualquer homem.

Olhei para Antonella e segurei o riso.

— Relaxa. Não pretendo namorar ninguém.

Ele respirou aliviado.

— Ainda bem.

Resolvi provocar.

— Uns beijos talvez...

Meu pai olhou para mim pelo retrovisor.

— Valentina...

Comecei a rir,Antonella entrou na brincadeira.

— Eu também só quero conhecer pessoas novas.

Lorenzo soltou um longo suspiro.

— Acho que ainda dá tempo de cancelar essa viagem.

Nós duas caímos na gargalhada.

— Pode ficar tranquilo, pai. Sabemos muito bem cuidar da nossa vida.

Ele permaneceu em silêncio durante alguns segundos.

Depois sorriu discretamente.

— Eu sei.

Quando chegamos à mansão, encontramos minha mãe, meu tio e Matteo esperando por nós.

Meu primo Enrico também estava lá.

Os dois brincavam no jardim completamente alheios ao tamanho da despedida que se aproximava.

Entramos e passamos boa parte da tarde conversando.

Pouco depois seguimos para a sala de jantar.

Almoçamos todos juntos, entre risadas, histórias antigas e provocações.

Era impossível olhar para o meu pai e para o meu tio naquele momento e imaginar que ambos comandavam um império do outro lado daqueles portões.

Dentro de casa, eles eram apenas irmãos, maridos, pais.

Homens que faziam questão de aproveitar cada segundo ao lado da família.

Era exatamente isso que eu mais admirava neles.

Quando o almoço terminou, meu pai e Vittorio levaram os meninos para brincar no jardim.

Enquanto isso, eu, Antonella, minha mãe e minha tia começamos a organizar as últimas coisas da viagem, o relógio continuava avançando.

E, a cada minuto que passava, eu tinha mais certeza de que minha vida estava prestes a mudar para sempre.

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