Capítulo 2 Vai acabar em breve
A visão da bolsa de Vanessa largada com tanta naturalidade no sofá de Liam fez um arrepio percorrer a espinha dela. Por um instante, sua mente se recusou a acreditar no que os olhos estavam lhe mostrando.
Rebecca engoliu em seco, dizendo a si mesma que não era nada.
— Talvez ela tenha vindo pedir ajuda ao Liam depois de saber do que aconteceu — sussurrou para si, como se falar aquilo em voz alta pudesse tornar verdade. — Talvez ela tenha esquecido a bolsa.
Mas, mesmo enquanto falava, algo dentro dela dizia que estava mentindo para si mesma.
Ela só ia olhar e provar para si que Vanessa tinha apenas esquecido a bolsa depois de buscar Liam. Provavelmente ligariam para ela assim que chegassem ao hospital e vissem que ela não estava lá.
As pernas de Rebecca se moveram antes que o cérebro acompanhasse, e cada passo a levava mais para dentro do apartamento. Ela olhou a cozinha e assentiu ao ver que estava vazia. Conferiu a pequena sacada com jardim e uma onda de alívio a atravessou quando viu que também estava vazia.
Só restava um cômodo.
Ela rezou para estar errada. Rezou para que, ao abrir aquela porta, não encontrasse nada além de uma cama desarrumada e o conforto de sua imaginação criando coisas.
Mas, ao se aproximar do quarto de Liam, ela viu o que reconheceu muito bem: os saltos vermelhos da irmã, jogados de qualquer jeito perto da entrada.
Imediatamente, seu coração falhou, dolorosamente.
Ela quis voltar, ir embora antes que a verdade despedaçasse o último fragmento de sanidade que lhe restava. Mas então, como se para esmagar o último pedaacinho de esperança, ela ouviu vozes — baixas, íntimas e inconfundivelmente familiares.
Com o coração martelando no peito, Rebecca se encostou na parede, os dedos trêmulos pairando perto da porta.
Ela não pretendia escutar. Queria acreditar que havia uma explicação. Mas as palavras chegaram até ela assim mesmo. As exatas palavras que ela não sabia que a assombrariam para sempre.
— Você ainda me ama? — ouviu Vanessa perguntar.
A respiração de Rebecca travou. Antes que conseguisse se recompor, a voz de Liam respondeu, baixa e carinhosa do jeito que ele costumava falar com ela.
— Claro que amo. Você é a única mulher que eu amo, bebê.
O ar sumiu dos pulmões de Rebecca, e a visão se embaçou de lágrimas.
Seu noivo — o homem em quem ela havia confiado cada sonho, cada promessa, cada pedaço do próprio coração — estava declarando amor à sua meia-irmã? Aquilo tinha que ser um sonho.
— Fica mais difícil acreditar quando eu tenho que te dividir com a minha irmã — disse Vanessa, o tom cortante e amargo.
A mão trêmula de Rebecca voou até a boca para impedir qualquer som.
A risada de Liam veio em seguida.
— Você sabe que eu só estou com aquela garota por causa da herança dela. Foi você mesma que me disse para eu não terminar com ela ainda. Assim que eu me casar com ela, tudo o que ela tem vira nosso. Só mais alguns meses e vai acabar tudo.
Um som sufocado escapou de Rebecca antes que ela conseguisse impedir, e ela agarrou o próprio peito como se pudesse, fisicamente, manter-se inteira.
Cada palavra de Liam parecia uma adaga se enterrando mais fundo no peito dela.
O quarto pareceu inclinar. Seu coração martelava com tanta violência que ela achou que fosse explodir. A própria irmã e o noivo estavam ali juntos, conspirando contra ela — e ela tinha que descobrir isso justamente no mesmo dia em que perdeu os pais.
Os joelhos dela bambearam e, por um instante, ela achou que desabaria ali mesmo. Rebecca prensou uma mão sobre a boca, obrigando-se a não fazer nenhum som.
A risada de Vanessa, baixa, sensual e cruel, ecoou pela porta. “Você tem razão. Eu odeio fingir que me importo com ela. Mas, quando ela sair do caminho, a gente pode viver do jeito que quiser.”
Rebecca recuou cambaleando, incapaz de suportar aquela dor nauseante. O ar parecia grosso demais para respirar. O mundo girou.
Sem pensar, ela se virou e correu. Não tinha como ficar ali e ouvir mais nenhuma palavra deles.
Ela simplesmente correu para fora, para a chuva fria e impiedosa.
As lágrimas embaçavam sua visão enquanto ela tropeçava na direção do carro. As mãos tremiam quando ela se atrapalhou procurando as chaves. De algum jeito, conseguiu entrar e bateu a porta.
Assim que se viu lá dentro, os soluços se soltaram, sacudindo o corpo inteiro.
“Como você pôde, Liam?”, ela sussurrou entre lágrimas. “Como você pôde fazer isso comigo?”
Ela apoiou a testa no volante, chorando até não ter mais força.
Então, como se algo tivesse estalado dentro dela, ela ligou o carro e arrancou.
Não importava para onde. Só sabia que precisava sair daquele lugar.
As luzes da cidade se transformavam em rastros por trás do para-brisa manchado de chuva. O coração dela estava em pedaços — os pais mortos, ela acabara de descobrir a traição da irmã e o engano do noivo. Tudo o que conhecia tinha sumido em uma única noite.
A mente dela gritava: Por que eu? O que eu fiz de errado? Como tudo pode estar acontecendo numa noite só?
Os pneus sibilavam no asfalto molhado. As mãos dela apertaram o volante com mais força, e o mundo lá fora se reduziu ao ritmo do próprio coração e ao murmúrio suave da chuva.
O coração disparava. Ela sentia o pulso na garganta, selvagem e irregular.
Ela não deveria estar dirigindo. Mal conseguia pensar. Mas parar significava sentir. E sentir era insuportável.
Então, de repente, do nada, surgiu um clarão de faróis prateados. Ela virou o volante, mas já era tarde. O guincho de metal contra metal rasgou a chuva. O carro dela sacudiu violentamente ao raspar no outro veículo.
