Capítulo 3
Respira, Tessa. Respira.
É só um “oi”. Eu sei que é uma palavra simples, mas vem dele, e isso muda tudo. Sinto minhas bochechas esquentarem sob o olhar dele e desvio os olhos para a lousa. Meu Deus do céu. O Ben falou comigo.
Agora é mesmo uma ótima hora pra eu me abanar. Pera aí, o que está acontecendo comigo? Eu preciso me controlar. Eu não fico com meninos. Ensino médio não é pra namorar. Fico mexendo no pingente do colar que o Hayden me deu. É meu amuleto da sorte; eu uso em todo lugar, até no ringue. O frio do metal pressionado na minha palma consegue acalmar meus pensamentos; eu esqueço o Ben por um segundo e foco na fórmula na lousa.
O senhor Sam está explicando a fórmula, falando alguma coisa sobre um pentágono. Ou era um hexágono? Tanto faz, termina com “gono”. Ben me cutuca com o pé duas vezes; por algum motivo, eu escolho ignorar.
A cadeira dele range quando ele a arrasta pra mais perto; o hálito dele roça meu pescoço, um arrepio desce pela minha coluna. “Belo tapa.”
Meus olhos quase saltam das órbitas; eu engulo em seco. Vou derreter se eu ouvir aquela voz macia mais uma vez.
Ben acabou de dizer mais do que uma palavra pra mim. Eu devo parecer calma, mas por dentro eu estou gritando. Espera. Belo tapa? Viro a cabeça num tranco pra encará-lo; ele dá uma risadinha e empurra a cadeira pra trás sem fazer barulho. Diante da minha cara de confusão, ele balança o celular na frente do meu rosto, tirando do meu alcance quando eu tento pegar. Um aperto se instala no fundo do meu estômago; eu me recuso a considerar a única possibilidade. Não pode ser. A gente estava sozinho no corredor.
“Me deixa ver”, eu sussurro para um Ben sorridente; ele parece feliz demais em me ver nervosa. “Por favor?”
Uma mecha de cabelo cai no rosto dele; ele joga pra trás em câmera lenta, como se soubesse o quanto aquele gesto é sexy. Ele é bonito e é inteligente; eu posso apreciar essa combinação, mas ele não precisa saber disso. Colocando minha melhor cara de pôquer, sustento o olhar dele por um segundo e aquele sorrisinho arrogante volta pros lábios.
Aff. Ele se acha demais. Aponto pro celular dele, esperando que ele entenda a indireta e me mostre o vídeo, mas ele não mostra. Ele dá de ombros e enfia o celular no bolso do jeans sem quebrar o contato visual.
Idiota. Eu devia ter agarrado quando tive a chance. Lançando pra ele um último olhar atravessado, eu bufo e fixo os olhos na nuca do senhor Sam enquanto ele rabisca na lousa. Desta vez, eu estou decidida a prestar atenção na aula. Mas o Ben está determinado a tornar isso impossível. Ele me cutuca de novo; eu ignoro.
Um bilhete amassado cai na minha carteira, cortesia dele. Por mais curiosa que eu esteja, eu empurro o papel pra fora da carteira sem nem olhar, e o gemido abafado dele me faz sorrir; ele deve estar tão acostumado a conseguir tudo. Os alunos na nossa frente estão anotando, diferente de mim e dele. Eu puxo meu caderno com a intenção de me ocupar.
Ben me cutuca na lateral com o lápis; eu cerro os dentes e viro a cabeça num estalo pra aquela cara sorridente e idiota.
“O quê?”, eu rosno pra ele.
A sala fica em silêncio; várias cabeças se viram pra nós, com um olhar de morte dirigido só pra mim, e eu afundo na cadeira. O senhor Sam para a escrita frenética, o olhar alterna entre mim e Ben, e ele estreita os olhos pra mim.
“Theresa, fique quieta.”
Eu ofereço um sorriso de desculpa; Ben dá uma risadinha ao meu lado, mas ninguém chama a atenção dele por isso. Eu engulo um chiado de irritação com o tratamento desigual e começo a rabiscar no meu caderno, todo o interesse pela aula se desfazendo. A mochila ao lado do meu pé vibra; eu pego o celular e a náusea sobe pela minha garganta com a mensagem em CAIXA ALTA.
“Oi.” É o Ben de novo, mas eu estou focada demais na mensagem da Maria pra ouvir. Se está em caixa alta, então tem que ser urgente, só que eu não quero abrir o Broadway Gossip — que é exatamente o que o texto dela exige. “Da próxima vez, você devia socar ela. Quebrar o nariz dela ou sei lá.” Eu lanço um olhar fulminante pra ele; ele pisca. “Belo colar.”
Com isso, eu enfio o colar de volta no lugar onde fica escondido. Ele dá uma risadinha, mas não me incomoda de novo. O senhor Sam lança um olhar de aviso na nossa direção, mas não diz nada. Eu me convenço a abrir o blog, e minha cabeça dá uma leve tontura.
Não, não, não. Não isso.
Tapinha legal? Da próxima vez, eu soco ela? Tudo começa a fazer sentido quando vejo o vídeo de eu dando um tapa na Olivia encarando a minha cara. O pior são os comentários perguntando se foi Photoshop, enquanto outros respondem com memes do tapa.
Minha vida. Eu tô ferrada.
A Maria manda outra mensagem pra confirmar se eu vi o vídeo, e eu respondo com uma foto do tipo de flor que ela devia levar pro meu túmulo, porque eu morri. Quando finalmente tiro a cabeça latejando do celular, a sala está vazia — ou eu acho que está — até notar o Ben me olhando. Ele está me esperando? Ele desvia o olhar antes que eu comente a minha suspeita; eu jogo a mochila no ombro e me levanto. Isso é estranho.
E também é a primeira vez que a gente fica no mesmo lugar, sozinhos. A gente já se falou algumas vezes em situações inevitáveis, mas tenho certeza de que ele nem lembra desses encontros; duvido que ele saiba meu nome. Eu limpo a garganta pra chamar a atenção dele, mas ele continua encarando a janela, como se tivesse vergonha de ser pego me olhando. Idiota; eu posso ficar bonita se eu quiser. Eu sigo o olhar dele lá pra fora — nada de interessante, só o estacionamento da escola.
Tá bom, então. Sem dizer uma palavra pra ele, eu saio da sala pra próxima aula.
O resto das minhas aulas vira um borrão: olhares roubados e mais olhares roubados. Uns dedos apontando e risadinhas. Eu lembro vagamente da Maria me puxando até a cantina e largando uma bandeja na minha frente. Sem refrigerante. Sem besteira. Eu tenho uma briga amanhã, mas ela não sabe disso. Ela acha que eu tô cuidando do peso. Como se eu já não fosse magra o suficiente. Eu cutuco a comida, dou só uma mordida e empurro a bandeja pra longe.
— Anima, não é o fim do mundo — ela diz, com aquela voz animadinha demais. Fácil falar; ela tá acostumada a ser o centro das atenções, enquanto eu prefiro ficar escondida. — Esse vídeo vai ser esquecido logo.
Ela enrola uma mecha do cabelo loiro no dedo, eu concordo com a cabeça e ela abre um sorriso. A jaqueta dela sumiu, revelando um cropped preto que gruda no peito. Deve ser bom ter peitões, e não os dois pontinhos que Deus colou no meu peito como quem lembrou por último. Eu paro de prestar atenção nela enquanto ela continua tagarelando sobre o último clipe do canal dela no YouTube.
Dos cinco irmãos, ela é a que canta melhor, e o sonho dela é um dia se apresentar com a Shakira. Eu super apoio a minha melhor amiga — poxa, eu fui a primeira inscrita —, mas eu preciso de uns minutos de paz e silêncio. Apertando os dedos nas têmporas, eu solto um suspiro. A cantina foi uma má ideia; a biblioteca é melhor. Eu me levanto num pulo, pronta pra sair, quando as portas da cantina se escancaram. Eu afundo de volta no banco, porque a atenção de todo mundo se vira pro grupo que entra andando, e meus olhos encontram o Ben na hora.
Ben, o que para o show. E ele nem se esforça.
Eles param no meio da cantina como se estivessem dando à gente a chance de admirar direito, mas a única pessoa que me interessa é o Ben. O gostosão alto, com um sorriso atrevido. O meu sorriso some quando o braço dele envolve a cintura da Olivia; ele deve ter percebido que eu estava encarando, porque dá um beijo estalado na bochecha dela.
Eles estão namorando agora? Quem liga? Eu espeto o sanduíche no prato, meu coração aperta e eu enfio as unhas no jeans. Talvez eu ligue, mesmo que seja só um pouco. Meus olhos seguem os dois quando eles se jogam num banco vazio. A Olivia se acomoda no colo do Ben, com as mãos bonitinhas ao redor do pescoço dele, enquanto as mãos dele param na cintura dela, e aquele aperto no meu peito volta de novo. Ele deve estar sem opção nenhuma — ou não tem o menor gosto pra garota.
A Maria toca em mim, mas eu não consigo desviar os olhos do casal. Eles combinam.
— Eles tão namorando? — ela pergunta.
O Ben não namora; eu estudo nessa escola há tempo suficiente pra saber disso. E se a Olivia tiver manipulado ele? Os olhos dele encontram os meus por cima do ombro da Olivia. Eu travo, com as bochechas pegando fogo, vermelhas, quando ele pisca pra mim de um jeito sutil.
