Capítulo 4
Eu odeio aglomeração, então por que eu tô aqui? Num bar com barulho e mais barulho, batidas merdas em nome da música. A Maria desliza um copo de Coca bem gelada pra mim; eu faço careta e dou um gole, enquanto ela engole, com uma careta ainda pior, o conteúdo esquisito do copinho de shot dela. Sorte a dela. Eu preciso estar com a cabeça limpa e a mente afiada pra luta de amanhã.
Em menos de um ano, nós duas vamos fazer dezoito e vamos poder beber e curtir do jeito certo. Eu estreito os olhos pras luzes fortes e coloridas girando sobre a pequena multidão na pista, e balanço a cabeça no ritmo. Mesmo com nossas identidades falsas dando entrada em alguns lugares, álcool é fora de cogitação. Pra zoar, a gente pede pra servirem nossos refrigerantes em copinhos de shot e finge que é a margarita divina de que a gente tanto ouviu falar.
Só que hoje a Maria deu sorte. Ela provou margarita de verdade pela primeira vez.
— Ryan Raynoldz, pega ou passa? — ela pergunta, virando o copinho de shot pra catar a última gota do coquetel.
Eu finjo ânsia de vômito. O cara pode até ser bonito, mas eu não pegaria nem a pau. — Passo. Ele é mais velho que você. Mais velho que nós duas.
— Ele nem é tão velho assim. — Tanto faz. Eu não tô nem aí pra pegar ele. Ela joga uma mecha de cabelo pra trás da orelha, exibindo uma argola que é definitivamente minha. — Tá, e o Zic Effon?
Eu cruzo os braços no pescoço e finjo que tô me estrangulando.
— Estraga-prazeres.
Ei, eu não sou a pessoa que quer ficar falando de menino. Apontando pro copinho vazio, ela arrota e murmura:
— Não tem esse gosto todo que dizem.
Ela dá uma risadinha; eu chuto o pé do banquinho dela e ela me lança um olhar atravessado que some assim que o DJ começa outra música. Meu corpo acompanha a batida; eu estalo os dedos, cantando junto com um som do Coldplay. A Maria olha pra pista com vontade, mas fica ali sentada. Eu danço mal, mas ela não. Ser ótima dançarina deve vir junto com o talento dela pra cantar, porque ela faz os dois com uma facilidade absurda. Os corpos se esfregam na pista; o barman atende outros clientes por um tempo e, depois, a gente volta a ficar meio sozinha no balcão.
A Maria se encosta em mim, a cabeça no meu ombro, e eu dou uns tapinhas no braço dela.
— Relaxa, você vai arrebentar.
Ela levanta a cabeça pra me encarar como se eu tivesse dito um absurdo; eu dou de ombros e ela volta pra mesma posição.
Depois de todos os riscos que a gente correu pra estar aqui, ela precisa mandar muito bem na abertura, senão vamos ficar de castigo pra sempre. Pros nossos pais, ela tá na minha casa e eu tô na dela. O que eles não sabem é que as filhas queridas deles estão num bar, esperando o gerente dar o sinal. Ele prometeu deixar a Maria abrir pro novo grupo que vai tocar. Eu não faço ideia de por que eles estão atrasados, mas não tem outra opção além de esperar.
A música muda, a Maria grita, quase cai do banco quando começa a música da Shakira — Time for Africa. Ela é obcecada por aquela mulher. O vestido com aparência de bandagem sobe um pouco quando ela começa a girar a cintura; eu viro o “animador” dela, batendo palma e incentivando ela a mexer aquele corpo sexy. Meu celular apita no bolso; eu ignoro. Desde que aquele vídeo foi postado, choveu mensagem. Também teve gente me elogiando.
Tipo: mandou bem. Parabéns por bater nela. Eu sei que tem alunos em BH que odeiam ela; e como não odiar? Ela é nojenta. Mas eu não quero ser heroína de ninguém. Eu devo ter ficado com uma cara péssima, porque a Maria desaba de volta no banco, com a testa franzida. Ela põe a mão no meu joelho, meu celular vibra de novo e ela puxa do meu bolso.
— Eu te falei que seus cinco minutos de fama iam acabar logo — ela diz.
Ué, do que ela tá falando? Já faz mais de cinco horas e eu ainda tô recebendo mensagem. Meu celular fica pendurado entre os dedos dela; eu arranco da mão dela e minhas sobrancelhas quase somem dentro do cabelo quando eu vejo a postagem nova.
“Todo mundo tá falando do beijo no refeitório.” Um vídeo do Ben beijando as bochechas da Olivia fica repetindo, que nem disco riscado. Nem é um beijo de verdade; é só um selinho torto.
— Achei que a Olivia não ficava mais com gente do colégio. O que ela tá fazendo com o Ben?
Eu não sei — e me obrigo a não ligar. Desde aquele término, ela não saiu com mais ninguém da nossa escola. Ela se acha acima disso e prefere pegar caras da faculdade. Ótimo pras outras meninas que vivem babando nos atletas.
—Ela pode ter mudado de ideia —eu digo quando vejo que a Maria ainda está esperando minha resposta. —O Ben tá bem.
—Ah, tá sim. Tá mais do que bem. —Apoiada no balcão, com os cotovelos, ela solta um suspiro sonhador. —Ele é um gato. Eu também mudava de ideia se ele me chamasse pra sair.
Só que ele não chamou a Olivia pra sair; ela deve ter se jogado em cima dele. A Maria ainda está de cara feia, então cutuco ela com o joelho —se ela quiser, consegue qualquer garoto da escola. O celular vibra dentro da bolsa; ela pega e faz uma careta.
—O Daniel não vem. Idiota.
Daniel Holt é nosso amigo, o último do nosso grupinho: alto, cabelo cacheado e olhos verdes. A Maria tem uma queda enorme por ele desde sempre, do mesmo jeito que eu tenho... pelo Ben. Pera. Isso não saiu de mim. Eu não tenho queda pelo Ben; ele é gato, só isso. Enfim, ela é a fim do Daniel, mas não fala nada, e o Daniel não percebe. O garoto mal aparece na escola; como é que ele vai saber? No fundo, eu fico até aliviada de eles não estarem juntos, porque eu não quero ficar sobrando, e muito menos assistir os dois se beijando como se não existisse mais ninguém.
Eu estou prestes a tranquilizar ela quando o celular toca. Ela faz bico para alguma coisa que a voz do outro lado diz, resmunga um “tá” baixinho e a ligação acaba. Sentando mais ereta, ela alisa o vestido e pega a bolsa.
—Tá na hora.
Ela é quem vai se apresentar, mas minhas pernas tremem quando eu me levanto e aperto ela num abraço.
—Boa sorte.
O sorriso dela treme. As camadas de maquiagem —olho esfumado, batom vermelho— não escondem o nervosismo. Ela anda alguns passos e para. Olhando por cima do ombro, ela diz:
—Vê se pega meu lado bom.
Eu mostro o dedo do meio pra ela, mas a Maria já sumiu de vista. A gente já conversou sobre isso. Eu não quero ficar no meio de um monte de gente suada levantando celular pra fazer um vídeo que nunca vai parar no canal dela no YouTube. No fim, ainda vou levar bronca por causa das minhas fotos horríveis. Vamos combinar: eu sou péssima com câmera.
A multidão se cala quando a Maria sobe no palco. Eu encaro, de mau humor, o pessoal da área VIP: eles veem tudo de pertinho; eles que façam o vídeo. Minha determinação amolece com o sorriso da Maria. Droga. Por que eu tenho o coração tão mole? Me conhecendo, em segundos eu vou estar lá, tentando pegar o melhor ângulo enquanto ela canta com a alma.
Eu me levanto do meu lugar, mas um pesadelo ambulante me impede de dar um passo.
Olivia.
Como é que ela sempre sabe onde me achar?
E ela não está sozinha. O Nate está com um braço em volta da cintura dela; ela está grudada nele, e eu quase fico com pena do Ben. A namorada dele está traindo ele poucas horas depois daquele showzinho de beijos. Eu enfio as mãos nos bolsos; o Nate ri, e eu lembro o que mais chama atenção nele. Ela traiu ele com o Nate. Meu sangue ferve com a lembrança distante. Eu forço um sorriso e peço licença, ando só um pouco quando um líquido gelado escorre pelo meu couro cabeludo até a minha blusa.
A Olivia para na minha frente com meu copo vazio de coca na mão, um sorrisinho de vitória nos lábios. Eu tenho vontade de enforcar ela ou de estapear um pouco de juízo na cabeça dela, mas não faço.
O Nate para ao lado dela. A Olivia bate o copo no balcão e aparece uma rachadura. Eu dou uma risada de desprezo quando ela chega mais perto pra se exibir, e eu relaxo o punho fechado quando o Nate assume uma postura protetora atrás dela.
A desgraçada nem consegue brigar sozinha. Por que mais ela viria com o Nate? A voz da Maria enche o pub, tão angelical e suave que dá vontade de gritar que ela é minha melhor amiga. A culpa aperta meu estômago; eu devia estar registrando esse momento. A Olivia bufa quando não consegue arrancar reação nenhuma de mim, passa um braço pela cintura do Nate, e os dois somem do meu campo de visão.
Eu puxo outro fôlego. Esta noite é da Maria. Eu não vou fazer cena, não vou estragar tudo. Me vingar da Olivia só vai virar uma troca infinita de pegadinhas sujas —e eu não quero isso.
Eu dei um tapa nela; ela jogou uma bebida em mim. Agora estamos quites.
