Destino?
15 anos atrás
Giulia De Angelis
Não consigo dormir, os sons do trovão no escuro do quarto junto ao frio fazem minhas pequenas mãos tremerem de medo. Mesmo sabendo que não deveria, levanto-me devagar, acendendo o abajur ao meu lado no mesmo momento em que um relâmpago corta o céu, iluminando a janela do quarto. O desespero sobe pela minha espinha junto com a vontade de correr chorando para o quarto dos meus pais.
Procuro força nas minhas pernas fracas, lembrando minha mãe dizendo que sou uma mocinha, então respiro fundo, saio da cama e coloco meus chinelos de gatinho. Rezo para que eles não fiquem chateados por eu bater na porta do quarto a essa hora. O som de outro trovão ressoa, fazendo minhas pernas ficarem bambas.
Corro até a porta, abro-a e olho pelo corredor. No final, a luz do quarto dos meus pais está acesa.
Suspiro de felicidade, sabendo que eles devem estar esperando. Tento focar minha atenção nos passos rápidos, ignorando os flashes de relâmpagos contra as janelas de vidro. Incapaz de manter a calma como papai ensinou, sinto o desespero invadindo meu peito. Perto da porta entreaberta, assustada, ouço a voz dos meus irmãos, alarmada por estarem fora de seus quartos. Com medo das piadas chatas de Vincenzo, decido ficar encostada na parede, sem entender nada, apenas ouvindo.
Tem que parecer um acidente, Vincenzo - ouvi a voz do meu irmão mais velho.
Não se preocupe com isso, mas e a garota?
Ela vai nos servir bem.
Ouvi o som de passos e, paralisada pelo medo de receber uma bronca dos dois, fiquei debaixo de um aparador. Giovanni sempre deixa claro que devo seguir os horários, falando sobre as obrigações de uma menina da minha idade. Esperei ouvir os passos na escada para sair debaixo do aparador, puxando a pesada porta de madeira. Entrei no quarto escuro com um sentimento diferente, tomando meus pensamentos como um presságio. Quando não encontrei ninguém, subi na cama dos meus pais, desejando que voltassem logo para me proteger da tempestade.
Puxo o edredom, querendo sentir o calor e o cheiro reconfortante familiar, enxugando as lágrimas enquanto abraço o travesseiro. Todo pesadelo acaba, pelo menos era o que eu pensava. A inocência no momento sendo um presente que logo se tornaria uma memória no passado distante, as dores só crescem e neste inferno apenas uma rainha sobrevive.
Eles não voltaram, esse foi o começo do meu inferno.
Giacomo
Enquanto caminho pelo cemitério da família, observando as pessoas prestarem suas homenagens aos dois homens de terno ao lado da lápide, eu daria um rim pelo prazer de socar a cara arrogante de Vincenzo De Angelis. Passo por mais algumas filas de lápides, chegando ao lugar onde costumo ir quando preciso pensar.
Antonio Costello - Honrado
Donatella Costello - Amada mãe e esposa adorada.
As lápides úmidas da estação chuvosa, bem cuidadas com o gramado aparado, aperto os punhos com força, sentindo falta dos dias em que voltava para casa ao lado do meu pai, determinado a ter um bom jantar em família servido pela bela mulher de longos cabelos loiros.
O som de um choro suave chama minha atenção para uma das poucas árvores ainda de pé no terreno, um grande carvalho envelhecido. À distância, consigo ver uma mancha de pele pálida contra a madeira da árvore.
Mudo a direção dos meus pensamentos com a curiosidade inoportuna de descobrir quem está escondido. Olho por cima do ombro, confirmando a fila interminável de associados bajulando o novo nome mais importante dentro da máfia, com seu cachorro de estimação ao lado fingindo dor com a perda.
O clima fúnebre não é estranho, o vento frio levanta algumas folhas caídas, apesar do céu claro naquele momento. O anúncio da tempestade espreita pelos cantos como a escuridão no meu peito, escondida pelo falso ar de negócios, aristocrático e pacífico. Atrás da árvore, o som do choro é mais alto, fazendo minhas pernas tremerem com o desejo de querer consolar. Contorno o carvalho, deparando-me com um pequeno anjo de longos cabelos loiros cobrindo o rosto com suas pequenas mãos.
Percebendo que não está mais sozinho, ele levanta a cabeça, abafando todos os pensamentos macabros da minha mente com seus olhos azuis brilhando entre lágrimas e tristeza estampada nas bochechas vermelhas. Sem mostrar medo por ter um monstro à sua frente, piscando várias vezes sob os cílios perfeitos, enxuga as bochechas. Ela deve ser um pouco mais velha que minhas irmãs. Sinto uma vontade horrível de colocá-la em uma redoma de vidro como uma rosa perfeita.
Quem é você? - A voz saiu trêmula.
Você não deveria estar aqui sozinha, menina. - Respondo calmamente.
Sentindo um certo desespero por não saber há quanto tempo a menina está aqui sozinha correndo riscos, aproveito o momento para me sentar na frente dela, encostando minha cabeça em seu ombro, querendo observar um pouco mais o pedaço de paraíso caído na terra.
Pequenas mãos tremem enquanto ela tenta segurar as lágrimas, o longo vestido preto deixando claro que ela perdeu alguém, olhos azuis roubando toda a beleza da tempestade que se aproxima.
Estou sozinha.
Abro meus braços diante do sussurro doloroso em uma atitude impensada, a menina se joga em meus braços, fazendo minha mente explodir com a sensação de pertencimento. Sinto o doce cheiro preso em seus cabelos, querendo confortar sua dor enquanto sinto meu coração bater forte, querendo mantê-la segura.
Perco a noção do tempo acariciando os fios loiros enquanto suas lágrimas caem incontrolavelmente novamente, a sensação de impotência subindo pela minha espinha. Então, abraço o pequeno anjo com força, querendo transmitir algum conforto, com a necessidade de tomar sua dor para mim.
Você nunca estará sozinha, criança, você me tem. - Digo com sinceridade, sem entender as palavras que saem da minha própria boca.
Os olhos se levantam do meu peito exibindo um belo brilho no fundo das íris junto com um pequeno sorriso iluminando a escuridão sob minha pele. Afastei minhas mãos de suas costas, sentindo que queimam como punição por tocar um ser tão angelical. Levanto minhas mãos, puxando o pequeno cordão e removendo a pequena medalha que herdei, escondida sob o terno, colocando-a ao redor de seu pescoço delicado, sendo agraciado com um sorriso que se alarga, deixando seu rosto avermelhado como uma escultura.
Quando você se sentir triste, lembre-se de que tem um pedaço de mim com você.
Em muitos anos, finalmente senti um sorriso verdadeiro no meu rosto. Ao admirar o olhar agradecido, levantei-me do chão, estendendo minha mão para a pequena, que me abraçou com força, suspirando e abrindo um sorriso enquanto corria. Admirei os passos apressados com o peito apertado, a raiva voltou como uma bola de destruição quando ela se aproximou dos irmãos De Angelis. Absorvido pela visão aterrorizante do pequeno anjo tão perto dos demônios, nem percebi a aproximação do soldado.
Ela será um bom negócio. - Ignorei a voz de Giuseppe.
Atordoado pelas sensações que a menina despertou ao mesmo tempo em que a fúria surge em minhas veias, querendo arrancá-la dos desgraçados, misturando-se com a realidade, o pecado de sequer pensar em manter um anjo assim comigo.
É só uma menina.
Respondi sabendo que o mais fiel e eficiente dos meus soldados não se afastaria. Desde que fui iniciado, meu pai colocou Giuseppe na minha segurança, tornando-se um bom amigo e conselheiro, além de soldado.
Meninas crescem e se tornam mulheres. - Virei-me para olhar a expressão estoica esculpida em seu rosto.
Ela faz parte da nata da família e nunca estaria aos pés daquele anjo.
A raiva se misturou com as sombras que se contorcem pelo peito, atravessando o estômago com um gosto amargo de derrota, o fel crescendo com mais um pecado se construindo no que ainda resta da minha alma. Seria realmente o fim dos tempos se aquele anjo estivesse perto o suficiente para ser corrompido pelos meus desejos. Balancei a cabeça, afastando os pensamentos tortos.
Como eu disse, elas crescem e se tornam mulheres, tempo suficiente para estar aos seus pés.
Ele passou pela frente com um sorriso torto, acenando na direção dos homens que deveríamos cumprimentar em respeito, ventilando os cenários pela minha cabeça, fazendo as palavras ecoarem e colidirem com as memórias do inferno que vivo e amo comandar como um maestro. Senti a necessidade de derramar sangue envolvendo pensamentos, mesmo antes de terminar de cumprimentar a família enlutada, controlando todas as minhas emoções dentro de uma caixa na mente para não matar os únicos parentes da pequena de olhos brilhantes, colocando distância o mais rápido possível para não ser seu carrasco. Às vezes, mudanças nos são impostas como algo aterrorizante, o que é cômico quando o ser humano pode se adaptar às piores formas de vida degradante sem se importar com a destruição ao longo do caminho. As mudanças apenas trouxeram à tona quem eu sou hoje e, mesmo que tenha sido abençoado com a visão do paraíso, isso não é suficiente para trazer qualquer mudança sob as grandes camadas que moldaram o desgraçado que sou.
O que acontece quando a morte e o amor se abraçam?
O que acontece se aquele anjo se deparar com o diabo que existe sob este terno?
De todos os meus pecados e o pior deles, eu nunca seria capaz de corromper aquele pequeno anjo, mesmo que fosse minha redenção. Seria um pecado imperdoável arrancar o brilho daqueles olhos expressivos tatuados pela minha mente doentia.
