Capítulo 5 A MADRASTA QUE EU ESCOLHERIA

Letícia narrando

Maratona 1/3

Minha vida só é mais leve hoje porque tenho a Larissa ao meu lado.

Ela é três anos mais velha do que eu, mas, às vezes, parece ter nascido com aquele instinto de cuidar das pessoas que ama. Lari percebe quando estou triste, quando preciso conversar e até quando digo que está tudo bem, mas minha expressão entrega exatamente o contrário.

Ela me conhece como poucas pessoas.

E, sinceramente, é tudo aquilo que eu gostaria que minha mãe fosse comigo.

Não gosto de falar mal da minha própria mãe, mas também não vou fingir que nossa relação é maravilhosa quando está longe disso. Laura parece carregar uma frustração enorme com a própria vida e, em muitos momentos, acaba descontando tudo em mim.

Não sei se é porque nunca aceitou completamente a separação do meu pai ou se existem outras coisas que ela guarda e não consegue resolver. Só sei que não é justo me tratar com tanta frieza.

Eu sou filha dela. Nunca pedi para fazer parte dos problemas que existiram entre meus pais e muito menos tenho culpa das escolhas que cada um fez.

O que mais dói é perceber que, mesmo depois de tantos anos, ela ainda não entendeu isso.

Tenho muita pena do meu irmão, Henrique. Ele tem apenas cinco anos e, apesar da pouca idade, já percebe quando não recebe a atenção de que precisa. Criança pode até não entender todos os problemas dos adultos, mas sente quando falta carinho.

E isso me parte o coração.

Meu pai, por outro lado, sempre foi incrível comigo. Nunca deixou faltar nada, nem para o Henrique, mesmo ele não sendo seu filho biológico. Meu pai nunca fez distinção entre nós quando se tratava de cuidado e responsabilidade.

Por isso, tenho tanto orgulho dele.

Talvez seja justamente por conhecer o coração do meu pai que eu fique tão incomodada com a maneira como minha mãe age. Ele nunca precisou diminuir ninguém para mostrar seu valor, enquanto ela parece acreditar que precisa transformar tudo em uma disputa.

Ainda bem que tenho meu cantinho de paz.

O salão.

Ali, além de trabalhar, aprendo todos os dias e tenho pessoas que me fazem bem. A Larissa me ensinou muita coisa, confiou em mim e me deu a oportunidade de conquistar meu próprio dinheiro.

Não me trata como uma menina incapaz, mas também não deixa de me orientar quando percebe que estou prestes a fazer alguma besteira.

É uma mistura de amiga, irmã mais velha e conselheira sentimental, embora ela provavelmente me mandasse calar a boca se me ouvisse dizer isso.

Nosso trio ternura é formado por mim, pela Lari e pelo nosso bi maravilhoso, Cauã.

Aquele homem nasceu para espalhar alegria. Está sempre fazendo piadas, inventando apelidos e implicando com todo mundo. Se o salão já é movimentado normalmente, com ele por perto vira praticamente um programa de comédia.

Naquela manhã, o estabelecimento estava cheio, como sempre. Havia clientes esperando atendimento, o telefone tocava sem parar e Cauã estava contando uma história tão absurda que eu já nem sabia se acreditava nele ou se ria apenas pela maneira como gesticulava.

— Amiga, eu estou falando sério! — ele insistiu, colocando a mão no peito.

— Cauã, você começou dizendo que foi comprar pão e terminou contando que quase virou padrinho de casamento de um desconhecido. Como é que eu vou acreditar? — perguntei, rindo.

— A vida é cheia de surpresas, minha filha!

Larissa, que organizava alguns materiais na bancada, balançou a cabeça.

— Vocês dois juntos acabam com a minha paz.

— Sua paz já nasceu comprometida, querida — Cauã respondeu. — Você escolheu trabalhar com duas pessoas maravilhosas e precisa aceitar as consequências.

— Maravilhosas? Uma não para de falar, e a outra não para de inventar história.

— Está falando de quem? — perguntei, fingindo indignação.

— Dos dois!

Nós três caímos na gargalhada.

Era um daqueles momentos simples que faziam meu dia valer a pena. Eu gostava de estar ali, de sentir que fazia parte de alguma coisa e de saber que, independentemente dos problemas que me esperavam em casa, existia um lugar onde eu podia respirar.

Mas minha tranquilidade durou pouco.

A porta do salão se abriu com força, chamando a atenção de quem estava na recepção.

Quando olhei para a entrada, senti meu sorriso desaparecer.

Minha mãe.

Laura entrou com aquela expressão fechada que eu conhecia desde criança. Seus olhos percorreram o ambiente até pararem em mim, e eu já consegui imaginar que não tinha vindo para fazer uma visita agradável.

Respirei fundo.

Por favor, meu Deus, me dê paciência.

— Tem casa, mas não fica em casa, Letícia? — ela disparou, sem sequer cumprimentar ninguém. — Só vive enfiada atrás dessa daí!

Fechei os olhos por um instante.

Lá vinha.

— Mãe, não começa, por favor. Estou trabalhando.

— Trabalhando? — ela perguntou, soltando uma risada sem humor. — Você tem uma casa para ficar, mas prefere passar o dia inteiro aqui.

— Eu gosto de trabalhar aqui. Qual é o problema?

Ela virou o rosto na direção de Larissa.

— O problema é que essa garota não me desce. Deve ser sua amiguinha só para conseguir sentar no colo do seu pai!

Por alguns segundos, fiquei sem reação.

Senti o rosto esquentar de vergonha e indignação. Não era a primeira vez que minha mãe fazia insinuações daquele tipo, mas isso não tornava a situação menos desagradável.

Olhei para ela, incrédula.

— Pelo amor de Deus, mãe! Escuta o que você está falando!

Cauã, que até então permanecia quieto, abandonou a expressão divertida. Ele conhecia Larissa e sabia o quanto ela trabalhava para conquistar suas coisas. Ouvir uma acusação tão injusta era revoltante.

Minha mãe, porém, parecia determinada a continuar.

— Eu não sou burra, Letícia. Sei muito bem como essas mulheres são.

Antes que eu pudesse responder, Larissa se aproximou.

Ela não levantou a voz, não fez escândalo e nem precisou mudar a expressão para mostrar que tinha chegado ao limite.

— Laura, deixa eu te explicar uma coisa — começou, com uma calma que me surpreendeu. — Eu não preciso me aproximar de ninguém por interesse. Trabalho para conquistar minhas coisas e não dependo do seu ex-marido para viver.

Minha mãe abriu a boca, mas Larissa continuou:

— Se um dia eu me interessar por alguém, não vou precisar esconder nem inventar desculpas. Sou adulta, sei tomar minhas decisões e não devo satisfação da minha vida pessoal a você. Mas existe uma diferença entre não gostar de mim e me desrespeitar dentro do meu próprio local de trabalho.

Fiquei olhando para ela, admirada.

Era exatamente por isso que eu a amava tanto.

Larissa não precisava humilhar ninguém para se defender. Ela sabia colocar limites e não permitia que as pessoas ultrapassassem aquela linha.

— Espero que seja a última vez que você fala de mim dessa maneira — concluiu. — Não te dei liberdade para me tratar assim.

O rosto da minha mãe ficou vermelho de raiva.

Ela olhou para mim, depois para Larissa, como se esperasse que alguém recuasse ou pedisse desculpas.

Ninguém fez isso.

Então, soltou um resmungo, virou as costas e saiu batendo a porta.

O barulho ecoou pelo salão.

Por alguns segundos, ninguém disse nada.

Eu estava tão acostumada com as discussões em casa que, mesmo quando alguém me defendia, ainda sentia aquele aperto no peito. Era como se uma parte de mim continuasse esperando que a culpa recaísse sobre meus ombros.

Larissa percebeu.

Ela se aproximou e colocou a mão no meu braço.

— Ei, não fica chateada, tá? Você não fez nada de errado.

Engoli em seco.

— Desculpa por isso. Ela não precisava ter vindo aqui fazer esse escândalo.

— Você não tem que pedir desculpas pelo comportamento de outra pessoa.

Seus olhos encontraram os meus, e ela sorriu de leve.

— E fica tranquila. Eu te protejo.

Pronto.

Era só isso que eu precisava ouvir.

Senti um nó na garganta, mas tentei disfarçar com uma brincadeira.

— Obrigada, amiga. Você daria uma ótima madrasta.

Larissa arregalou os olhos.

— Menina, você é ridícula, né? Tem trabalho para fazer ou veio aqui apenas para me arrumar confusão?

Comecei a rir.

— Estou falando sério! Você já cuida de mim melhor do que muita mãe por aí.

— Letícia!

— Ué, é verdade!

Cauã colocou a mão no peito, fingindo estar emocionado.

— Eu apoio esse projeto de família! Já estou imaginando a festa de casamento, a decoração...

— Cauã, cala a boca! — Larissa e eu falamos ao mesmo tempo.

Ele caiu na gargalhada.

— Está vendo? Vocês já estão combinando até as respostas. Isso é um sinal!

Larissa pegou uma toalhinha e ameaçou jogar nele, fazendo com que ele recuasse entre risadas.

Aos poucos, o salão voltou à rotina. As clientes precisavam ser atendidas, os horários continuavam marcados e ninguém podia ficar parado por muito tempo.

Retomei meu serviço, tentando deixar o episódio para trás.

Mas, enquanto trabalhava, uma ideia insistia em permanecer na minha cabeça.

Larissa como namorada do meu pai.

A imagem apareceu de repente, e eu quase sorri sozinha.

Pensei na maneira como ela me acolhia, na coragem com que enfrentava minha mãe e na forma como tratava meu irmão, mesmo sem conhecê-lo tão profundamente quanto eu.

Ela tinha um coração enorme.

E meu pai merecia alguém assim.

Depois de tudo o que enfrentou, eu queria vê-lo feliz ao lado de uma mulher que o respeitasse, que tivesse seus próprios sonhos e que não estivesse interessada apenas no que ele podia oferecer.

Larissa parecia se encaixar nessa descrição.

Claro que eu não sabia se ela sequer olharia para ele com interesse. Até aquele momento, nunca tinha percebido qualquer sinal de que minha amiga desejasse alguma coisa com meu pai.

Mas pensar na possibilidade me deixava feliz.

Imaginei os dois conversando, trocando provocações e tentando esconder o interesse um pelo outro. Meu pai era sério quando precisava, mas também tinha um lado brincalhão que aparecia quando estava à vontade. Larissa, por sua vez, não levava desaforo para casa e jamais deixaria que ele tivesse a última palavra em todas as discussões.

Seria engraçado assistir àquilo.

Muito engraçado.

Talvez eu estivesse me precipitando. Talvez fosse apenas uma fantasia boba de uma filha que queria ver o pai feliz.

Mesmo assim, não consegui evitar o sorriso.

— Está rindo de quê, menina? — Cauã perguntou, passando ao meu lado.

— De nada.

Ele estreitou os olhos.

— Conheço essa cara. Você está aprontando alguma coisa.

— Estou trabalhando, Cauã!

— Sei. E eu sou uma pessoa discreta.

Revirei os olhos e voltei a me concentrar na cliente.

Por enquanto, guardaria aquela ideia só para mim.

Não pretendia me meter na vida amorosa do meu pai nem pressionar Larissa a nada. Gostava demais dos dois para transformar uma possibilidade em motivo de constrangimento.

Se algum dia acontecesse alguma coisa entre eles, eu ficaria feliz.

Se não acontecesse, continuaria amando os dois da mesma maneira.

Mas, enquanto organizava meus materiais e ouvia Cauã começar outra de suas histórias absurdas, fiz uma pequena promessa silenciosa.

Se o destino resolvesse aproximar meu pai da mulher que eu tanto admirava, eu não seria um obstáculo.

Pelo contrário.

Talvez, pela primeira vez em muito tempo, eu pudesse imaginar uma família em que ninguém precisasse disputar carinho, em que meu irmão fosse protegido e em que eu pudesse visitar meu pai sem receio de encontrar uma nova confusão.

Uma família com mais tranquilidade, respeito e amor.

Eu não sabia se aquilo um dia se tornaria realidade.

Mas sonhar não custava nada.

E, naquele momento, a simples possibilidade já era suficiente para deixar meu coração um pouco mais leve.

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