Capítulo 8 NÃO ME CONFUNDA COM VOCE

Larissa narrando

Cheguei à casa de Crack já procurando minha pequena.

Minha princesa estava completando dezoito anos, e eu queria aproveitar cada segundo daquela comemoração ao lado dela. Letícia tinha se tornado muito mais do que uma amiga. Era minha irmã de coração, uma pessoa que a vida colocou no meu caminho e que eu pretendia levar comigo por muitos e muitos anos.

Quando a encontrei perto da piscina, abri um sorriso enorme.

— Vem cá, minha aniversariante!

Ela veio ao meu encontro e me abraçou apertado.

— Lari! Você chegou!

— Claro que cheguei, menina! Você achou mesmo que eu perderia essa festa?

Ela riu, e eu segurei suas mãos.

— Escuta, princesa. Espero que a gente ainda comemore muitas datas juntas, viu? Quero estar presente nos seus aniversários, nas suas conquistas e em todos os momentos importantes da sua vida. Você sabe que eu te amo como se fosse minha filha, minha irmã mais nova. E, enquanto você me permitir, vou continuar cuidando de você e te protegendo.

Os olhos dela começaram a brilhar.

— Lari...

— Calma, que ainda não terminei!

Peguei o presente que havia levado e entreguei a ela.

— Toma. É seu!

Letícia abriu o embrulho com cuidado. Assim que viu o que havia dentro, levou as mãos à boca, completamente surpresa.

— Ai, meu Deus! É lindo!

Ela segurou o presente, admirando cada detalhe.

— Eu estava doida atrás de uma dessas!

Sorri, satisfeita por ter acertado na escolha.

— Sabia que você ia gostar.

Ela me abraçou novamente, dessa vez com ainda mais força.

— Obrigada por tudo, Lari. Principalmente por estar na minha vida. Eu te amo muito!

Apertei minha menina contra mim e beijei sua testa.

— Não chora, princesa. Eu sempre vou estar aqui, ouviu? E sou eu quem agradece por ter você na minha vida. Também te amo muito!

Não era apenas uma frase bonita. Eu realmente sentia aquilo.

Depois de tudo o que perdi, aprendi a valorizar as pessoas que permaneciam ao meu lado. Letícia era uma delas. Eu não precisava ter o mesmo sangue para considerá-la família, muito menos precisava de um documento para saber que estaria presente quando ela precisasse.

A vida já tinha me ensinado que família também era feita de escolha, cuidado e amor.

E eu escolhia aquela menina todos os dias.

— Agora chega de chorar! — falei, afastando-me para olhar seu rosto. — Hoje é dia de comemorar. Quero ver essa piscina cheia, esse churrasco acabando e você aproveitando cada segundo!

Letícia enxugou as lágrimas e abriu um sorriso.

— Você é a melhor!

— Eu sei, amor. Mas pode repetir, porque gosto de ouvir!

Ela caiu na gargalhada.

E assim começou nossa tarde.

Dançamos, tiramos fotografias, fizemos vídeos ridículos e comemos como se não existisse amanhã. Minha dieta, coitada, foi enterrada junto com qualquer esperança de manter a alimentação equilibrada naquele dia.

O churrasco estava maravilhoso, a música não parava e Cauã parecia ter tomado umas três doses de energia antes de chegar.

— Gente, eu preciso declarar oficialmente que essa é a melhor festa do ano! — anunciou, dançando no meio da área da piscina.

— Você fala isso em todas as festas! — Letícia gritou.

— Porque todas as festas em que eu estou se tornam históricas!

— Histórico vai ser o tombo que você vai levar se continuar dançando desse jeito — provoquei.

Cauã colocou a mão no peito, fingindo indignação.

— Larissa, você está destruindo minha autoestima!

— Estou tentando salvar a reputação da dança brasileira!

Nós três caímos na gargalhada.

Era impossível ficar triste perto daqueles dois. Cauã tinha o dom de transformar qualquer situação em uma palhaçada, e Letícia estava tão feliz que parecia ter deixado todos os problemas para trás.

Por algumas horas, ela pôde ser apenas uma garota comemorando seus dezoito anos, cercada por pessoas que queriam vê-la sorrir.

E era exatamente assim que deveria ser.

Depois de dançar até minhas pernas pedirem socorro e comer mais do que gostaria de admitir, finalmente me acomodei perto da piscina.

O movimento foi diminuindo aos poucos. Os convidados começaram a se despedir, levando consigo as últimas risadas e as fotografias daquele dia.

Quando percebi, só restávamos nós três.

O trio ternura, como Cauã gostava de nos chamar.

Eu estava conversando com Letícia quando Crack apareceu e se sentou bem ao meu lado.

Meu coração, aquele traidor, resolveu prestar atenção imediatamente.

Permaneci olhando para a piscina, fingindo que a presença dele não tinha mudado absolutamente nada.

Mas eu sentia sua proximidade.

Sentia quando ele se movimentava no sofá, quando apoiava o braço no encosto e quando virava o rosto na minha direção.

Não precisava olhar para saber que estava ali.

O pior era que Letícia e Cauã perceberam.

Os dois trocaram um olhar tão descarado que tive vontade de jogar ambos na piscina.

— Vocês estão olhando o quê? — perguntei, estreitando os olhos.

— Nada! — responderam juntos.

Ah, claro.

Eu tinha nascido ontem!

— Vocês não valem nada.

Cauã começou a rir.

— Amiga, eu não posso nem olhar para você agora?

— Pode. Desde que olhe com respeito e pare de inventar história nessa cabeça cheia de vento.

— Nossa! Está nervosa por quê?

— Cauã!

— Tá bom, parei!

Ele levantou as mãos, mas o sorriso continuou estampado no rosto.

Crack soltou uma risada baixa ao meu lado.

Olhei de relance para ele.

Bonito.

Infelizmente, bonito demais.

— Está rindo de quê? — perguntei.

Ele ergueu as sobrancelhas.

— De nada, Larissa.

— Sei.

— Você é sempre desconfiada assim?

— Só quando tem gente demais interessada na minha vida.

Ele sorriu, e eu desviei o olhar antes que percebesse o efeito que aquela expressão tinha sobre mim.

A conversa continuou leve. Cauã contou mais algumas histórias absurdas, Letícia fez questão de desmentir metade delas, e eu ri tanto que minha barriga começou a doer.

Por alguns minutos, esqueci que estava sentada ao lado do pai da minha amiga e simplesmente aproveitei a companhia.

Até que ouvimos palmas vindas da entrada.

Depois, uma gritaria.

O ambiente mudou imediatamente.

Virei o rosto e senti meu estômago se contrair.

Laura.

Ela estava na entrada, com uma expressão furiosa e os olhos fixos na filha.

Não consegui acreditar.

Aquela mulher realmente tinha aparecido para estragar a festa.

Letícia ficou imóvel por alguns segundos. Quando percebeu que a mãe não pretendia ir embora, seus olhos se encheram de lágrimas.

Aquilo foi o suficiente para fazer minha raiva crescer.

Era o aniversário dela!

Um dia que deveria ser lembrado por coisas boas, por abraços, presentes e felicidade.

E Laura estava ali, pronta para transformar tudo em mais uma discussão.

Levantei-me da cadeira, decidida a sair da piscina e ir até Letícia, mas Crack foi mais rápido.

Ele se levantou de uma vez e caminhou na direção da ex, com uma expressão que eu ainda não tinha visto tão de perto.

— Você acha que está se crescendo demais, não, caralho? — perguntou, parando diante dela. — Que moral você tem para entrar na minha casa e destratar meus convidados?

Laura soltou uma risada debochada.

— Convidados? Ah, claro! Já está comendo a vadiazinha, né? Eu sabia que essa amizade dela com a Letícia era só para sentar para você!

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Senti o rosto esquentar.

Não por vergonha, mas de raiva.

Eu estava cansada daquela mulher insinuar coisas sobre mim como se conhecesse minha vida. Ela não sabia absolutamente nada sobre os meus sentimentos, minhas escolhas ou o que eu tinha passado para chegar até ali.

E, principalmente, não tinha o direito de usar a amizade que eu construí com Letícia para inventar histórias.

Dei um passo à frente.

— Laura, eu já falei para você não se dirigir a mim com esse tipo de ofensa.

Ela virou o rosto na minha direção.

— Ah, agora vai querer me ensinar como falar?

— Não. Vou apenas deixar uma coisa bem clara: não vou dar plateia para o seu circo.

Minha voz saiu firme.

Eu não precisava gritar para me fazer ouvir.

— Sou amiga da Letícia porque gosto dela de verdade. Cuido, respeito e protejo essa menina porque ela é importante para mim, como se fosse parte da minha família. Não preciso do seu ex-marido para conquistar absolutamente nada.

Laura me encarou com desprezo.

— Vadia!

Respirei fundo.

Por dentro, estava fervendo. Queria responder à altura, devolver cada ofensa e fazer aquela mulher entender que não podia sair falando o que bem entendesse sobre mim.

Mas olhei para Letícia.

Ela estava chorando.

E eu não permitiria que a raiva me fizesse esquecer o motivo pelo qual estava ali.

Aquela noite era dela.

Então ergui o queixo e encarei Laura.

— Não me confunda com você.

A expressão dela mudou.

Por um instante, pareceu não acreditar que eu tivesse respondido daquela maneira.

Mas eu não desviei os olhos.

— Você pode não gostar de mim, Laura. Isso é um direito seu. Não sou obrigada a agradar todo mundo. Agora, você não vai usar o aniversário da sua filha para me humilhar nem para transformar a amizade que temos em uma história inventada pela sua cabeça.

Apontei discretamente para Letícia.

— Essa menina merece respeito. Merece passar o aniversário em paz e não deveria precisar escolher entre as pessoas que ama. Se você realmente está preocupada com ela, comece escutando o que ela tem a dizer, em vez de aparecer aqui fazendo acusações.

Laura abriu a boca, mas não conseguiu responder imediatamente.

Crack permaneceu ao meu lado, sério, sem interromper.

Eu não sabia o que ele estava pensando, e, naquele momento, também não me importava.

Minha prioridade era Letícia.

— Você não sabe de nada sobre a minha vida! — Laura finalmente disparou.

— Exatamente. E você também não sabe da minha. Então pare de inventar coisas a meu respeito.

Cauã se aproximou de Letícia, colocando um braço ao redor dos ombros dela.

Minha amiga tentava enxugar as lágrimas, mas o choro continuava escapando.

Aquilo me doía.

Eu queria abraçá-la, levá-la para um lugar tranquilo e garantir que ela não precisasse ouvir mais nenhuma palavra daquela discussão.

Mas Laura ainda não tinha terminado.

— Letícia, você vai ficar aí deixando essa mulher falar assim comigo?

Minha menina ergueu o rosto, respirou fundo e respondeu com a voz trêmula:

— Mãe, eu só queria comemorar meu aniversário. Por que você não consegue me deixar ter um dia feliz?

A pergunta caiu sobre nós como um peso.

Até Laura pareceu ficar sem reação por alguns segundos.

Letícia continuou:

— Eu não quero brigar com você. Não quero escolher entre você e meu pai. Só queria que você respeitasse as pessoas que são importantes para mim.

Senti meus olhos arderem.

Aquela menina não estava pedindo dinheiro, presentes ou qualquer coisa extraordinária.

Estava pedindo paz.

E eu sabia o quanto era doloroso precisar implorar por algo que deveria existir naturalmente dentro de uma família.

Aproximei-me dela e segurei sua mão.

— Você não precisa se explicar, princesa.

Letícia apertou meus dedos.

Crack olhou para a filha e depois voltou a atenção para Laura.

— Você ouviu o que ela disse. Agora, se não consegue conversar sem ofender ninguém, é melhor ir embora.

Laura lançou um último olhar furioso para mim.

Eu sustentei seu olhar, sem dizer mais nada.

Não tinha interesse em vencer uma disputa de insultos. Não precisava provar que era melhor do que ela, nem transformar aquela situação em uma guerra pessoal.

Só queria que Letícia pudesse terminar o aniversário em paz.

E, se Laura não conseguia compreender isso, eu não poderia fazer muito além de estabelecer meus limites.

Aquela noite deveria ser lembrada pelo presente que minha amiga amou, pelas nossas risadas, pela comida maravilhosa e pela felicidade que ela sentiu ao completar dezoito anos.

Não pelas ofensas de uma mulher que ainda não tinha aprendido a separar suas frustrações dos sentimentos da própria filha.

Quando finalmente houve uma pausa na discussão, abracei Letícia com força.

— Estou aqui, meu amor. Você não está sozinha.

Ela encostou a cabeça no meu ombro.

— Obrigada, Lari.

Beijei seus cabelos e olhei discretamente para Crack.

Ele também estava olhando para mim.

Dessa vez, não havia brincadeira em sua expressão. Havia seriedade, respeito e algo que eu ainda não sabia interpretar.

Desviei o olhar antes de me perder naqueles olhos.

Eu tinha ido àquela casa para comemorar o aniversário de uma pessoa que amava como família.

Não para chamar a atenção de um homem.

Muito menos para começar a me envolver em um romance complicado.

Mas, enquanto abraçava Letícia e sentia Crack permanecer por perto, percebi que aquela noite talvez tivesse mudado alguma coisa.

Não sabia exatamente o quê.

Só sabia que, depois de tanto tempo vivendo sem permitir que ninguém se aproximasse demais do meu coração, começava a perceber que algumas pessoas tinham o poder de atravessar nossas defesas sem pedir licença.

E eu precisava tomar cuidado.

Porque, se existia uma coisa que eu não queria perder novamente, era a paz que havia lutado tanto para reconstruir.

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