Capítulo 4 A noite anterior
Bryson tinha acabado de se acomodar na cadeira de couro do escritório em casa, com o horizonte lavado pelas luzes da cidade além do vidro. Um copo de Macallan descansava sobre a mesa, o âmbar captando o brilho ao redor. Quando o celular vibrou, ele nem precisou olhar o nome — só uma pessoa ligava a essa hora sem marcar antes.
O canto da boca dele se ergueu — não exatamente um sorriso, mas quase.
Ele atendeu. “Eu ia te ligar amanhã.”
“Claro que ia”, disse Lila, com a voz calorosa e provocadora. “Você virou uma daquelas pessoas que precisam de um assistente para lembrar que ainda têm irmãos.”
“Não preciso de um assistente para me dizer que eu te amo”, disse ele, recostando-se. “Só andei ocupado.”
“Você sempre diz isso.” Uma exasperação afetuosa coloriu seu tom. “Você está comandando um império, eu entendo. Mas impérios têm fins de semana.”
“Ultimamente, não.” Ele tomou um gole lento. “E minha assistente pediu demissão hoje. Com efeito imediato.”
“Ai”, ela murmurou. “O que você vai fazer?”
“Aparentemente, nada. Carl resolveu isso.”
“Ah?” O interesse dela se aguçou. “Quem ele arranjou para você em tão pouco tempo?”
“A esposa dele”, Bryson respondeu secamente. “Amelia Pierce.”
Silêncio. Uma leve inspiração.
“Você está brincando.”
“Não.”
“Uau.” Uma surpresa genuína atravessou sua voz. “Eu nunca trabalhei diretamente com ela, mas ela está em todo lugar no mundo da filantropia. Programas de arte, organizações infantis... e ela realmente trabalha. Não é do tipo fake.”
Bryson girou o copo na mão, a luz se quebrando através do âmbar. “É mesmo?”
“Sim. Inclusive, eu a vi hoje”, disse Lila. “Eu tinha uma reunião com alguém do Coletivo de Arte Infantil — eles estão patrocinando a gala dela. O lugar estava um caos. E lá estava ela, carregando mesas de Louboutin vermelhos como se não fosse nada. Sem nem cambalear. Icônica. Você faz ideia de como é difícil dominar a arte de andar naquilo? Ainda mais levantando e carregando coisas?”
Bryson não respondeu de imediato.
Ele ainda conseguia vê-los — aqueles saltos — e a maneira como ela se portava neles.
“Eram altos”, disse por fim, com a voz mais baixa do que pretendia.
“Uhum”, cantarolou Lila, presunçosa e sabendo muito bem. “Você reparou.”
Ele não respondeu.
Mas a lembrança o atingiu mesmo assim —
as linhas longas das pernas dela,
o macacão preto ajustado,
a confiança silenciosa que ela vestia como uma segunda pele.
Ele pigarreou e tomou mais um gole de Macallan, deixando o ardor trazê-lo de volta ao chão.
“Enfim”, disse, mudando de assunto, “como está a galeria? Ainda mirando dezembro?”
Lila gemeu. “Se o universo colaborar. Os eletricistas terminaram, mas minha remessa de iluminação está presa na alfândega. Juro, fusões eram mais fáceis do que lidar com fornecedores.”
Ele soltou uma risada baixa. “Vindo da antiga melhor negociadora do escritório, isso quer dizer muita coisa.”
“Tecnicamente, eu ainda sou a melhor”, ela disse. “Só estou... numa licença prolongada enquanto corro atrás do sonho que eu costumava rabiscar nos blocos jurídicos.”
Ele sorriu para o próprio copo. “Você vai conseguir. Você sempre consegue.”
“Continue dizendo isso — talvez faça o drywall subir mais rápido.” Uma risada suave. “Mas eu tive ajuda, viu? Lembra da Claire Harlow?”
“Vagamente.”
— Ela é a melhor amiga da Amelia. Toca aquela agência de relações públicas. Está cuidando do lançamento — imprensa, parcerias, o circo da mídia. Ela é brilhante nisso. Disse que talvez traga a Amelia para ajudar com o interior.
A sobrancelha dele se ergueu. — Amelia?
— Uhum. A Claire diz que ela tem um olhar para aconchego. Do tipo vivido — acolhedor sem ser entulhado. É assim que eu quero que a galeria se sinta. Não estéril. Humana.
Ele assentiu de leve. — Parece que você montou a equipe certa.
— Espero. — O sorriso de Lila dava para ouvir na voz. — A Claire sabe que eu admiro o trabalho da Amelia. Eu vivo dizendo para ela convidar a Amelia para os nossos almoços. Ela parece centrada. Calma. Daquelas pessoas que não fingem.
Bryson não respondeu. Girou o copo devagar sobre a mesa, ouvindo o gelo se deslocar contra o cristal.
Lila hesitou e então disse, com gentileza: — Eu me lembro daquela noite — o baile de gala que você organizou. Do jeito que você olhou para ela. Você provavelmente achou que ninguém tinha notado.
Ele soltou um suspiro baixo — parte divertimento, parte aviso. — Você imagina coisas.
— Talvez — ela disse. — Ou talvez eu só perceba o que você não diz.
Os dedos dele se apertaram de leve ao redor do copo. Ele também lembrava bem demais daquela noite — as luzes âmbar baixas, o redemoinho de doadores e executivos, o clarão do riso de Amelia atravessando tudo como algo quente num quarto frio. Ele tinha tentado não olhar para ela. Tentou e falhou.
A voz de Lila suavizou. — Seja lá o que foi, Bry… não foi nada.
Ele fitou o horizonte de prédios. — Você está lendo sombras de novo.
— Talvez. — Uma pausa. — Só lembra… ela é casada.
Outra pausa.
Mais suave.
Cuidadosa.
— E eu conheço você. Você não ultrapassaria um limite. Só… não deixa seus pensamentos chegarem perto demais de um também.
Ele não respondeu.
Apenas ergueu o copo e deu mais um gole longo.
O uísque ardeu menos do que deveria.
— Você vai ver ela amanhã? — Lila perguntou.
— Pelo jeito. — Ele bateu de leve o Macallan na mesa. — Não sei se ela está muito animada.
— Bem — ela provocou —, tenta não assustar a mulher logo no primeiro dia.
— Vou lembrar disso.
— Não vai — ela riu. — Mas eu vou fingir que vai. Vai lá fazer o que CEOs fazem quando estão escapando das ligações das irmãs.
— A lista é curta — ele disse. — Boa noite, Lila.
— Boa noite, Bryson.
A chamada caiu.
Mas ele não se mexeu.
A cidade pulsava do lado de fora da janela — luz sem fim, barulho sem fim —, mas o escritório dele parecia imóvel. Imóvel demais. As palavras de Lila ficaram, puxando a lembrança que ele passara anos enfiando no canto mais distante da mente.
Ele sempre acreditara que paciência era uma virtude. Que querer em silêncio era o mesmo que fazer o certo. E tinha funcionado, em grande parte — enquanto ela permanecia a um mundo de distância.
Mas o tempo corroía até as paredes mais fortes.
Seis anos de silêncio tinham virado algo mais pesado do que ele jamais pretendeu carregar.
Ele não era um homem que interferia.
Ele não cruzava limites.
E ainda não cruzaria.
Ainda assim, quando se recostou na cadeira, o Macallan aquecendo a palma da mão, um pensamento quieto escorregou para dentro, como uma rachadura na pedra:
E se o limite não fosse tão fixo quanto ele acreditava?
Bryson inclinou a cabeça para trás, deixando a cidade passar por ele em ouro e sombra.
Dessa vez, o desejo não pareceu perigoso.
Pareceu inevitável.
