Capítulo 1 A traição

Angeline Vance

Saio do táxi e sou recebida pela magnífica tempestade que banha a noite. Luto com o guarda-chuva que parece não querer abrir, enquanto tento equilibrar a caixa com o bolo em uma das mãos.

Com tantos lugares no mundo, eu realmente me pergunto por que diabos fui me mudar para um onde claramente chove o ano inteiro. Não é que eu não goste de chuva, frio e tudo mais, mas o clima de Londres parece me odiar com todas as forças.

CÉUS, QUE SAUDADE DO SOL DE LOS ANGELES.

Finalmente consigo abrir a maldita coisa - isso depois de já estar parecendo uma espécie de cosplay bizarro da Samara do Poço.

Entro no hall luxuoso do prédio, sentindo os olhares sobre mim. Cumprimento o pessoal da recepção e sigo para o elevador tentando não demonstrar a vergonha que sinto. O que diabos deu na minha cabeça para cruzar a cidade atrás de um bolo?

Tudo bem, o homem da minha vida está fazendo aniversário e eu o amo o suficiente para ter deixado tudo para trás e o seguido até aqui. E, quem sabe, também tenha atravessado a cidade para comprar o seu bolo favorito, mas droga... é exaustivo.

As portas do elevador se abrem. Caminho em direção ao nosso apartamento, o barulho das botas ecoando contra o piso de madeira.

Giro a chave e abro a porta devagar. O apartamento está com a luz baixa. Mal dou um passo para dentro e meu corpo inteiro trava. O som que chega aos meus ouvidos é baixo, mas não suave; é ritmado e inconfundível.

São gemidos.

Fecho os olhos e respiro fundo por alguns segundos. Talvez Tyler esteja apenas assistindo a um daqueles filmes adultos ridículos de novo. Caminho até a bancada que divide a sala da cozinha e deixo o bolo. Retiro as botas, suspirando de satisfação quando meus pés tocam o piso aquecido.

Sigo pelo corredor até o quarto principal sem fazer barulho. A porta está entreaberta. Observo através da fresta e, por um instante, sinto minhas pernas fraquejarem. Minha visão embaça e preciso me segurar no batente para me manter de pé.

Tyler estava de quatro no meio da cama. Aquele filho da puta desgraçado estava de quatro na cama enquanto outro homem o penetrava por trás. Sinto as lágrimas rolarem pelo meu rosto como cascatas.

Cinco anos.

Cinco malditos anos da minha vida perdidos. Eu deixei tudo para trás, deixei de assumir a empresa dos meus avós, perdi a chance de comandar o Vance Group apenas para seguir esse infeliz. Me mudei para outro continente para apoiar os sonhos dele enquanto deixava os meus de lado... e é assim que ele me retribui.

Levo as mãos à boca tentando abafar o barulho dos soluços que escapam. Eu dei tudo a esse desgraçado.

Me afasto devagar da porta, sentindo o peito doer, sentindo meu mundo desabar aos poucos. Idiota. Eu fui uma completa idiota. Como pude confiar tão cegamente em alguém? Maldita hora em que não ouvi os conselhos dos meus avós.

Retorno para a sala, ainda com as pernas trêmulas. Sento no sofá. Os gemidos abafados ainda ecoam do quarto; cada um é como uma faca cravada no meu coração.

Isso não vai ficar assim.

Ainda enojada, forço meu corpo a levantar. Pego o celular no bolso do casaco e me aproximo do quarto outra vez. Abro a câmera e começo a gravar aquela cena horrenda, mesmo que a vontade de vomitar se torne cada vez mais forte.

Um minuto de um espetáculo digno de um pornô de baixa qualidade.

Guardo o aparelho no bolso; ele vai ser bem útil no momento certo. Volto para a sala e pego o notebook de trabalho de Tyler, que está aberto sobre a mesa de centro. Compro uma passagem de volta para Los Angeles.

Entro na nossa conta conjunta de despesas para o casamento e retiro todo o valor, transferindo para minha conta pessoal. Dos 180 mil dólares presentes, apenas 50 mil pertenciam a Tyler - e, sinceramente, agora me pertencem como compensação por danos morais.

Minha vontade é quebrar este lugar inteiro, mas o apartamento é alugado e não pretendo pagar pela reforma de algo que não é meu.

Juntando toda a frieza que tenho dentro de mim, me recomponho. Caminho até o quarto com toda a calma do mundo, empurro a porta com força e o estrondo da madeira batendo contra a parede reverbera no ar.

A imagem do meu agora ex-noivo chutando outro homem me causa náuseas. O semblante de desespero toma conta do rosto de ambos, que se separam imediatamente.

Sem muita paciência para conversa, retiro o anel de noivado, jogando-o sobre a cama, e caminho até o closet com a paciência de quem não tem nada a perder.

- Angeline... amor, eu... nós podemos... - a voz de Tyler ecoa. Ouço seus passos, mas não me dou ao trabalho de virar.

Pego uma das peças da minha coleção: uma pistola calibre .38 em tom metálico. Ganhei dos meus avós há alguns anos - "apenas para autodefesa", disseram eles.

Viro-me para Tyler, que segura um travesseiro para tampar as partes íntimas. Um sorriso surge nos meus lábios.

- Eu amei a surpresa, amor - digo, engatilhando a arma. - O aniversário é seu, mas fui eu quem ganhou um par de chifres de presente... engraçado, não acha?

Caminho na direção dele, que recua para o quarto com o olhar desesperado.

- Angeline... - a voz dele falha. - Pelo amor de Deus... abaixa isso. Amor, nós... podemos conversar.

- Conversar? - Minha voz ecoa em um tom doce, quase doentio. - Não... eu não quero conversar.

Viro o rosto para o amante, que agora está no canto do quarto, mãos erguidas e o rosto completamente pálido de horror. Ele veste apenas uma cueca - deve ter se vestido enquanto Tyler me seguia até o closet.

- Que desperdício - digo, encarando o garoto. Ele é bonito, até. Mais jovem, talvez na casa dos dezenove ou vinte anos. - Tanto homem no mundo e você se contenta com isso... Não vale a pena, ele sequer consegue fazer essa coisa molenga no meio das pernas subir direito.

O amante me encare com os olhos quase saltando para fora.

- Senhora... eu não... eu... - ele gagueja. - Fui contratado! Eu não sabia... ele me contratou, eu não sabia que ele...

- Que ele era comprometido? - Giro a arma entre os dedos com a calma de um monge. - Vista-se. Você tem trinta segundos para desaparecer da minha frente. Meu assunto é com ele.

Nunca vi alguém vestir as roupas tão rápido. O garoto praticamente sai correndo do quarto e, logo depois, ouço a porta do apartamento bater com força.

- Agora é sua vez, amor - digo, sorrindo. - Largue essa almofada, querido, não há nada aí que eu já não tenha visto.

- O que você... o que vai fazer? - ele pergunta, erguendo as mãos em desespero. - Angel... por favor... foi só um mal-entendido!

Arqueio as sobrancelhas, deixando um riso seco escapar.

- Pego meu noivo na cama com outro homem e foi tudo um mal-entendido? - gargalho de toda a desgraça. - Porra, Tyler, eu tenho a palavra O T Á R I A tatuada na testa? Cinco anos! Cinco anos juntos, seu filho da puta, e você me trai com um garoto de programa na nossa cama?!

- Eu... não queria, amor, eu juro... eu só...

- Sai da minha casa - digo com a voz mais fria que consigo.

Ele continua me encarando com os olhos arregalados, como se eu tivesse enlouquecido de vez.

- Angel... a gente pode conversar, não precisamos...

Reviro os olhos. Impaciente, destravo a arma e aponto na direção dele. Tyler recua mais um passo, as costas batendo contra a parede fria.

- Você está tão confortável da forma que veio ao mundo na nossa cama, querido... Não gostaria de vestir suas roupas e acabar com esse conforto? - pergunto calmamente, mantendo o dedo no gatilho. - Você vai sair deste apartamento e desta relação da mesma forma que entrou: sem nada. Vamos, anda logo, não tenho a noite toda.

- Você não pode fazer isso! - ele altera a voz. - EU EXIJO RESPEITO, ANGELINE! EU EXIJO QUE VOCÊ...

O barulho do disparo contra a parede, ao lado da cabeça dele, é o suficiente para fazê-lo paralisar de medo - seguido pelo som de algo molhado caindo no chão.

- Sinceramente, Tyler, que tipo de homem se urina inteiro por causa de uma simples brincadeira? - Reviro os olhos. - Vamos logo. Você vai sair deste edifício da forma que veio ao mundo, e eu não quero ouvir um murmúrio seu até chegarmos ao saguão.

Ele ainda tenta me convencer, lançando argumentos que não me comovem. Aperto o gatilho mais uma vez; novamente a bala passa rente à cabeça dele.

Ele entende o recado e anda à minha frente como um robô enquanto o sigo a poucos passos, a arma apontada para a cabeça dele. É claro que eu não vou atirar, mas ele não precisa saber disso.

Entramos no elevador. A imagem dele, vermelho de vergonha enquanto tenta sem sucesso cobrir as partes íntimas com as mãos, me faz rir abertamente. Toda e qualquer vergonha é pouco perto do que ele fez.

As portas finalmente se abrem no saguão. O lugar movimentado paralisa imediatamente ao presenciar um homem nu sendo escoltado por uma mulher de arma em punho.

Não demora para que os cochichos comecem, seguidos por celulares erguidos discretamente.

Abaixo a arma e exibo meu melhor sorriso para as lentes.

- Olhem bem! Este é o homem que me pediu em casamento há dois anos, jurando que me amava incondicionalmente - digo, minha voz ecoando com uma clareza gélida. - O mesmo homem que, há poucos minutos, encontrei me traindo em nossa cama com um garoto de programa.

Deixo que os sussurros virem um falatório aberto.

- Tyler Johnson sempre gostou de estar no centro dos holofotes. Esta noite estou realizando o seu desejo. Feliz aniversário, querido!

Sorrio abertamente enquanto o ambiente explode em risos e flashes.

Viro-me a passos calmos e retorno ao elevador. Pressiono o meu andar e volto ao apartamento. Troco a senha da fechadura eletrônica.

Tomo um longo banho, me visto com calma e arrumo minhas malas. Chamo um táxi.

Antes de sair, pego o notebook, publico o vídeo nas redes sociais do Tyler e troco todas as senhas, alterando o e-mail de recuperação. Envio o arquivo para o grupo da família dele, o grupo da empresa e o grupo da igreja dos pais dele.

Saio do apartamento me sentindo vingada - ou quase. Troco a senha da porta novamente para algo tão aleatório que ele precisará arrombar para entrar.

No saguão, os murmúrios ainda são audíveis. Tyler está em um canto, enrolado em uma manta de emergência, com cara de cachorro que caiu da mudança.

Passo por ele em direção à saída. O motorista me ajuda com as malas, entramos no carro e ele dá a partida em direção ao aeroporto.

Finalmente estou voltando para onde nunca deveria ter saído.

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