Capítulo 2 Los Angeles

Dias depois.

Daniel O'Connor.

Acendo um charuto, deixando que a fumaça densa suba lentamente enquanto observo as notícias estampadas em destaque na tela do computador.

É claro que Angeline estaria na primeira página por armar um escândalo público; ela sempre foi exatamente assim, movida por uma necessidade quase patológica de ser o centro absoluto das atenções.

Uma necessidade incontrolável, visceral, de fazer com que todo o mundo gire exclusivamente ao seu redor.

Sinceramente, acho muito bem feito.

Ela merece exatamente tudo o que aconteceu. Deixou para trás os avós, a família, as obrigações e o peso de um império inteiro apenas para seguir a porra de um aspirante a empresário que não passava de uma maldita farsa.

É claro que daria errado.

Era só uma questão de tempo.

Dou outro trago demorado, sentindo o sabor amargo do tabaco antes de pegar o telefone fixo sobre a mesa e discar o ramal da minha secretária.

- Sim, senhor O'Connor. - a voz eficiente ecoa do outro lado da linha, sem um traço de hesitação.

- Compre uma coroa de flores e mande entregar no endereço da família Vance - digo calmamente, mantendo os olhos frios e fixos no vídeo em loop gravado no saguão daquele edifício em Londres. - Peça para adicionarem um cartão com os seguintes dizeres: "Para que celebre a morte de um relacionamento que já estava fadado ao fracasso." E assine apenas com minhas iniciais. A senhorita Vance saberá exatamente quem é.

A linha fica em silêncio por um breve segundo, o tempo necessário para que ela processe a acidez da ordem, antes de me responder

.

- Farei isso imediatamente, senhor O'Connor. - ela diz, reajustando com perfeição o tom formal em sua voz. - O senhor precisa de mais alguma coisa?

- Não, pode retornar aos seus serviços.

Desligo a chamada com um clique seco e volto a encarar a tela. Angeline sempre teve um maldito gênio forte, uma imprudência mimada que parece guiar e arruinar cada uma de suas decisões.

Foi assim no colegial, onde toda a maldita escola parecia orbitar em volta dela; na universidade, quando ela decidiu que seu passatempo favorito seria infernizar a minha vida; e agora, na fase adulta, onde de algum modo resolveu desistir de tudo para acompanhar aquele idiota e seus delírios mesquinhos de grandeza.

Nossas empresas estão profundamente interligadas. Nossos avôs ergueram esse império como sócios e nossas avós continuam sendo melhores amigas. Entretanto, nós dois nos odiamos... Ao menos ela me odeia com todas as forças que tem.

Quanto a mim, a existência dela é deveras insignificante.

Angeline Vance é um problema ambulante e imprevisível.

E, sinceramente, eu já tenho problemas de sobra para administrar na minha vida.

Não preciso de mais um.

》》☆《《

Angeline Vance.

- Filho da puta, desgraçado - minhas palavras ecoam pesadas pelo hall imponente da mansão no exato momento em que recebo a encomenda das mãos de um dos seguranças. - Nona, eu vou matar aquele demônio que a Augusta chama de neto.

Viro-me abruptamente para a minha avó, Eleanor Vance, que permanece parada no topo da escadaria em toda a sua postura impecável, encarando-me com as sobrancelhas arqueadas em um misto de curiosidade contida e pura descrença.

- Bem, isso é definitivamente algo inusitado para ser enviado a alguém - ela começa, mantendo aquele tom exasperadamente calmo de sempre. - Mas, minha querida, como pode ter tanta certeza de que foi o...

- "Para celebrar a morte de um relacionamento que já estava fadado ao fracasso. D.O" - recito cada palavra venenosa, sentindo a raiva queimar o meu peito ao ler a fita fixada na arranjo. - É o que está assinado no maldito cartão! Eu vou matar aquele filho da puta e sumir com o corpo dele.

Minha avó fecha os olhos por um segundo e leva uma das mãos às têmporas, massageando o local de forma lenta e cansada.

- Pelos deuses, vocês dois precisam parar com isso - ela diz com firmeza renovada, descendo um degrau. - Você e o Daniel vivem nessa espécie de guerra eterna desde os dez anos, Angeline... Não acha que já passou da hora de deixarem o passado para trás e...

- NÃO! - corto suas palavras antes que ela possa terminar a frase, a voz vibrando com a mágoa acumulada. - Ele olhou no fundo dos meus olhos, Nona, e disse com todas as letras que a culpa de nossos pais terem morrido era inteiramente minha...

Sinto um nó denso se formar no fundo da minha garganta, mas respiro fundo, recusando-me veementemente a deixar que a fraqueza transpareça.

- Ele era só um garoto sofrendo a perda dos pais, Angel... - minha avó pontua, a voz levemente embargada pela lembrança daquela tragédia. - O Daniel só tinha quinze anos quando tudo aconteceu. Ele era apenas um adolescente desolado tentando lidar com o próprio luto...

- E eu tinha dez! - rebato, sentindo uma única lágrima quente e traiçoeira rolar pela minha bochecha. - Mas isso não o impediu de ser visceralmente cruel comigo.

Respiro fundo, enxugo a lágrima solitária com as costas da mão e passo por minha avó em direção à cozinha, agarrando a coroa fúnebre com força renovada.

- Angeline Vance... o que você pensa que vai fazer com isso?

- Tocar fogo - digo sem hesitar, mantendo os passos firmes. - Já que não posso atear fogo no canalha que me enviou isso... acho que incinerar esse insulto deve servir por enquanto.

Minha avó ainda diz mais alguma coisa às minhas costas, mas eu não me dou ao trabalho de ouvir.

- Vamos Alaska. - Chamo, e ela prontamente segue trotando atrás de mim com o ar de quem está prestes a arrancar a perna de alguém.

Preciso descontar essa raiva visceral antes que a fúria vença o resto do meu juízo e eu consiga a porra de um lança-chamas para ir até o escritório de Daniel O'Connor e queimá-lo vivo.

E, acreditem em mim, eu faria isso exibindo o meu melhor sorriso no rosto.

》》☆《《

Dias depois.

Daniel O'Connor.

Como sempre, meu café já está sobre a mesa quando finalmente entro na minha sala. Agradeço a Sarah Cooper, minha assistente, e caminho em direção à grande bancada de madeira. Retiro o paletó, acomodo-o no encosto da cadeira e prontamente me sento para começar mais um dia de trabalho.

A noite passada foi um verdadeiro inferno; o sono me abandonou por completo. Vi-me desperto às três da manhã, encarando o teto do quarto e me perdendo em pensamentos inúteis que não fazem o menor sentido.

Tomo um gole do café forte, sentindo o líquido quente descer e aquecer o meu peito. Uma perfeita ironia, se levarmos em consideração os quase trinta graus que já fazem lá fora.

A porta da sala se abre e Sarah entra com a mesma postura alinhada e profissional de sempre.

- Bom dia, senhor O'Connor. - ela cumprimenta, aproximando-se da minha mesa. - O senhor tem uma agenda cheia no dia de hoje. Ah, e isto chegou para o senhor há poucos minutos.

Ela me mostra uma caixa em formato retangular, não muito grande - cerca de quinze centímetros, relativamente rasa -, embrulhada com capricho.

- Bom dia, senhorita Cooper. Pode deixar sobre a mesa - digo, interrompendo o que estava fazendo e voltando minha atenção para ela. - O que temos para hoje?

》》☆《《

Analiso a caixa de bombons com atenção. É de uma daquelas chocolaterias belgas renomadas, a favorita da minha avó e uma das poucas coisas doces pelas quais admito ter certo vício. O tipo de iguaria refinada e absurdamente cara que pouca gente se dá ao luxo de comprar.

Existe um motivo afetivo por trás, é claro. Meus pais, sempre que voltavam de alguma viagem ao exterior, costumavam me trazer caixas de chocolates finos. Parece uma tolice, eu sei, mas era a nossa pequena tradição.

Eles me traziam doces de diversas partes do mundo, e o hábito acabou enraizado em mim, permanecendo intocado mesmo após a partida deles.

Puxo a fita, abro a embalagem e retiro um dos bombons, observando o acabamento impecável antes de levá-lo à boca. O sabor denso do cacau preenche meu paladar imediatamente. Saboreio o doce enquanto continuo a analisar as planilhas do relatório trimestral da empresa.

É impressionante como um simples sabor tem o poder de resgatar memórias tão antigas.

Consumo mais um doce. Em seguida, outro. E mais um.

Não se passam dez minutos antes que uma sensação incômoda e estranha se instale no centro do meu estômago. A princípio, julgo ser apenas o reflexo do café forte consumido em jejum somado às poucas horas de sono, mas a pontada se intensifica com uma rapidez alarmante.

Um borborigmo alto e ruidoso ecoa pelo meu abdômen, acompanhado por uma cãibra súbita e dolorosa que me faz estancar a caneta no meio de uma assinatura.

A fisgada contrai meus músculos abdominais com tanta violência que sou obrigado a me inclinar levemente para frente, pressionando a mesa.

Sinto uma onda imediata de suor frio brotar na linha da minha testa e na nuca. Minha boca saliva de forma involuntária, o estômago dando um solavanco violento enquanto uma pressão absurda e incontrolável se acumula na parte inferior do ventre.

A compostura que levei anos para construir ameaça ruir em um instante.

Levanto-me da cadeira com um arranque abrupto, sentindo as pernas fraquejarem levemente pelo espasmo que volta a me atingir em cheio. Ajusto o abotoamento da camisa com mãos trêmulas, engolindo em seco para conter a náusea e a queimação que sobem pela garganta.

Caminho a passos rápidos e rígidos em direção à porta privativa do banheiro do meu escritório, pisando fundo no carpete para disfarçar a urgência desesperada do meu corpo.

Tranco a porta do banheiro no segundo em que coloco os pés para dentro, o som do ferrolho estalando sendo a única garantia de que minha dignidade, por um fio, ainda permanece intacta.

​Apoio as duas mãos na bancada de mármore da pia, encarando o meu próprio reflexo no espelho por uma fração de segundo. Minha pele está visivelmente pálida, com uma camada fina de suor frio cobrindo minha testa.

A urgência é tão absurda, tão avassaladora, que sinto uma pontada de pânico genuíno ao tentar desabotoar o cinto com dedos que teimam em tremer.

​Uma nova onda de cólica me atinge com a violência de um soco no estômago, dobrando meu corpo ao meio. O impulso é visceral, incontrolável. Mal tenho tempo de me acomodar no vaso sanitário antes que meu organismo decida expelir absolutamente tudo de forma devastadora.

​Pela ordem dos deuses, o que diabos colocaram naquele chocolate? Sinto que meus órgãos internos vão simplesmente descer junto com as fezes.

​Fecho os olhos com força, cravando as unhas nas coxas enquanto uma série de espasmos dolorosos contorce todo o meu abdômen.

A queimação é intempestiva. O som constrangedor que ecoa pelo espaço privado do banheiro é o atestado definitivo do meu completo infortúnio, destruindo qualquer resquício da postura imponente que ostentei durante a manhã inteira.

》》☆《《

Angeline Vance.

Dois meses depois.

- Vegas... - a palavra escapa dos meus lábios enquanto encaro a figura de Alice, minha melhor amiga e confidente. - Eu terminei um noivado há cerca de dois meses, virei chacota em rede nacional e internacional e você está seriamente me chamando para ir a Vegas?

- Estou - ela dá de ombros com uma casualidade desconcertante, como se estivesse me convidando para tomar um café na esquina. - Você precisa urgentemente se divertir, Angeline. Sinceramente, você mal sai de casa. Tem estado tão absurdamente focada no trabalho que a sua própria avó teve que me ligar e pedir, por favor, para eu te arrastar para qualquer lugar longe desta mansão.

Ela faz uma breve pausa, tomando um gole do próprio suco enquanto me observa com um olhar analítico.

- E veja bem a gravidade da situação, porque a dona Eleanor nunca gostou de quando eu te arrastava comigo para as boates no passado - ela diz, deixando escapar uma risada divertida.

- Você nunca teve um pingo de juízo, por isso ela não gostava - respondo, tomando um gole do meu suco e apoiando os cotovelos na mesa.

- Olha só quem fala - ela revira os olhos, mantendo um minissorriso provocativo no canto dos lábios. - Vai ser ótimo, Angel. Três noites inteiras em Vegas, completamente longe de tudo e de todos, curtindo o que aquela cidade tem de melhor a oferecer. Quem sabe você não encontra o seu príncipe encantado por lá e acaba até voltando casada?

- Nem fodendo, Alice. Eu posso até não ter muito juízo quando o assunto é relacionamento, mas o pouco que me resta ainda é perfeitamente suficiente para não aprontar uma loucura dessa magnitude.

- Se você diz... - ela dá de ombros, sem conseguir conter a empolgação que reluz em seus olhos. - Vou reservar as passagens e o hotel agora mesmo. Embarcamos no fim de semana e não aceito reclamações.

Apenas reviro os olhos enquanto ela continua a tagarelar sem parar sobre os planos mirabolantes para essa viagem à qual estou sendo praticamente coagida a ir.

Não é que eu não goste de viajar; é só que, depois de todo o escândalo público e da humilhação, tudo o que eu menos preciso no momento é me envolver com outra pessoa.

Tudo bem que sair, dançar e encher a cara possa soar como o remédio ideal para tentar esquecer o belíssimo par de chifres que ganhei de presente.

E que, de certo modo, a Alice até tenha razão ao defender que sexo sem compromisso não tira pedaço de ninguém. Mas eu estaria mentindo descaradamente para mim mesma se dissesse que já me recuperei por completo daquela traição.

Afinal, cinco anos não são cinco dias. No fim, por mais que eu não queira admitir em voz alta e saiba que esse tipo de raciocínio é totalmente errado, uma parte bem escondida de mim ainda se pergunta se... se eu tivesse sido uma noiva melhor, as coisas poderiam ter sido diferentes.

E é claro que teriam sido diferentes...

Eu teria levado tanto chifre que não estaria nem conseguindo passar por essa porta no momento.

Corna sim, meu amor, mas otária jamais.

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