Capítulo 4 Vegas e suas consequências .

Angeline Vance

Abro os olhos devagar, sentindo minha cabeça latejar com tanta força que parece que os alto-falantes inteiros da boate foram enfiados direto no meu crânio.

Fecho os olhos de novo, soltando o ar devagar pela boca. Tento me levantar, mas o quarto gira instantaneamente como um carrossel desgovernado.

Com um esforço absurdo, consigo me sentar na borda da cama. O estômago revira na hora, a bile subindo quente pela garganta. Parece que os meus órgãos internos vão se lançar pela minha boca a qualquer segundo.

Inspiro fundo mais três vezes, lutando contra o enjoo, antes de me arriscar a abrir os olhos de verdade.

A claridade cortante da manhã invadindo o quarto me atinge como um soco no rosto. Leva alguns segundos até que a minha visão finalmente foque e tudo comece a fazer um sentido aterrorizante.

Maldita a hora em que eu resolvi perder totalmente a linha.

Mas, droga, eu precisava disso. Eu precisava desesperadamente esquecer de tudo nem que fosse por um único dia. Minha vida vinha sendo uma loucura desenfreada desde que assumi o comando dos negócios do Vance Group e sentei na cadeira da presidência no lugar que era da minha avó.

Sem falar no caos absoluto que tem se formado desde que retornei de Londres, principalmente em relação ao termino do meu noivado com aquele ser asqueroso que um dia eu ousei chamar de noivo.

Cinco anos juntos, três anos noivos e o que acontece? Aquele ser de beleza duvidosa tem a audácia de me trair, porra. E com um garoto de programa, apenas para terminar de foder com a pouca sanidade que me restava.

Sinceramente, minha vida é um circo e, ao que tudo indica, eu sou a atração principal.

Droga, eu nem deveria ter ido para Londres, para começo de conversa. Se eu tivesse ouvido meus avós, essa merda toda não teria acontecido.

Respiro fundo e finalmente viro o rosto para encarar o ambiente. Minha visão ainda demora um pouco para se ajustar à luz intensa.

É claro que algo assim aconteceria. A vida tem um jeito muito especial de foder comigo... tenho quase certeza de que sou a vítima preferida dela.

Puxo o ar mais uma vez, tentando raciocinar em meio ao turbilhão na minha cabeça, e as primeiras coisas que noto são:

Primeira - este quarto definitivamente não é o meu. E eu não estou exagerando.

Eu não faço a menor ideia de onde estou. As garrafas vazias espalhadas pelo chão, o cheiro denso de álcool impregnado no ar, o resto de pó branco sobre a mesa que eu sei perfeitamente o que é... nada disso é familiar. E tudo isso é o pior dos sinais.

Segunda - estou vestindo apenas uma camisa masculina escura, longa o suficiente para cobrir o mínimo necessário do meu corpo.

Minhas roupas sumiram junto com a minha dignidade, e a minha memória é um borrão indecente. Não faço a menor ideia de como vim parar aqui.

Terceira...

Um gemido rouco, carregado de dor e torpor, soa ao meu lado no colchão. Viro-me rapidamente, o coração disparando num misto de pânico e intuição sombria. E então eu vejo.

Daniel O'Connor.

O desgraçado que teve a audácia de mandar uma coroa de flores para celebrar o fim humilhante do meu relacionamento está bem aqui, ao meu lado. Dormindo profundamente de bruços, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo, totalmente nu e com as costas viradas para mim, cobertas por marcas de arranhões profundos que mais parecem garras.

Como diabos isso aconteceu?

E, como se a minha própria mente me odiasse, as lembranças começam a voltar em uma enxurrada violenta. Cada momento da noite passada ressurge com clareza, preenchendo cada maldita lacuna que havia se formado na minha memória.

Levo as duas mãos ao rosto, sentindo a vergonha me queimar por cada gemido que escapou dos meus lábios por conta desse filho da puta.

Minha vontade é arrancar os cabelos.

Cavar um buraco no chão e me enterrar nele, ou sei lá, me jogar direto por essa janela.

Tenho certeza de que qualquer uma dessas opções seria infinitamente menos humilhante do que estar aqui quando este troglodita finalmente acordar.

》》☆《《

Daniel O'Connor.

Minha cabeça lateja como se uma banda inteira de rock tivesse usado meu cérebro de palco. Minha boca está completamente seca, o corpo inteiro dolorido e a pele das minhas costas ardendo para caralho.

Que merda foi que eu fiz noite passada?

Levo as mãos ao rosto, cobrindo os olhos na tentativa inútil de bloquear a claridade impiedosa que invade o quarto pelas enormes janelas da suíte.

Abro os olhos devagar, e a pontada violenta de luz contra a minha retina me faz fechá-los quase que imediatamente.

A dor de cabeça piora com um estalo afiado antes que eu finalmente crie coragem para torná-los a abrir.

Pisco algumas vezes, lutando contra o torpor, até que minha visão se acostume ao excesso de luminosidade.

O quarto parece ter sido atingido por um furacão de proporções catastróficas.

Garrafas vazias de uísque, vodca e outras bebidas indeterminadas estão espalhadas pelo chão de madeira. Roupas amassadas repousam jogadas por cima dos móveis, e uma calcinha vermelha - ou o que sobrou dela após ser rasgada com violência - foi parar pendurada em cima da luminária ao lado da minha cama.

Em cima de uma mesa de canto, algumas carreiras quase intactas de um pó branco denunciam sem qualquer pudor que a noite foi absurdamente intensa. O cheiro impregna o ar: um perfume denso de álcool, sexo e drogas que ainda domina cada centímetro do ambiente.

Meus olhos passeiam pelo cômodo tentando resgatar qualquer lembrança que faça o mínimo possível de sentido. Apenas flashes desconexos e picotados vêm à minha mente: a despedida de solteiro de um amigo, o ambiente escuro da boate, o ritmo frenético da dança, a pele quente e os gemidos incontidos.

Eu definitivamente estava acompanhado. Isso explica a lingerie destruída e o fato de a minha pele parecer que passou por um confronto direto contra um tigre.

Passo as mãos pelos cabelos desgrenhados e finalmente crio coragem para tentar sair do colchão.

Sento-me na borda da cama com a mente a mil e a cabeça rodando rápido, como se eu ainda estivesse no topo de uma montanha-russa desgovernada.

Que diabos aconteceu na...

Meu pensamento é cortado de forma abrupta quando a porta do banheiro da suíte se abre com um estalo seco. Meus olhos quase saltam das órbitas no momento em que a figura de Angeline, com os cabelos desarrumados caindo pelos ombros e vestindo apenas a minha camisa escura, surge à minha frente como se fosse a porra de um fantasma.

Paraliso completamente por alguns segundos que parecem durar horas. Meus olhos focam fixamente em seu corpo: nas pernas longas e expostas, nas curvas fartas e provocantes, e no quão pouco aquela peça de pano cobre. Apenas essa visão é perfeitamente suficiente para fazer minha mente acostumada ao controle começar a vagar.

- Pare de me olhar como se nunca tivesse visto uma mulher nua antes, O'Connor - a voz dela ecoa pela suíte, carregada daquele tom impecavelmente arrogante de sempre. - É patético.

Permaneço absolutamente sem reação por mais tempo do que eu gostaria de admitir, tentando processar se estou sofrendo uma alucinação grave ou preso em algum pesadelo maluco.

- Angeline? - pergunto com a voz rouca, coçando os olhos para ter certeza absoluta de que ela não é uma miragem provocada pelo excesso de substâncias no meu sangue.

- Não, o coelhinho da Páscoa - ela responde sem hesitar, usando como sempre de toda a ironia e simpatia que possui. - Vai continuar me encarando como se eu fosse um pedaço de carne, ou pretende levantar dessa porra e me ajudar a descobrir como diabos acordamos casados?

As palavras dela caem sobre mim como um balde de água gelada, sendo o suficiente para me fazer saltar da cama em um único movimento, encarando-a totalmente nu com um misto explosivo de fúria e choque.

- Eu não sei que droga você usou, Angeline, ou se está apenas tentando zoar com a minha cara, mas...

- Me poupe do seu discurso moralista, O'Connor! Eu realmente tenho coisas infinitamente mais importantes para fazer do que passar o meu dia discutindo com você - ela interrompe antes que eu possa sequer concluir, cruzando os braços sobre o peito e praticamente me fuzilando com o olhar. - Vista-se. Temos que ir ao cartório agora mesmo cancelar essa merda... Eu me recuso terminantemente a aceitar que isso seja verdade.

- As drogas afetaram o seu cérebro, Angeline? De que porra você está falando? - sinto a irritação pura e sem filtros crescer e queimar dentro do meu peito.

- Da porra da certidão de casamento, devidamente autenticada em cartório, que está sobre a mesa no canto da suíte, seu idiota! - ela explode, a voz ressoando alta. É claro que explode. Angeline Vance nunca foi o tipo de mulher que abaixa a cabeça ou fica calada. - Que diabos, vista-se logo! Precisamos resolver isso antes que...

Sem pensar duas vezes e sem dar espaço para que ela continue com aquele maldito discurso ácido, cruzo a extensão da suíte em sua direção a passos largos. Em questão de segundos, tenho Angeline Vance devidamente presa contra a parede fria à nossa frente.

Os olhos castanhos dela faiscam instantaneamente em um misto ardente de ódio refinado e algo mais.

Desejo.

Um desejo visceral, denso e primitivo que ela tenta conter com todas as forças, mas acaba sendo traída pelo próprio corpo quando a respiração se torna falha e descontrolada.

- O que você acha que está fazendo, seu imbecil? - ela retruca entre dentes, mantendo a fúria acesa nas palavras, mas o tremor sutil na voz apenas me motiva a ir além.

- Terminando o que começamos noite passada - respondo com a voz baixa e perigosa, pressionando meu corpo nu sem qualquer pudor contra o dela. - Eu claramente não te fodi da forma correta se você acordou com tanto mau humor.

Minhas mãos grandes descem com firmeza pelas laterais do seu corpo, moldando suas curvas por cima do tecido fino da camisa e colando-a ainda mais contra mim. A respiração de Angeline falha de vez, tornando-se pesada e abertamente ofegante.

Um meio sorriso arrogante cruza meus lábios no exato momento em que ela pousa uma das mãos no meu abdômen, deslizando os dedos de forma lenta, calculada e torturante até alcançar a base do meu pau.

- Então faça o serviço direito desta vez, O'Connor - ela sussurra bem próxima ao meu rosto, injetando uma dose cavalar de provocação no olhar. - Porque eu posso te garantir que esta é a última vez que você me toca.

Solto uma risada curta diante de tamanha audácia. Sem pensar muito e sem pedir licença, deslizo meus dedos por baixo da barra da camisa, alcançando o meio de suas pernas e tocando o seu clitóris com precisão absoluta, sentindo-a já completamente úmida.

Os olhos dela se fecham no mesmo instante, tomados por um suspiro e pelo puro prazer que recusa mascarar.

Angeline Vance rebola contra os meus dedos de forma frenética, buscando mais pressão e mais do meu toque. Eu apenas sorrio contra o pescoço dela; ela está muito enganada se acha que esta será a última vez.

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