Capítulo 5 Casados ?
Angeline Vance.
Se eu não me enfiar em um buraco fundo o suficiente para me esconder do caos absoluto que passei a chamar de vida nas últimas seis horas, eu juro que salto de uma porra de um avião sem paraquedas.
O desespero arranha a minha garganta, sufocando-me em uma onda sufocante de pânico, enquanto tento inutilmente processar a espiral de merda que fizemos na noite passada.
Afinal de contas, o desgraçado que disse que não há nada tão ruim que não possa piorar estava coberto de razão.
— Como assim essa aberração não pode ser anulada? — A voz de Daniel ecoa ao meu lado, cortando o ar denso da sala como uma lâmina afiada. O tom dele oscila perigosamente entre a irritação puramente agressiva e um desespero indisfarçável. — Estávamos completamente bêbados! Essa porcaria nem deveria ser considerada legal.
Como diabos o estado permite que duas pessoas assinem papéis oficiais nesse nível de embriaguez?
O homem sentado do outro lado da mesa nem sequer pisca. Com uma calma exasperante, ele apenas ajusta a gola do terno sob medida com uma lentidão calculada, encarando-nos por cima das armações finas dos óculos.
— Compreendo perfeitamente a gravidade da situação, senhor O’Connor, mas precisamos levar em consideração todos os fatos que...
— Quais fatos? — interrompo, a voz subindo uma oitava enquanto meço forças contra a impassibilidade irritante daquele sujeito. — O fato de que a capela mofada desta porcaria de hotel aceitou regularizar a união de duas pessoas que mal conseguiam parar em pé sem tropeçar na própria sombra? Ou o fato ainda mais surreal de terem nos dado ouvidos e incluído a porra de uma cláusula que simplesmente nos impede de pedir o divórcio ou a anulação sem bancar a falência?
O advogado do hotel nos encara com um tédio profundo e indisfarçável estampado no olhar. Ele claramente já presenciou desastres impulsivos parecidos vezes suficientes para saber exatamente o final trágico deste roteiro.
— Senhorita Vance... ou melhor, senhora O’Connor — ele faz uma pausa deliberada, saboreando com sadismo o veneno do meu novo sobrenome, o que faz meu estômago dar voltas completas. — É nítida a sua insatisfação com esta conjuntura um tanto quanto inusitada. No entanto, é preciso ter ciência de que, pelas gravações do circuito interno de segurança, podemos ver perfeitamente que vocês dois concordaram com tal ato. Assim como foram incrivelmente diretos e enfáticos sobre a inclusão da cláusula que impede que o matrimônio seja desfeito.
— NÓS ESTÁVAMOS BÊBADOS, PORRA! — A voz de Daniel ecoa ainda mais alta, fazendo as paredes do escritório vibrarem. Ele passa as mãos irritadas pelos cabelos escuros, puxando os fios até os nós dos dedos ficarem brancos. — Quantas vezes vamos ter que repetir? Estávamos bêbados, drogados, nós sequer sabíamos quem diabos é tínhamos na nossa frente.
— Mas, segundo o que os vocês me relataram minutos atrás, estavam sóbrios o suficiente para consumar o casamento — diz o advogado, o olhar dele deslizando sem pudor entre mim e Daniel, carregado de uma insinuação sórdida que faz meu sangue ferver. — Como vocês próprios acabaram de confirmar ao admitir que acordaram sem roupas na mesma cama. Isso liquida qualquer tentativa simples de invalidação imediata por não consumação. E ainda temos o parágrafo doze do contrato e a cláusula vinte e sete... A qual, torno a afirmar, foi exigência expressa dos senhores e estipula explicitamente que este matrimônio não pode ser desfeito sob nenhuma hipótese pelo período mínimo de doze meses sem a perda de patrimônio.
— Isso é absurdo! Nós jamais seríamos idiotas a ponto de concordar com uma aberração dessas em um contrato! — Daniel intervém, batendo com as duas mãos abertas sobre a mesa de vidro com tanta força que o bule de café estremece.
Ele se levanta em um salto, cego de fúria, andando de um lado a outro na sala como se aquela atitude ridícula fosse resolver algo.
— Principalmente quando nenhum de nós dois jamais quis essa porcaria de casamento! Nós nos odiamos! Esse demônio em forma de mulher tentou me matar envenenado meses atrás, porra. Por que diabos eu me casaria com ela?
— Eu não estou aqui para julgar seus fetiches ou o histórico conturbado do casal, senhor O’Connor. Meu trabalho é defender os interesses do hotel e assegurar que a lei seja rigidamente cumprida — diz o advogado, mantendo uma postura milimetricamente polida enquanto um sorriso imperceptível no canto dos lábios denuncia sua satisfação com o nosso espetáculo. — E, como esse é o meu trabalho, torno a afirmar que essa certidão é totalmente legal, assim como o evento que a acompanha. O que posso sugerir agora é que procurem seus respectivos advogados para buscar uma brecha milionária e tentarem contornar a situação.
Ele ajusta as abotoaduras de prata e se põe de pé, mantendo uma postura impecável. Caminha com calma até a porta do escritório, abrindo-a e indicando-nos a saída com um gesto ensaiado.
— Se me dão licença, ainda tenho assuntos realmente importantes a resolver.
Ele indica o corredor com um gesto mecânico e desprovido de qualquer empatia.
Daniel sai em disparada, a cadeira tombando brutalmente contra o piso de madeira quando ele abandona a sala a passos largos, praticamente cuspindo fogo a cada respiração e de brinde quase leva a mobília junto.
Respiro fundo, buscando o resto de dignidade que me sobrou, pego minha bolsa sobre a poltrona e saio da sala sentindo a sensação amarga de quem conseguiu a proeza de foder com a própria vida da forma mais idiota e irreversível possível.
Meus parabéns, Angeline.
Queria tanto emoção para esquecer o fantasma de Londres que, de brinde, arrumou um pesadelo de aliança no dedo para os próximos doze meses.
Sério, eu realmente preciso rever meus conceitos e atitudes ou daqui a pouco vou acabar acordando bêbada na cama do presidente.
Puta merda.
Eu estou casada... CASADA.
Com Daniel O’Connor, pelos próximos doze meses... Senhor me leva, eu pago o frete. Mas se eles juram que as coisas vão ficar assim, estão muito enganados. Eu vou dar um jeito de acabar com esse casamento, nem que para isso eu fique viúva no processo.
》》☆《《
Abro a porta da minha suíte para encontrá-la totalmente arrumada, exatamente da forma que deixei na noite passada. Sentada no canto do quarto, acomodada em uma poltrona como uma verdadeira assombração, estava Alice.
Ela me encarava com o olhar afiado, como se tentasse decifrar se eu ainda estava viva ou se tinha feito uma merda de proporções monumentais nas últimas horas.
— Bem, você está viva. Isso já é um começo — diz ela, usando exatamente o mesmo tom monótono e clínico que costuma reservar para os imbecis que defende nos tribunais. — Então... sobre ontem à noite...
Um meio sorriso surge em seus lábios e eu estreito os olhos, tudo isso enquanto calculo mentalmente a melhor forma de jogar minha melhor amiga pela janela do décimo andar e fazer parecer um trágico acidente.
— Você... — aponto em sua direção com o indicador trêmulo. — Alice Miller... você fodeu com a minha vida, porra.
Os olhos dela se arregalam em espanto genuíno. A cabeça tomba cerca de noventa graus para a direita enquanto ela me encara como se uma segunda cabeça estivesse surgindo no meu pescoço.
— Amiga, com todo o respeito, quem te fodeu na noite passada foi outra pessoa. Eu nem gosto de mulher — a descarada dá de ombros, um maldito sorriso cínico estampado no rosto. — Mas então... me conta: o gostoso da noite passada valeu a pena?
— PUTA MERDA, ALICE! — Jogo minha bolsa em cima da cama com violência, junto com a pouca dignidade que me resta e a maldita certidão de casamento. — O GOSTOSO DA NOITE PASSADA ERA O DANIEL, PORRA! VOCÊ ME DEIXOU IR PARA A CAMA COM O CARA QUE EU MAIS ODEIO NA FACE DA TERRA...
Alice praticamente salta da poltrona, pondo-se de pé imediatamente. Seus olhos se arregalam tanto que parecem prestes a saltar das órbitas, encarando-me como se eu tivesse acabado de anunciar que decidi largar tudo para virar freira.
— Angie... você bebeu demais — ela diz, caminhando em minha direção com passos lentos e medidos, como quem se aproxima de um animal selvagem prestes a atacar. — Eu estava chapada, admito, mas não o suficiente para não saber diferenciar o Daniel do cara com quem você estava ontem à noite... Ainda mais porque se tem uma coisa da qual eu tenho certeza absoluta é que o Daniel não é loiro.
— Loiro? — Arqueio as sobrancelhas, sentindo um nó se dar no meu estômago. — O Daniel nunca foi loiro, Alice...
— Eu sei muito bem que não! É exatamente por isso que estou dizendo: você não foi embora com o Daniel, porra — agora é a vez dela começar a andar de um lado para o outro pelo quarto, a agitação tomando conta do seu corpo. — Eu nem sabia que aquele babaca estava nesta cidade. Se eu soubesse, teria te arrastado para outro hotel no mesmo segundo.
Ela passa as mãos pelos cabelos, respira fundo e continua sua caminhada inquieta pelo piso de carpete.
— Nós bebemos e usamos algumas drogas, isso é um fato. Conhecemos dois caras, Austin e Declan, nos juntamos a eles e ficamos mais um tempo na boate. Aí o Declan te chamou para ir a um lugar mais reservado... e você sequer pensou duas vezes antes de ir — ela fala, uma ponta de preocupação real finalmente surgindo em sua voz. — Angeline, você inclusive me mandou uma mensagem na metade do caminho avisando que vocês estavam saindo do hotel para ir a sabe-se lá onde.
Pisco algumas vezes, sentindo meu estômago dar voltas violentas enquanto uma onda de calafrios gélidos percorre toda a minha espinha.
— Eu não me lembro disso... Eu não mandei mensagem alguma — digo, forçando a mente a resgatar qualquer resquício da noite passada que não sejam as mãos quentes de Daniel firmes no meu corpo e os nossos gemidos descontrolados ecoando pelo quarto. — E isso nem vem ao caso agora! Se eu saí com um cara qualquer, como diabos eu fui acordar no quarto do Daniel? NA CAMA DELE, PORRA! E por que as únicas lembranças que eu tenho da noite passada são dos nossos corpos juntos e dos nossos gemidos preenchendo o quarto?
Me jogo de costas na cama, sentindo a frustração crescente tomar conta de cada célula do meu corpo, acompanhada por uma irritação sufocante e um pânico sufocante que eu sequer consigo descrever.
— Mais do que isso... como diabos eu acabei me casando com aquele infeliz?
— Levo as mãos ao rosto, cobrindo os olhos enquanto sinto uma vontade imensa e ardente de chorar de raiva. — O QUE EU FIZ PARA ESTAR PAGANDO DESSA FORMA, PORRA?
Abro os olhos e encaro Alice, que está imóvel ao pé da cama, encarando-me de volta. O semblante debochado de minutos atrás foi completamente substituído por um tom nítido de desespero.
— Casada? — ela pergunta, as sobrancelhas arqueadas quase atingindo a linha dos cabelos. — Angie... o quanto você bebeu ontem?
— EU NÃO SEI! — Elevo o tom de voz, a garganta arranhando. — Eu não sei, tá legal? Eu acordei esta manhã na cama daquele desgraçado, com a porra de uma certidão de casamento assinada na mesa de cabeceira e a cabeça rodando como se os alto-falantes da boate ainda estivessem ligados dentro do meu cérebro! Eu estava na sala de um advogado minutos atrás, tentando desfazer essa merda de pesadelo!
Aponto para o papel dobrado e o contrato oficial jogados sobre a colcha. Alice se aproxima em silêncio e pega os documentos. Ela começa a ler cada linha com uma calma analítica e quase irritante, típica de sua profissão, enquanto minha mente vaga em espiral por mil formas diferentes e dolorosas de cometer um homicídio.
Se eu saí daquela boate acompanhada por um cara de quem sequer consigo me lembrar do rosto, como diabo fui parar desnudada na cama de Daniel
O’Connor? O que raios aconteceu nas horas em branco entre o clube e o amanhecer? Como fomos parar naquela maldita capela de Vegas?
E, acima de tudo: quem foi o engraçadinho desgraçado que achou que seria hilário casar duas pessoas completamente bêbadas que se odeiam mais do que tudo no mundo?
