Capítulo 1 Capítulo 1 - O Alfa Que Não Quero
Skylar percebeu que alguma coisa estava errada assim que entrou na sala e encontrou o pai sentado à mesa com aquele jeito sério demais. Anthon não costumava esperá-la daquele modo.
Normalmente estava trabalhando, conversando com algum vizinho ou resolvendo problemas da alcateia. Naquela tarde, porém, ele parecia ter ensaiado cada palavra antes que ela chegasse.
— Sente-se, Skylar. Precisamos conversar.
Ela permaneceu de pé.
— Quando você começa desse jeito, nunca vem coisa boa.
Anthon suspirou e juntou as mãos sobre a mesa. Skylar observou o rosto dele por alguns segundos, sentindo uma inquietação crescer dentro do peito.
Havia dias que Evon a observava ainda mais do que de costume. Onde quer que ela fosse, o Alfa parecia encontrar uma forma de aparecer.
— Evon falou comigo ontem — Anthon começou.
O estômago dela apertou.
— Sobre o quê?
O pai evitou olhar diretamente para ela.
— Sobre você.
Skylar sentiu o coração bater mais rápido. Não porque estivesse surpresa. Evon nunca escondeu o interesse que sentia por ela. Desde que completou dezesseis anos, ele fazia comentários, olhava demais e encontrava desculpas para se aproximar sempre que a Bruma começava.
— Não quero ouvir.
Ela se virou.
— Skylar, sente-se.
— Eu disse que não quero ouvir.
Anthon se levantou.
— Ele pediu você em casamento.
Skylar parou.
Por alguns segundos, o silêncio tomou toda a casa. Ela continuou de costas, tentando entender se realmente havia escutado aquilo. Sua loba se agitou dentro dela, inquieta, como se também rejeitasse a ideia antes mesmo de Skylar conseguir organizar os próprios pensamentos.
Então ela se virou lentamente.
— E você respondeu o quê?
Anthon respirou fundo.
— Eu aceitei.
Foi como levar um golpe no peito. Skylar riu, mas não havia humor algum naquele som.
— Você está brincando comigo.
— Não estou.
— Você aceitou?
— Evon é o Alfa desta alcateia. Ele pode oferecer proteção, segurança e uma vida que muitos desejariam ter.
Skylar encarou o pai com os olhos ardendo.
— Muitos. Eu não.
Anthon balançou a cabeça.
— Você ainda é jovem demais para entender certas coisas.
Aquilo foi suficiente para fazê-la perder o pouco controle que ainda tinha.
— Jovem demais? Eu tenho dezoito anos! E você me prometeu que minha vida seria minha quando eu completasse dezoito!
— Abaixe a voz.
— Não vou abaixar! — Skylar bateu a mão sobre a mesa. — Você passou anos dizendo que eu poderia escolher meu caminho. Que quando fosse adulta, ninguém teria direito de decidir por mim. E agora aparece dizendo que aceitou me entregar para Evon como se estivesse fechando um negócio?
Anthon endureceu o rosto.
— Evon não é qualquer homem.
— Eu sei exatamente quem ele é.
Ela se afastou da mesa.
Skylar conhecia as histórias. Toda a alcateia conhecia. Evon já havia se envolvido com várias mulheres durante a Bruma. Algumas apareciam no dia seguinte sorrindo. Outras evitavam falar sobre o assunto.
Ele era bonito, poderoso e desejado, e parecia acreditar que essas três coisas eram suficientes para conseguir qualquer mulher que quisesse.
Só que Skylar nunca quis ser uma delas.
— Você sabe quantas mulheres ele leva para a cama quando a Bruma chega? — ela perguntou. — Sabe quantas vezes ele já tentou se aproximar de mim?
— Ele é solteiro.
— E isso torna tudo aceitável?
Anthon passou a mão pelo rosto, claramente irritado.
— Você está transformando isso em algo pior do que é.
— Porque para você não é pior. — Ela sentiu a voz falhar. — Não é você que vai se casar com ele.
O pai ficou calado por um instante.
— Evon garantiu que vai respeitar você.
Skylar soltou uma risada amarga.
— Ele respeita tanto que foi conversar com você em vez de vir falar comigo.
Anthon desviou o olhar. Foi nesse momento que ela percebeu. Havia algo mais.
— O que ele ofereceu?
O pai levantou os olhos.
— O quê?
— Não me faça parecer idiota. Você nunca gostou de Evon. Sempre falou que ele era arrogante demais. Agora, de repente, acha que ele é o melhor homem do mundo para sua filha. O que ele ofereceu?
— Isso não importa.
Skylar sentiu o peito apertar ainda mais.
— Então ofereceu alguma coisa.
Anthon caminhou até a janela.
— Ele me convidou para fazer parte do conselho.
Skylar ficou imóvel. O silêncio durou apenas alguns segundos, mas para ela pareceu muito mais.
— Então foi isso? — Anthon se virou. Skylar sentiu os olhos queimarem. — Ele comprou você com uma cadeira no conselho e você resolveu pagar usando a própria filha?
— Cuidado com a forma como fala comigo.
— Por quê? A verdade incomoda?
Anthon bateu a mão sobre a mesa.
— Eu sou seu pai!
— Então deveria agir como um!
O rosto dele mudou.
Skylar percebeu que havia ido longe, mas não conseguia se arrepender. Não naquele momento. Não quando sentia que toda a própria vida havia sido decidida em uma conversa da qual nem sequer participou.
— Você acha que eu quero ser Luna porque outras mulheres querem? — ela continuou. — Acha que posição significa alguma coisa para mim? Eu não quero Evon.
— Você aprenderá a gostar dele.
Skylar sentiu algo quebrar dentro dela.
— Eu não quero aprender.
— O casamento será domingo.
Ela empalideceu.
— Domingo?
— Sim.
— Isso é daqui a poucos dias.
— Quanto antes, melhor.
Skylar encarou o pai, sem reconhecer o homem diante dela.
— Para quem?
Anthon não respondeu. Ela já sabia. Para ele. Para Evon. Para todo mundo, menos para ela.
Skylar virou e saiu de casa antes que começasse a chorar na frente do pai. Escutou Anthon chamá-la, mas continuou andando. Quando chegou ao limite da floresta, começou a correr.
As árvores passaram rapidamente por seus olhos. O vento atingiu seu rosto. Sua respiração ficou pesada, mas ela não parou. Precisava colocar distância entre si e aquela casa, mesmo que fosse apenas por alguns minutos.
Então se transformou. Sua loba cinza tomou o lugar da garota. E correu.
Skylar sentiu o chão úmido sob as patas, o cheiro de madeira, folhas e terra entrando pelos sentidos. Na forma de loba, tudo parecia mais simples. Não havia vestido de casamento. Não havia conselho. Não havia um pai vendendo seu futuro.
Só liberdade.
Ela correu mais rápido.
— "Skylar."
A voz surgiu dentro de sua mente. A maldita ligação da alcateia.
Evon.
Ela rosnou e continuou.
— "Volte."
— "Não."
— "Não estou pedindo."
A raiva explodiu nela.
— "Então vai continuar falando sozinho."
Skylar aumentou a velocidade. Não demorou muito para sentir outros lobos se aproximando. Conhecia aqueles cheiros.
Ray.
Lila.
Ansel.
E Evon.
O enorme lobo marrom surgiu entre as árvores atrás dela. Skylar correu. Mas Evon era mais forte. Mais rápido.
Ele a alcançou e atingiu sua lateral, derrubando-a no chão. Skylar rolou pela terra antes de conseguir se levantar novamente. Evon ficou diante dela.
Grande.
Dominante.
Os outros lobos permaneceram alguns metros atrás. Skylar mostrou os dentes.
— "Não chegue perto de mim."
Evon avançou um passo.
— "Você não deveria ter fugido."
— "Eu vou aonde quiser."
— "Até domingo."
Skylar rosnou.
— "Não existe domingo."
O lobo de Evon inclinou a cabeça.
— "Pode correr quantas vezes quiser, pequena loba. No domingo você estará no meu quarto."
Aquelas palavras fizeram o corpo inteiro dela endurecer.
— "Prefiro atravessar a floresta inteira sozinha."
Evon se aproximou mais.
— "Então eu atravessarei atrás de você."
Skylar encarou os olhos dele. Não havia carinho. Não havia dúvida. Havia certeza. A certeza de um homem que acreditava que já havia vencido.
— "Eu não amo você."
Evon permaneceu calado por um momento. Quando respondeu, sua voz veio fria através da conexão.
— "Não preciso do seu amor para torná-la minha Luna."
Skylar sentiu algo mudar dentro dela.
Até aquele momento, ainda existia uma parte pequena e estúpida que acreditava que talvez alguém fosse escutá-la. Talvez seu pai se arrependesse. Talvez Evon entendesse. Talvez o casamento pudesse ser cancelado.
Naquele instante, essa esperança morreu. Ela olhou para Ray. Depois para Lila. Depois para Ansel. Nenhum deles falou nada. Todos sabiam. Todos aceitavam.
Skylar voltou lentamente para casa cercada pelos lobos de Evon. Não tentou correr novamente. Não discutiu. Não mostrou os dentes.
Ficou quieta. Mas sua mente não estava quieta.
Quando finalmente voltou à forma humana e entrou em casa, encontrou o pai esperando perto da porta.
— Onde você estava com a cabeça?
Skylar passou por ele.
— Pensando.
— Em quê?
Ela parou no primeiro degrau da escada. Olhou por cima do ombro.
— Em nada importante.
Anthon pareceu acreditar. Skylar subiu para o quarto e fechou a porta. Encostou as costas na madeira. Então respirou fundo.
Ninguém perguntaria o que ela queria. Ninguém cancelaria aquele casamento. Ninguém viria salvá-la.
Skylar olhou pela janela para a floresta escura. Durante anos, fugir havia sido apenas uma ideia que aparecia quando as coisas ficavam ruins.
Naquela noite, deixou de ser uma vontade.
Virou um plano.
