Capítulo 2 Capítulo 2 - Antes Que Chegue Domingo
Skylar passou boa parte da noite andando de um lado para o outro dentro do quarto. A frase de Evon continuava presa em sua cabeça como algo sujo que ela não conseguia arrancar.
— “Não preciso do seu amor para torná-la minha Luna.” — Quanto mais lembrava, mais o medo se misturava com raiva.
Ela tinha trancado a porta assim que entrou e ignorado todas as tentativas do pai de falar com ela. Queria ficar sozinha, mas Anthon não parecia disposto a respeitar nem aquilo.
Pouco depois do amanhecer, ele bateu novamente, dessa vez com força suficiente para fazer a madeira vibrar.
— Abra essa porta, Skylar.
Ela continuou sentada na cama, abraçando os joelhos.
— Não.
— Não estou pedindo.
Skylar soltou uma risada amarga.
— Está vendo? Todo mundo nesta casa resolveu parar de pedir qualquer coisa para mim.
Do outro lado, Anthon respirou fundo. Alguns segundos depois, a voz dele veio mais baixa, mas ainda dura.
— Você me envergonhou ontem. Fugiu como uma criança e obrigou o Alfa a ir atrás de você com metade dos homens mais próximos dele.
Skylar se levantou.
— Eu envergonhei você?
— Sim.
Ela caminhou até a porta.
— Não foi você que aceitou meu casamento sem me perguntar nada?
— Estou pensando no seu futuro.
— Não. Está pensando no seu.
Anthon bateu uma vez na porta.
— Pare com essa história.
Skylar abriu de uma vez. Ficou diante do pai com o rosto inchado de tanto chorar, mas não abaixou a cabeça.
— História? Você aceitou uma cadeira no conselho no mesmo momento em que aceitou me entregar para Evon. Quer que eu chame isso de quê?
O rosto de Anthon endureceu.
— De oportunidade.
— Para você.
— Para nós.
— Não existe nós nisso.
Skylar sentiu o peito apertar.
— Existe você ganhando poder e eu indo para a cama de um homem que eu não quero.
Anthon desviou os olhos por um instante.
— Evon vai ser seu marido.
— Isso não muda nada.
— Muda tudo.
— Não para mim.
Anthon passou a mão pelo cabelo, cansado.
— Sua mãe entenderia.
Skylar ficou imóvel. Toda a raiva que sentia mudou de forma.
— Não use minha mãe para justificar o que você está fazendo comigo.
— Sua mãe queria segurança para você.
Skylar abriu ainda mais a porta e encarou o pai.
— Minha mãe teria ficado na frente de Evon e mandado ele passar por cima dela antes de colocar as mãos em mim.
A frase atingiu Anthon. Ela percebeu pela forma como o rosto dele perdeu a firmeza.
— Não fale dela desse jeito.
— Eu estou falando a verdade. — Skylar sentiu lágrimas surgirem novamente, mas se recusou a deixar que caíssem. — Ela não teria me entregado para um homem só porque ele é Alfa.
Anthon ficou calado. Skylar respirou fundo.
— E não tente me convencer de que ele é diferente.
— Evon não é um monstro.
— Eu nunca disse que era.
Ela se aproximou um pouco.
— Mas vi você com Mara três noites atrás.
O pai empalideceu. Mara era a viúva que morava duas casas depois da deles.
— Isso não tem nada a ver com você.
— Tem tudo a ver.
— Skylar.
— Eu vi vocês.
Anthon fechou os olhos por um momento.
— Era Bruma.
A resposta fez o estômago dela revirar.
— Então é isso?
— O instinto lupino pode ser difícil de controlar.
Skylar sentiu um frio estranho apesar do calor que começava a tomar o corpo.
— Difícil de controlar.
— Você sabe como funciona.
— Sei.
Ela engoliu em seco.
— E se homens adultos usam isso como desculpa para perder o controle, o que acontece comigo quando eu estiver sozinha no quarto de Evon? — Anthon abriu a boca, mas nenhuma resposta saiu. Skylar continuou. — Ele já deixou claro que não precisa do meu amor. Você também está dizendo que a Bruma pode fazer um homem perder o controle. Quer que eu fique tranquila com isso?
— Evon não machucaria você.
— Você não pode prometer isso.
A falta de resposta confirmou tudo. Skylar voltou para dentro do quarto e fechou a porta. Dessa vez, Anthon não tentou impedir.
Horas depois, o próprio corpo de Skylar decidiu virar seu inimigo. A Bruma veio forte. Primeiro foi o calor.
Depois a inquietação.
Ela tentou ignorar, mas a sensação cresceu rápido demais. Sua pele ficou sensível, a respiração curta e qualquer cheiro parecia mais intenso do que deveria. Até o perfume amadeirado que entrava pela janela fazia sua loba se mexer dentro dela.
Skylar odiava aquilo.
Odiava sentir que uma parte de si mesma podia querer exatamente o tipo de coisa que sua cabeça rejeitava.
Ela correu para o banheiro e fechou a porta. Sentou no chão frio, apoiando as costas na parede.
— Passa. — Fechou os olhos. — Só precisa passar.
A loba dentro dela estava agitada. Não queria frio. Queria calor. Presença. Toque. Skylar pressionou as mãos contra as pernas.
— Não.
Ela tinha resistido desde os dezesseis anos.
Não seria diferente agora.
A água fria do chuveiro ajudou pouco, mas foi o suficiente para fazer o corpo desacelerar depois de algum tempo. Quando finalmente conseguiu respirar melhor, Skylar ficou parada diante do espelho.
O rosto estava vermelho. Os olhos, cansados.
— Você não manda em mim — falou para o próprio reflexo.
Sua loba pareceu discordar. Pouco depois, alguém bateu à porta do quarto. Skylar se assustou.
— Quem é?
— Sou eu.
Hope.
Ela abriu imediatamente.
A amiga entrou e fechou a porta atrás de si. Bastou olhar para Skylar para perceber que alguma coisa estava errada.
— Você chorou.
Skylar soltou um suspiro.
— Não quero falar sobre isso.
Hope sentou na cama.
— Então eu fico aqui sem falar.
A frase fez Skylar sorrir pela primeira vez desde o dia anterior. Ela sentou ao lado da amiga.
— Meu pai aceitou o casamento.
Hope ficou triste.
— Eu soube.
Skylar olhou para ela.
— Como?
— Todo mundo sabe.
Aquilo doeu mais do que deveria.
— Claro que sabe.
Hope segurou a mão dela.
— Eu sinto muito.
Skylar respirou fundo.
— Você acha que eu estou errada?
Hope hesitou.
— Talvez casar com Evon não seja tão ruim. — Skylar ficou olhando. Hope continuou, mas sua própria voz parecia insegura. — Pelo menos você será Luna. Vai ter posição, respeito...
Skylar segurou o rosto da amiga com cuidado.
— Hope, escute o que está falando. Um homem não ganha o direito de decidir nossa vida só porque colocou os dentes na nossa pele.
Hope abaixou os olhos. A mudança foi tão rápida que Skylar percebeu.
— O que foi?
— Nada.
— Hope.
A amiga puxou o ar.
— Ansel me marcou.
Skylar ficou gelada.
— O quê?
Hope assentiu.
— Foi durante a Bruma.
— Quando?
— Meses atrás.
— E você não me contou?
— Eu tive vergonha.
Skylar sentiu a raiva subir.
— Ele é seu companheiro?
Hope balançou a cabeça.
— Não.
— Então por que ele marcou você?
Hope riu sem humor.
— Porque pôde.
Skylar apertou a mão da amiga.
— E ele vai assumir você?
— Não sei.
— Mas impede outros homens de se aproximarem.
Hope olhou para ela.
— Sim.
Skylar sentiu vontade de quebrar alguma coisa.
— Isso é prisão.
Hope tentou sorrir, mas os olhos encheram de lágrimas.
— É fácil falar quando você ainda conseguiu dizer não.
A frase atingiu Skylar em cheio. Ela abraçou a amiga. Por alguns minutos, nenhuma das duas falou. Depois Hope limpou o rosto.
— Pelo menos esta noite vai estar mais tranquila por aqui.
Skylar franziu a testa.
— Por quê?
— Evon vai ter a despedida de solteiro.
Skylar ficou imóvel.
— Hoje?
— Sim.
Hope soltou uma risada fraca.
— Bebida, mulheres, homens da guarda... vai estar todo mundo ocupado.
Skylar não respondeu. Mas sua mente começou a trabalhar. Todos ocupados. Guardas distraídos. Evon bebendo. Anthon provavelmente dormindo cedo. A oportunidade que ela estava procurando.
Hope percebeu algo na amiga.
— No que está pensando?
Skylar forçou um sorriso.
— Em nada.
Algum tempo depois, Hope se levantou para ir embora. Skylar a abraçou com força. Mais do que deveria. Hope estranhou.
— Por que está me abraçando desse jeito?
Skylar sentiu os olhos queimarem.
— Porque você é a única coisa dessa alcateia de que eu sentiria saudade.
Hope ficou olhando para ela.
— Skylar...
— Vai ficar tudo bem.
A amiga pareceu querer perguntar alguma coisa, mas acabou saindo. Horas depois, a casa estava quieta. Skylar esperou.
Esperou até ouvir a respiração pesada do pai no quarto ao lado. Esperou até não existir nenhum movimento na rua. Então pegou apenas um vestido leve.
Nada de malas. Nada que atrasasse. Abriu a janela dos fundos. O ar frio da madrugada atingiu seu rosto. Skylar olhou uma última vez para o quarto. Depois para a cama. Depois para a foto da mãe sobre a cômoda.
— Me perdoa.
Guardou a imagem na memória. E saiu.
Naquela noite, ela não estava fugindo por impulso. Não estava tentando assustar ninguém. Não pretendia voltar quando amanhecesse.
Dessa vez, Skylar tinha um plano.
E pretendia desaparecer antes que chegasse domingo.
