Capítulo 3 Capítulo 3 - Corra, Pequena Loba
Skylar não olhou para trás quando saiu pelos fundos da casa. Se fizesse isso, talvez perdesse a coragem. Talvez pensasse no pai dormindo no quarto ao lado, em Hope sem saber a verdade, na cama onde havia passado tantos anos e em tudo que estava deixando para trás.
Ela precisava continuar.
A floresta estava escura, fria e silenciosa. Skylar caminhou rápido entre as árvores até ter certeza de que já estava longe o bastante das últimas casas da alcateia. Só então parou, respirando com dificuldade, e olhou ao redor.
Nada. Nenhum movimento. Nenhum cheiro conhecido.
Ela puxou o vestido pela cabeça, ficou nua sob a luz fraca da lua e segurou o tecido entre os dentes. Poucos segundos depois, seu corpo mudou e sua loba cinza tomou seu lugar.
As patas tocaram o chão. E Skylar correu.
Não pensou em destino. Não pensou em comida. Não pensou nem sequer em onde dormiria quando o sol nascesse. Sua única certeza era simples, precisava colocar a maior distância possível entre si e Evon antes que o Alfa descobrisse que ela havia desaparecido.
A primeira noite pareceu não terminar nunca.
Skylar correu até as pernas começarem a doer. Evitava trilhas abertas, atravessava áreas cobertas por árvores e parava apenas o suficiente para recuperar o fôlego. Cada ruído fazia suas orelhas se moverem em alerta.
Por duas vezes, acreditou ter sentido o cheiro de outros lobos. Nas duas, mudou imediatamente de direção.
Não sabia onde começavam ou terminavam os territórios das alcateias daquela região. Se fosse encontrada, poderia ser interrogada. Pior, alguém poderia descobrir quem ela era e avisar Evon.
Skylar conhecia a influência de um Alfa. E conhecia o orgulho dele. Evon não aceitaria que ela simplesmente tivesse fugido.
Quando a manhã chegou, Skylar já estava muito longe de casa. Ainda assim, continuou.
Evon descobriu o desaparecimento pouco depois do amanhecer.
Um dos guardas que normalmente fazia a ronda próxima à casa de Anthon percebeu a janela aberta e avisou Ray. Em poucos minutos, a notícia chegou ao Alfa.
A reação foi imediata.
Evon atravessou a alcateia com passos pesados e entrou na casa de Anthon sem bater. O barulho da porta atingindo a parede fez o homem aparecer no corredor, assustado.
— O que aconteceu?
Evon foi direto até ele.
— Onde ela está?
Anthon franziu a testa.
— Quem?
O Alfa segurou sua camisa e o puxou para perto.
— Não teste minha paciência. Skylar sumiu.
O rosto de Anthon perdeu a cor.
— O quê?
— A janela estava aberta. O quarto está vazio. Não sinto a presença dela.
Anthon tentou se soltar.
— Eu não sei onde ela está!
Evon apertou mais o tecido.
— Ela é sua filha!
— Eu sei que é minha filha!
— Então devia saber o que se passa na cabeça dela!
Anthon perdeu o medo por um instante.
— E você era o homem que deveria convencê-la a querer ficar, não assustá-la até ela fugir de você!
A frase fez o rosto de Evon endurecer. Ele empurrou Anthon contra a parede.
— Cuidado.
Anthon bateu as costas com força, mas não desviou os olhos.
— Eu avisei que ela não queria esse casamento.
— Skylar é minha noiva.
Foi naquele momento que alguma coisa mudou em Anthon. Talvez fosse culpa. Talvez fosse medo. Ou talvez finalmente tivesse entendido o tamanho do erro cometido.
Ele respirou fundo e respondeu:
— Não. Ela era uma garota apavorada que nenhum de nós resolveu escutar.
Evon ficou imóvel. Por um instante, o silêncio tomou a sala. Então ele soltou Anthon.
— Ray!
O homem apareceu na porta segundos depois.
— Alfa.
— Quero rastros. Cheiros. Pegadas. Qualquer coisa.
Ray assentiu.
— Vou chamar os batedores.
— Divida os homens. Estradas, rios, fronteiras. Quero gente em todas as rotas.
Anthon olhou para Evon.
— Talvez ela não queira ser encontrada.
Evon virou lentamente.
— Isso não muda nada.
— Para ela muda.
— Ela voltará.
Anthon não respondeu. Pela primeira vez, não parecia ter certeza.
Hope ouviu parte da movimentação do lado de fora.
Tinha saído cedo para buscar água quando viu homens atravessando a rua, alguns já em forma de lobo. Ray dava ordens perto da casa de Skylar.
O coração dela acelerou. A lembrança do abraço da noite anterior voltou com força.
— “Porque você é a única coisa dessa alcateia de que eu sentiria saudade.”
Hope parou. Agora entendia. Aquilo não tinha sido apenas carinho. Tinha sido despedida. Ansel apareceu pouco depois.
— Entre em casa, Hope.
Ela olhou para ele.
— Skylar fugiu? — Ele não respondeu de imediato. Isso já foi suficiente. — Fugiu, não foi?
Ansel se aproximou.
— Não se envolva.
Hope apertou os dedos.
— Ela me abraçou ontem.
Ansel ficou atento.
— Ela contou para onde iria?
Hope pensou em Skylar. Pensou na expressão dela. No medo. Na forma como tinha segurado seu rosto e dito que nenhum homem ganhava o direito de decidir a vida de uma mulher.
Então olhou para Ansel.
— Não.
Era verdade. Skylar não havia contado. Mas Hope sabia mais do que queria admitir. Sabia que a amiga não pretendia voltar. E guardou aquilo para si.
Os dias seguintes foram brutais.
Skylar perdeu a noção exata do tempo.
Corria durante horas. Dormia pouco. Acordava assustada com qualquer barulho. Mudava de direção sempre que sentia cheiro de lobo ou fumaça de cidade.
Quando precisava de água, procurava rios. Quando a fome ficava insuportável, caçava. Em alguns dias conseguia coelhos pequenos. Em outros, não conseguia nada.
O vestido que carregava entre os dentes começou a ficar sujo e rasgado. As patas doíam. O pelo estava marcado por lama e folhas secas.
Mesmo assim, Skylar continuava. Às vezes, durante a corrida, pensava em Hope. Em outras, lembrava do pai. Essas lembranças eram as piores. Ela odiava Anthon naquele momento. Mas ainda o amava.
E isso tornava tudo mais difícil.
Certa noite, depois de beber água em um rio, Skylar voltou à forma humana por alguns minutos. Sentou em uma pedra e abraçou as próprias pernas.
— Você conseguiu estragar tudo — falou baixinho, pensando no pai. Os olhos arderam. Ela balançou a cabeça. — Não. Ele estragou.
Precisava acreditar nisso. Precisava lembrar por que estava correndo. Evon. O casamento. Domingo. O quarto dele. Skylar fechou os olhos e ouviu novamente a voz dentro de sua cabeça.
— “Não preciso do seu amor para torná-la minha Luna.”
Ela levantou imediatamente. A tristeza virou combustível. Pouco depois, estava correndo novamente.
Evon também não parou. Todos os dias recebia notícias. Pegadas perto de uma estrada. Um cheiro fraco perto de um rio. Uma loba cinza vista ao longe. Nenhuma informação era suficiente.
Ray retornou na manhã do terceiro dia com o rosto cansado.
— Ela está evitando estradas.
Evon estava diante de um mapa.
— Eu sei.
— Se continuar assim, vai atravessar outro Estado.
— Então seguimos.
Ray hesitou.
— Alfa, os homens estão cansados.
Evon levantou os olhos.
— Ela também está.
— Talvez isso seja exatamente o que ela quer. Que a gente continue atrás dela até ninguém mais conseguir acompanhar.
Evon se aproximou.
— Você está sugerindo que eu desista?
Ray sustentou o olhar.
— Estou dizendo que ela não está fugindo sem pensar.
Essa verdade irritou Evon mais do que deveria. Skylar tinha planejado aquilo. Escolhido o momento. Esperado a despedida de solteiro. Esperado a guarda baixar.
— Encontre ela — Evon ordenou.
Ray assentiu.
— Sim, Alfa.
Skylar atravessou três Estados antes de permitir que o corpo finalmente vencesse. Não sentia mais cheiro conhecido havia muito tempo.
Nenhum rastro de Evon. Nenhum dos homens da antiga alcateia. Nenhum sinal de perseguição. As pernas mal conseguiam sustentá-la.
Ela entrou em uma floresta densa e silenciosa, encontrou uma área próxima a uma grande árvore e finalmente parou.
Retornou à forma humana com dificuldade. O corpo doía inteiro. Skylar colocou o vestido amarrotado e rasgado. O tecido mal parecia a mesma peça que havia levado de casa.
Ela se apoiou no tronco.
— Só alguns minutos. — A voz saiu fraca. — Depois continuo.
Sentou-se. Puxou os joelhos contra o peito. O silêncio parecia diferente ali. Não assustador. Calmo.
Pela primeira vez em dias, Skylar deixou os olhos fecharem sem lutar contra o sono. Adormeceu quase imediatamente.
Horas depois, um lobo negro atravessou aquela mesma floresta.
Grande.
Pesado.
Solitário.
Ayres estava caçando quando parou de repente. Seu focinho se ergueu. Um cheiro diferente atravessou o ar. Fêmea. Ele deu mais alguns passos. O lobo dentro dele reagiu com força.
Ayres parou. Não. Não era apenas uma fêmea. Era algo muito mais profundo. Mais antigo. Mais perigoso.
Ela.
Ayres seguiu o cheiro até encontrar a enorme árvore. E então a viu. Uma jovem dormia encostada ao tronco, exausta, com o vestido sujo e os cabelos espalhados pelo rosto.
Ayres retornou à forma humana. Ficou parado. Observando. Seu coração bateu de um jeito que não batia havia anos.
Depois de tudo que perdeu, havia parado de acreditar que a Deusa da Lua ainda pudesse reservar alguma coisa para ele.
Sua alcateia.
Sua família.
Seu futuro.
Tudo tinha desaparecido.
Ayres fechou os olhos por um instante.
— Não. — Seu lobo se agitou dentro dele. Ayres olhou novamente para a jovem. — Não faça isso comigo.
O instinto respondeu sem qualquer dúvida.
— “Companheira.”
Ayres respirou fundo. Aquela palavra quase doeu. Ele se aproximou. Skylar não acordou. Estava cansada demais. Ayres a pegou nos braços com cuidado. E a levou.
Algum tempo depois, Skylar abriu os olhos. Não viu a árvore. Não viu a floresta. Viu madeira. Paredes. Uma cabana. Tentou se mover. Então percebeu braços fortes envolvendo seu corpo.
Um homem. Desconhecido. Skylar puxou o ar para gritar. Não teve tempo. Uma dor aguda atravessou seu ombro. Dentes. Presos em sua pele.
Seu corpo inteiro ficou rígido.
E antes que pudesse entender onde estava ou quem a segurava, uma única certeza explodiu em sua mente.
Aquele homem estava marcando ela.
