Capítulo 4 Capítulo 4 - Você Me Marcou?
A dor explodiu pelo ombro de Skylar antes mesmo que ela entendesse onde estava.
Seus olhos se abriram de repente, o corpo reagindo por puro instinto. Ela tentou se mover, mas havia braços fortes ao redor dela. O cheiro de madeira, fumaça e um homem desconhecido invadiu seus sentidos.
Por um segundo, pensou em Evon. O medo veio tão rápido que quase sufocou. Então percebeu os dentes presos em sua pele. E a verdade foi ainda pior.
Marca.
— Me solte! — Skylar gritou, começando a lutar. — Tire as mãos de mim!
O homem atrás dela não soltou imediatamente.
Skylar tentou acertá-lo com o cotovelo, arranhar, chutar, qualquer coisa que o obrigasse a parar. Seu coração parecia querer rasgar o peito. Sua loba também estava agitada, mas de uma maneira que Skylar não entendia.
Os dentes finalmente deixaram sua pele. Ela se afastou tão rápido que quase caiu.
— Não encoste em mim!
Skylar segurou o próprio ombro. Quando afastou a mão, viu sangue nos dedos. Ficou olhando para aquilo por alguns segundos, completamente sem acreditar.
Então levantou os olhos. Foi a primeira vez que viu o homem. Ele era enorme.
Muito mais alto do que ela. Ombros largos, corpo forte, cabelos negros um pouco bagunçados e uma barba curta cobrindo parte do rosto. Seus olhos eram escuros e pesados, marcados por alguma tristeza que parecia morar ali havia muito tempo.
Skylar não se importou. Poderia ser o homem mais bonito do mundo. Ainda seria o homem que tinha acabado de colocar os dentes nela enquanto estava inconsciente.
— Você me marcou!
Ele permaneceu parado.
— Eu sei.
Skylar soltou uma risada de puro choque.
— Você sabe?
O homem franziu a testa.
— Sim.
— É só isso que tem para falar?
Ele passou a mão pelo cabelo, como se também estivesse tentando entender a situação.
— Seu cheiro estava enlouquecendo meu lobo. Quando encontrei você...
Skylar deu um passo na direção dele.
— Quando encontrou uma mulher inconsciente, resolveu mordê-la?
A frase o atingiu. Ela percebeu. O homem ficou em silêncio por alguns segundos.
— Não foi assim.
— Foi exatamente assim!
— Você é minha companheira.
Skylar ficou imóvel. Por um instante, teve vontade de rir. Depois riu mesmo. Mas não havia alegria nenhuma.
— Claro.
O desconhecido observou.
— O quê?
Skylar passou a mão pelo rosto.
— Claro que seria isso.
— Eu não estou entendendo.
— Eu atravessei três Estados fugindo de um Alfa que acredita ter direito sobre mim. — Ela apontou para o próprio ombro. — E acordo marcada por outro. Porque com toda certeza você é um Alfa.
O rosto dele mudou.
— Quem estava perseguindo você?
Skylar soltou o braço.
— Isso não é problema seu.
— Agora é.
Ela encarou diretamente aqueles olhos.
— Não.
— Ele estava atrás de você?
— Eu disse que não é problema seu.
O homem deu um passo. Skylar não recuou.
— Se alguém estava caçando você...
— Pare.
— Preciso saber.
— Você não precisa saber absolutamente nada sobre mim.
Ele fechou o maxilar.
— Você está no meu território.
— Eu não pedi para estar. — Skylar sentiu o coração ainda acelerado. — Você me encontrou onde?
— Na floresta.
— E me trouxe para cá?
— Sim.
— Sem acordar?
— Você estava exausta.
Skylar balançou a cabeça.
— Impressionante.
— O quê?
— A quantidade de decisões que você conseguiu tomar por mim enquanto eu estava apagada.
O homem ficou calado novamente. Ela percebeu que aquilo o atingia mais do que os gritos. Mas Skylar não queria saber se estava ferindo o orgulho dele. Queria sair dali.
— Qual é seu nome?
— Ayres.
— Certo, Ayres. — Skylar apontou para ele. — Isso aqui não transforma minha vida em problema seu. — Depois tocou o próprio ombro. — Muito menos me transforma em propriedade sua.
O olhar de Ayres ficou mais pesado.
— Nunca disse que você é minha propriedade.
— Você acabou de dizer que sou sua companheira.
— Porque é.
— E isso significa o quê para você?
Ayres respirou fundo.
— Que a Deusa da Lua escolheu você para mim.
Skylar soltou uma risada amarga.
— Fantástico.
— Não estou brincando.
— Eu também não. — Ela se aproximou. — Então aprenda a primeira coisa sobre sua companheira. — Ayres ficou parado. Skylar ergueu o queixo. — Eu odeio homens que confundem destino com permissão.
Ayres não respondeu. O silêncio entre os dois ficou pesado. Por alguns segundos, Skylar acreditou que ele discutiria. Que diria ser Alfa. Que usaria força.
Que repetiria as mesmas palavras de Evon com outro rosto. Mas Ayres apenas desviou os olhos.
— Você está certa.
Skylar franziu a testa.
— O quê?
Ele demorou um pouco.
— Eu deveria ter esperado você acordar.
Skylar ficou tão surpresa que quase perdeu a resposta.
— Mas não esperou.
— Não.
— Então não tente fazer parecer bonito.
Ayres levantou os olhos.
— Não estou tentando.
A sinceridade irritou Skylar de uma forma estranha. Ela preferia que ele fosse arrogante. Seria mais fácil odiá-lo.
— Quero ir embora.
Ayres olhou para a porta.
— Você mal consegue ficar em pé.
— Isso é problema meu.
Skylar começou a andar. O chão pareceu se mover sob seus pés. Ela ignorou. Deu mais um passo. As pernas falharam. Antes que caísse, Ayres a segurou pela cintura.
O contato provocou algo imediato. Skylar puxou o ar. A marca queimou. Não como antes. Agora parecia quente. Viva.
Uma onda estranha atravessou seu corpo e encontrou alguma coisa dentro dela. Sua loba se agitou. Ayres também ficou rígido. A respiração dele mudou. Skylar percebeu.
O rosto dos dois estava perto demais. Ela sentiu o cheiro dele com uma clareza absurda. Madeira. Floresta. Algo masculino e quente que fez seu corpo reagir antes que sua cabeça pudesse impedir.
Skylar empurrou Ayres.
— Não toque em mim.
Ele soltou imediatamente. Sem discussão. Sem reclamar. Sem tentar segurá-la outra vez. Skylar ficou parada. Aquilo a surpreendeu. Ayres recuou dois passos.
— Tudo bem. — Ela não sabia o que responder. — Vou pegar água.
— Não quero nada de você.
Ayres respirou fundo.
— Ainda precisa beber.
Skylar cruzou os braços.
— Você sempre é assim?
— Assim como?
— Mandão.
— Não mandei.
— Quase. — Uma pequena mudança apareceu no rosto dele. Quase um sorriso. Skylar ficou ainda mais irritada. — Não sorria.
— Não estou sorrindo.
— Está quase.
— Talvez.
Ela revirou os olhos.
— Insuportável.
Ayres caminhou até uma pequena mesa e pegou um copo de água. Colocou sobre o móvel, longe o suficiente para não precisar se aproximar.
— Vou deixar aqui.
Skylar olhou para o copo.
— E depois?
— Depois vou sair do quarto.
— Ótimo.
Ayres começou a andar. Parou perto da porta. Olhou para Skylar. Havia alguma coisa diferente em sua expressão agora. Menos força. Mais cuidado.
— Pode me odiar hoje, pequena loba. — Skylar estreitou os olhos. Ayres continuou: — Mas não vou obrigar você a dividir minha cama.
Ela ficou imóvel. A frase tocou exatamente na ferida que Evon havia deixado. Mas Skylar não queria sentir alívio. Não tão cedo.
— Não me chame de pequena loba!
Ayres virou de costas. Dessa vez, o sorriso apareceu. Pequeno. Quase esquecido. Talvez fosse o primeiro em anos.
— Então pare de rosnar para mim como uma.
Skylar olhou ao redor. Encontrou uma almofada sobre a cama. Pegou.
— Ayres!
Ele fechou a porta no mesmo momento em que ela jogou. A almofada bateu na madeira. Skylar ficou olhando para a porta.
— Idiota.
Do outro lado, ouviu uma risada baixa. Ela bufou. Então tocou o ombro novamente. A marca estava lá.
Real.
Quente.
Viva.
Skylar fechou os olhos. O medo voltou. Ela tinha fugido para não pertencer a Evon. Agora outro Alfa havia colocado sua marca nela. Mas existia uma diferença que Skylar ainda não queria admitir.
Quando ela mandou Ayres soltá-la… ele soltou.
Ela olhou para a porta.
— Isso não muda nada — falou para si mesma. Sua loba se mexeu dentro dela. Skylar apertou os lábios. — Não comece.
A loba permaneceu inquieta. Skylar sabia exatamente por quê. Por mais que odiasse admitir… uma parte dela tinha reconhecido Ayres antes mesmo de descobrir seu nome.
