Capítulo 5 Capítulo 5 - Não Sou Sua Luna

Skylar acordou antes do sol nascer por completo.

Por alguns segundos, ficou imóvel, olhando para o teto de madeira sem lembrar onde estava. Então o ombro latejou, e tudo voltou de uma vez. A floresta. O homem desconhecido. Os dentes em sua pele.

A marca.

Ela fechou os olhos e soltou o ar devagar.

— Ótimo.

A palavra saiu carregada de irritação.

Skylar levou os dedos até o ombro e tocou a pele com cuidado. A marca ainda estava sensível. Não doía como na noite anterior, mas parecia quente demais, como se alguma coisa tivesse ficado viva debaixo de sua pele.

E aquilo não era o pior. O pior era sentir Ayres. Ela não sabia explicar. Quando ele estava perto, alguma parte dela ficava alerta.

Quando ele se afastava, surgia uma inquietação estranha no peito, como se seu corpo percebesse a ausência dele antes mesmo de sua cabeça.

Skylar odiava aquilo. Odiava ainda mais porque sua loba parecia gostar.

— Nem comece — avisou para si mesma enquanto saía da cama.

O vestido estava amassado e sujo, mas era tudo que tinha. Skylar ajeitou o tecido do jeito que conseguiu e saiu do quarto.

O cheiro de comida chegou primeiro. Depois veio o cheiro dele.

Ayres.

Seu corpo reagiu imediatamente. A marca esquentou. Skylar travou o maxilar.

— Ridículo.

Ayres estava perto do fogão, preparando alguma coisa em uma panela. Usava uma calça escura e uma camisa aberta no pescoço. Quando percebeu a presença dela, virou o rosto.

— Bom dia, pequena Loba.

— Não sei se chamaria assim.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Dormiu mal?

— Acordei em uma cabana desconhecida, marcada por um estranho. Já tive manhãs melhores.

Ayres continuou mexendo a comida.

— Fiz ovos e carne.

— Não estou com fome.

A barriga de Skylar escolheu aquele momento para reclamar. Ayres olhou para ela. Skylar ficou irritada.

— Não diga nada.

Um pequeno sorriso apareceu no rosto dele.

— Não falei.

— Mas pensou.

— Isso é problema seu.

Ela bufou e cruzou os braços.

— Preciso saber onde estou.

Ayres colocou a colher de lado.

— Aos pés da Montanha de Silvercrest.

Skylar repetiu mentalmente o nome. Não conhecia. Isso provavelmente significava que tinha ido mais longe do que imaginava.

— Ótimo. Agora preciso saber qual estrada me leva para longe daqui.

Ayres apoiou as mãos na mesa.

— Você mal consegue ficar de pé.

— Posso rastejar.

— Skylar...

Ela congelou. O silêncio entre os dois mudou completamente. Skylar estreitou os olhos.

— Como sabe meu nome?

Ayres percebeu imediatamente que havia cometido um erro.

— Você falou enquanto dormia.

— Eu falei o quê?

— Seu nome.

— Só isso? — Ayres hesitou. Skylar deu um passo. — Só isso?

— Também falou Hope algumas vezes.

O rosto dela perdeu parte da raiva. Hope. A saudade surgiu rápido demais. Skylar desviou os olhos.

— Não significa nada.

Ayres percebeu que significava. Mas não insistiu.

— Meu nome é Ayres.

Ela olhou novamente.

— Eu sei.

— Como?

Skylar cruzou os braços.

— Você falou ontem.

Ele assentiu.

— Certo.

Ela ficou observando. Existia alguma coisa estranha nele. Ayres tinha postura de líder. A forma como se movia, como ocupava espaço, como analisava tudo ao redor. Era algo que Skylar reconhecia porque cresceu cercada por homens de uma alcateia.

— Você é Alfa. Não negue, reconheço quando vejo um.

Não foi uma pergunta. Ayres ficou quieto por alguns segundos.

— Fui.

Skylar franziu a testa.

— Foi?

— Sim.

— E agora?

Ele voltou para a panela.

— Agora sou apenas Ayres.

A resposta não satisfez.

— Isso não existe.

Ayres olhou por cima do ombro.

— O quê?

— Um Alfa não deixa de ser Alfa porque decidiu morar sozinho numa cabana.

A expressão dele mudou. Skylar percebeu imediatamente que havia tocado em alguma coisa.

— Eu tinha uma alcateia.

Ela prestou atenção no verbo.

— Tinha?

Ayres ficou sério.

— Não quero falar sobre isso.

Skylar soltou uma risada curta.

— Claro.

— Claro o quê?

— Você quer saber tudo sobre minha vida, mas sua história é proibida. — Ayres ficou imóvel. Ela continuou: — Ontem perguntou quem estava me perseguindo. Queria saber de onde eu vim. Quase exigiu respostas. Mas agora que sou eu perguntando, resolveu que não quer falar.

Ayres abaixou um pouco o rosto.

— Você tem razão.

Skylar não esperava aquilo.

— Tenho?

— Tem.

Ele voltou a mexer a comida.

— Não posso exigir algo que não estou disposto a oferecer.

Skylar ficou olhando para ele por alguns segundos. Aquilo era irritante. Mais uma vez, Ayres escolhia não agir como Evon. E isso tornava tudo mais complicado. Ela precisava odiá-lo. Seria muito mais fácil.

— Ainda vou embora.

— Eu sei.

Skylar estreitou os olhos.

— Não vai tentar impedir?

Ayres virou.

— Você quer que eu impeça?

— Não.

— Então não.

A resposta veio simples. Skylar odiou sentir alívio.

— Ótimo.

Ela se afastou da mesa. Ayres chamou:

— Luna.

Skylar parou. Virou devagar.

— Não.

Ele franziu a testa.

— O quê?

— Não me chame assim.

— Você é minha Luna.

— Não sou.

— Minha marca está no seu ombro.

Skylar caminhou até ele. Ficou perto. Perto o suficiente para perceber como ele era alto. Perto o suficiente para sentir novamente a marca ficando quente. Mas não recuou.

— Uma marca prova que seus dentes funcionam. — Ayres ficou olhando para ela. Skylar tocou o próprio peito. — Não prova que meu coração pertence a você.

A frase atingiu Ayres de um jeito que ela percebeu na mesma hora. O rosto dele endureceu. Não por raiva. Por dor. Skylar quase perguntou por quê. Quase. Mas não perguntou. Virou as costas.

— E pare de me chamar de Luna.

— Vou tentar.

Ela olhou novamente.

— Vai tentar?

Ayres ergueu uma sobrancelha.

— Estou aprendendo.

Skylar bufou.

— Aprenda rápido.

O resto da manhã foi uma guerra silenciosa.

Skylar acabou comendo porque estava realmente faminta, mas se recusou a sentar do outro lado da mesa como se aquilo fosse uma manhã normal.

Ayres também não insistiu.

Depois mostrou onde havia água, algumas roupas antigas e um pequeno banheiro nos fundos da cabana. Skylar desconfiou de tudo.

— Essas roupas eram de quem?

Ayres ficou parado.

— Da minha irmã.

A resposta veio rápida. Skylar percebeu novamente aquela sombra nos olhos dele.

— Onde ela está?

O silêncio respondeu primeiro.

— Não está mais aqui.

Skylar não insistiu. Pela primeira vez, percebeu que aquela cabana não era apenas um lugar onde Ayres vivia. Era um esconderijo. E talvez também fosse uma prisão.

Horas depois, a Bruma voltou. Skylar percebeu primeiro pelo calor. Depois pela sensibilidade da pele. Depois pelo cheiro.

Ayres.

O cheiro dele atravessou a cabana com força suficiente para fazer sua loba despertar dentro dela. Skylar parou no corredor.

— Não.

O corpo não parecia interessado em ouvir. A marca começou a esquentar. Ela puxou o ar. Aquilo nunca tinha acontecido antes. Durante outras Brumas, sentia desejo.

Incômodo.

Necessidade.

Mas nunca por um homem específico. Agora tudo nela parecia procurar Ayres. Skylar correu para o quarto. Fechou a porta. Girou a chave. Encostou as costas na madeira.

— Passa. — Respirou fundo. — Você já fez isso antes.

Mas daquela vez era diferente. A loba estava agitada. A marca parecia pulsar. E o cheiro dele continuava ali. Do outro lado da casa, Ayres parou de repente.

Sentiu.

Não sabia exatamente como. Mas sentiu.

Calor.

Agitação.

Desejo.

Skylar.

Ele fechou os olhos. Seu lobo avançou dentro dele.

— “Companheira.”

Ayres apertou os punhos. O instinto gritava para ir até ela. Entrar. Tomar. Completar o vínculo que começou com a marca.

Ayres ficou parado. A respiração pesada. As mãos fechadas.

— Não.

Ele não faria aquilo. Não depois de ouvir Skylar dizer que fugira de um homem que acreditava ter direito sobre ela. Ayres caminhou até a porta do quarto. Parou do lado de fora.

— Skylar.

Ela fechou os olhos.

— Vá embora!

Ayres encostou a testa na madeira.

— Eu consigo sentir o que está acontecendo com você.

Skylar ficou imóvel. O calor pareceu diminuir por um segundo.

— Como?

Ayres respirou fundo.

— O seu cheiro. Doce.

O medo chegou primeiro. Skylar sentiu o peito apertar. Mas então alguma coisa estranha aconteceu. Uma emoção surgiu dentro dela. Não era sua. Skylar levou a mão ao peito.

Dor. Uma dor antiga. Profunda. Depois veio solidão. Tão intensa que seus olhos encheram de lágrimas sem motivo. Então desejo. Forte. Quente. Mas controlado.

E por baixo de tudo aquilo, uma necessidade desesperada de protegê-la. Skylar abriu os olhos. Ficou olhando para a porta.

— Ayres?

— Estou aqui.

Ela destrancou devagar. Abriu. Ayres estava do outro lado. Respirava com dificuldade. Os braços estavam tensos. Os olhos escuros pareciam diferentes. Mas ele mantinha distância. Skylar colocou a mão no peito.

— Isso que estou sentindo...

Ayres observou.

— O quê?

— Não é meu.

Ele ficou imóvel. Naquele instante, outra coisa aconteceu. Ayres sentiu medo. Não o próprio. O dela. O medo de perder o controle. De ser presa.

De ter fugido tanto para terminar exatamente onde começou.

Ayres respirou fundo.

— Não.

Skylar empalideceu.

— É seu?

Ele deu apenas um passo. Parou.

— Acho que a marca fez mais do que ligar nossos lobos.

Skylar ficou olhando para ele. Então outra onda atravessou seu peito. Mais forte. Ela reconheceu. Medo. Mas não era medo dela. Ayres não estava com medo de Skylar.

Estava com medo de perdê-la. A percepção deixou Skylar sem palavras. O homem diante dela continuava sendo o Alfa que a marcou sem permissão.

Ela ainda estava furiosa. Ainda queria liberdade. Ainda não era sua Luna. Mas, pela primeira vez desde que acordara naquela cabana, Skylar percebeu uma coisa que não esperava.

Ayres estava tão assustado com aquela ligação quanto ela.

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