Capítulo 1 Quando tudo começou

Melissa

O som do chuveiro sendo desligado foi o que finalmente me arrancou de um sono profundo.

Pisquei algumas vezes, confusa, tentando entender onde estava. A luz que entrava pela janela parecia forte demais, quase agressiva. Minha cabeça latejava, como se alguém martelasse por dentro. O gosto amargo na boca denunciava o excesso de bebida, e meu corpo inteiro parecia pesado, dolorido, como depois de uma noite longa demais.

Respirei fundo — e travei.

Ao tentar me mexer, senti um peso quente e firme ao redor da minha cintura. Um braço tatuado.

O choque foi imediato. Abri os olhos de vez, o coração disparando, ignorando a tontura que fez o quarto girar por um segundo.

À minha esquerda, Escorpião dormia profundamente. O rosto relaxado demais para alguém com a fama que carregava. A cicatriz no supercílio, a barba por fazer, o peito nu subindo e descendo com tranquilidade absoluta — como se aquele quarto fosse exatamente onde ele deveria estar.

Eu, por outro lado, senti um frio subir pela espinha.

Aquilo estava errado.

Muito errado.

O lençol macio contra a minha pele nua confirmou o que eu ainda não queria aceitar. Não reconhecia o quarto, não reconhecia aquela cama. Tudo ali cheirava a poder, a dinheiro, a território. Não era um lugar comum. Era um lugar onde decisões eram tomadas — e não questionadas.

Fragmentos da noite começaram a surgir, desconexos.

O som do baile. O grave do paredão vibrando no peito. As luzes coloridas cortando a escuridão. Eu rindo mais alto do que de costume, o copo nunca vazio. Gim, depois vodka. A sensação de estar leve demais, solta demais.

Um toque no ombro.

O sorriso de Escorpião surgindo no meio da multidão, fácil, confiante, como se já me conhecesse. Nós dançamos colados. O mundo ficando distante. O meu riso contra o pescoço dele. O beijo roubado — e aceito — em meio ao caos do baile.

Depois disso... nada inteiro. Só flashes quebrados. Escadas. Risadas. Vozes graves.

Antes que conseguisse juntar as peças, a porta do banheiro se abriu.

Senti o ar sumir dos meus pulmões.

Pesadelo surgiu à frente da cama.

Imponente. Silencioso. Dono de tudo.

Vestia apenas uma toalha baixa na cintura, gotas de água escorrendo pelo peito marcado por cicatrizes. Histórias de quem manda, de quem decide, de quem não precisa repetir ordens.

Quando os olhos dele encontraram os meus, o quarto pareceu encolher.

Por instinto, puxei o lençol contra o meu corpo, o coração quase saltando pela boca. Não sabia se esperava frieza, irritação ou algo pior.

O que veio foi um silêncio pesado.

Pesadelo me observou com calma excessiva, o olhar lento, avaliando — não o meu corpo, mas a situação. Como quem confirma algo que já sabia.

— Acordou — A voz era um trovão baixo, sem pressa, carregada de um controle absoluto.

Engoli em seco, a garganta seca demais para palavras elaboradas.

— Eu... — tentei, mas a voz falhou. Respirei fundo. — Onde eu tô?

Pesadelo não se mexeu.

— Na minha casa.

A resposta caiu como um peso.

Ele se aproximou apenas o suficiente para ser sentido, não tocou em mim, mas a presença bastava para me deixar em alerta.

— Relaxa. Está tudo bem. Você está segura aqui.

Segura. A palavra soava irônica e, ao mesmo tempo, estranhamente real. Estar sob aquele teto era estar sob a proteção mais absoluta e perigosa da cidade.

Escorpião se mexeu ao meu lado, resmungou algo incompreensível e abriu os olhos devagar, sorrindo ao perceber a cena.

— Bom dia... — disse, tranquilo demais. — Parece que alguém acordou no lugar errado.

Senti o chão desaparecer sob os meus pés.

As minhas memórias ainda eram um quebra-cabeça.

Mas, pelo jeito que Pesadelo me olhava, alguma coisa tinha acontecido.

E não era algo que pudesse ser desfeito.

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