Capítulo 2 Flash

Melissa

Escorpião se espreguiçou com uma lentidão quase insolente, como quem acordava sem pressa num domingo qualquer. Bastaram poucos segundos para que ele captasse o quadro inteiro: eu pálida, encolhida sob o lençol, o olhar perdido entre o medo e a confusão — e Pesadelo, parado no meio do quarto, imóvel, sólido como uma sentença prestes a ser lida.

A cena não despertou tensão nele.

Despertou prazer.

Escorpião soltou uma risada rouca, baixa, carregada de diversão.

— Ih... olha a cara dela, Pesadelo. Parece que viu o capeta em pessoa.

Meu coração batia forte. Eu alternava o olhar entre os dois, tentando entender como o homem que, horas antes, era só um desconhecido carismático no meio do baile... e o homem que personificava tudo o que eu temia no Morro... estavam tão à vontade.

Tão alinhados.

Era isso que mais me apavorava.

— Relaxa, pequena — Escorpião continuou — Tu bebeu como se o mundo fosse acabar. Deu trabalho pra subir a ladeira, não vou mentir... mas a companhia compensou demais..

Pesadelo não riu.

Nem comentou

Deu apenas um passo à frente.

Foi o suficiente.

Recuei instintivamente até sentir as minhas costas baterem na cabeceira da cama, o corpo inteiro entrando em alerta.

— Tu tá na minha casa, Melissa. Para de tremer. Eu não caço quem já tá no meu ninho.

A frase não soou como conforto.

Soou como regra.

O choque de realidade veio com força.

Não era só o quarto. Não era só a cama. Era o nome dele. A reputação. O perigo que eu sempre ouvi no salão, entre uma escova e outra, enquanto fazia unhas e ouvia histórias que nunca terminavam bem.

E eu, era só uma trabalhadora. Recém-saída de um relacionamento quebrado.

Escorpião percebeu quando os meus olhos marejaram. Em vez de aliviar, decidiu ir mais fundo.

— O chefe aqui é brabo... Mas tu não viu como ele fica mansinho quando eu tô por perto.

Fez uma pausa calculada.

— E agora que tu entrou no jogo, Melissa... a brincadeira ficou bem mais interessante.

O silêncio que se seguiu foi denso, quebrado apenas pelo som da minha pulsação martelando nos próprios ouvidos.

Com as mãos trêmulas, afastei a borda do lençol.

O fôlego escapou dos meus pulmões.

Minha pele, antes clara, agora era um mapa de marcas arroxeadas. Chupões evidentes, mordidas leves, sinais espalhados. Meu peito doía — uma sensibilidade profunda, latejante, denunciando o quanto eu havia sido tocada, sugada, estimulada.

— O que... O que aconteceu comigo? Como eu vim parar aqui? Eu não lembro de quase nada depois da terceira dose...

Escorpião não respondeu de imediato.

— Aconteceu que tu virou a dona do camarote, pequena. Mas aqui dentro... o show foi exclusivo.

Foi então que o flash me atingiu.

A luz baixa. O cheiro de perfume caro misturado com suor. A boca de Pesadelo, quente e faminta, descendo pelo meu pescoço enquanto as mãos dele me seguravam com firmeza.

Meu rosto queimou instantaneamente. A vermelhidão subiu do colo às bochechas quando senti a umidade sob o lençol. O latejar nos meus seios aumentou, e a mancha clara começou a se espalhar pelo tecido fino. O pânico da minha condição estava exposto diante dos dois homens mais perigosos do morro.

— Meu Deus... não... — sussurrei, tentando cruzar os braços sobre o peito.

Escorpião percebeu a mancha, a minha tentativa desesperada de me cobrir, e assobiou baixo. Sorriu de canto, piscando para Pesadelo, que permanecia imóvel, observando tudo.

— Relaxa, Mel. Tu pode não lembrar agora, mas fez um sucesso absurdo. Teve um "bebezão" aqui — apontou com o queixo para o chefe — que ficou completamente viciado em ti. O homem não largava teu peito por nada, parecia que tinha achado uma mina de ouro.

Travei.

Outro flash me atravessou: o som de Pesadelo gemendo baixo, a cabeça enterrada entre os meus seios, a forma como ele me apertava contra si enquanto bebia de mim com urgência, como se nada mais existisse.

— Ficou obcecado. Tu deu pra ele algo que nem sabia que precisava. Ele não te soltou a noite inteira.

Pesadelo não desmentiu.

Deu um passo lento em direção à cama. O olhar dele não tinha o deboche de Escorpião — tinha uma intensidade sombria, satisfeita. Parou diante de mim, a toalha baixa nos quadris, os olhos fixos nos meus, ignorando a mancha no lençol como se aquilo fosse natural... e excitante.

— Cala a boca, Escorpião! — o grito ecoou como um tiro, fazendo eu pular.

Me encolhi, o corpo reagindo antes da mente. O silêncio que veio depois foi ainda pior.

Vergonha. Medo. Exposição.

Num impulso desesperado, tentei fugir.

Saltei da cama esquecendo, por um segundo, que estava nua. O riso baixo e apreciativo de Escorpião voltou, enquanto o olhar de Pesadelo escurecia perigosamente.

— Eu... eu preciso ir embora. Me desculpa, por favor. Eu não queria... eu s... eu vou pegar minhas roupas e sumir daqui.

Catava as peças do chão com movimentos desordenados, mãos trêmulas. Mal consegui vestir a calcinha quando senti o impacto.

Uma mão grande se fechou ao redor do meu pulso.

Firme. Pesada. Impossível de ignorar.

— Tu não vai a lugar nenhum nesse estado.

Os olhos dele eram frios. Dominantes.

— Mas eu... eu tô atrasada... Eu trabalho...

Pesadelo virou o rosto lentamente na direção de Escorpião, que ainda exibia um sorriso preguiçoso.

— Se tu rir mais uma vez... eu te mando resolver problema na Baixa. E a bala não vai perguntar teu nome.

Depois, voltou o olhar para mim.

— Para de lutar. Tu só sai daqui quando eu disser que pode.

Algo se quebrou dentro de mim.

Naquela noite, eu não tinha perdido apenas parte da memória. Tinha atravessado uma linha invisível

E agora estava presa no centro de um jogo que não sabia jogar... nem como sair.

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