Capítulo 3 Era pra esquecer
Melissa
Senti o oxigênio faltar.
Não era apenas o medo do que eles poderiam fazer, mas a consciência brutal de que, por uma noite, eu tinha perdido as rédeas da própria vida para acordar como figurante no enredo deles. A pergunta martelava na minha cabeça junto com a enxaqueca do gim: Onde foi que eu me perdi?
Lembrei da voz de Geovanna no baile: — Esquece o Renan, Mel. Bebe que passa.
Passou. Passou da conta, passou do limite e passou do portão principal da fortaleza do morro. Renan, com suas humilhações disfarçadas, agora parecia um fantasma insignificante perto dos dois gigantes de carne, osso e pólvora que me cercavam.
— Eu preciso ir embora. Tenho horário no salão. Eu não... eu não sou dessas. Eu só bebi demais.
O silêncio de Pesadelo foi pior que um grito. Ele me analisava com aquele olhar clínico de quem decide o destino de uma carga ou de uma vida. Não havia pressa. No mundo dele, o tempo corria de acordo com a sua vontade.
— Ninguém aqui te chamou de "dessas", garota. Mas baixa o tom. Não tenta tratar o que aconteceu aqui como se fosse um erro de conta.
— Então finge que foi! — disparei, o desespero vencendo o juízo. — Esquece. Eu esqueço. Vocês esquecem. Cada um segue o seu caminho e a gente faz de conta que eu nunca cruzei essa porta. Pode ser?
Pesadelo deu um passo à frente, a aura de perigo se fechando sobre mim.
— Tu fala muita merda pra quem acordou sob o meu teto. Esquecer? Tu acha que eu sou moleque? Que eu trago qualquer uma pra minha cama pra depois fingir demência?
Em vez de me encolher, o resto de dignidade que eu ainda possuía — aquela que Renan quase tinha aniquilado — reagiu. Eu sustentei o olhar, mesmo com o queixo tremendo.
— E tu fala muito pra quem não perguntou se eu queria estar aqui quando o efeito do álcool passasse — devolvi, a voz trêmula, mas carregada de um desafio que gelou o quarto.
O ar estagnou. Escorpião, que até então assistia à cena como quem vê um filme, soltou uma gargalhada curta e seca, batendo palmas lentas.
— Caralho, Pesadelo... eu não te disse? A morena tem disposição. Faz tempo que ninguém cospe fogo na tua frente desse jeito. Gostei.
Pesadelo estreitou os olhos. Ele sentia o meu tremor, via o pânico nas minhas pupilas, mas reconheceu a minha fibra. Não era acostumado com resistência, mas a minha audácia, em vez de gerar fúria, gerou um respeito sombrio.
Ele abriu a mão lentamente, libertando o meu pulso como quem escolhe conceder uma trégua.
Não perdi um segundo. Vesti-me com movimentos rápidos, a pele ainda ardendo onde as marcas da noite anterior gritavam. Peguei a bolsa como se fosse um escudo.
— Eu já vou — anunciei, já perto da porta.
— Vai — Pesadelo confirmou, a voz agora num tom de comando absoluto. — Mas não vai descer a pé.
— Não precisa. Eu conheço o caminho — respondi depressa, querendo apenas desaparecer.
— Não foi um pedido, Melissa — Escorpião interveio, agora sério, o sorriso de lado ainda presente, mas os olhos fixos em mim. — Não faz desfeita pro dono da porra toda logo cedo. É ruim pra tua saúde.
Senti o sangue gelar quando vi Pesadelo pegar o rádio sobre a mesa, ao lado de um carregador de fuzil e dois celulares. Apertou o botão e deu a ordem curta, sem tirar os olhos de mim.
— Pega o Corolla preto. Vai descer uma convidada minha agora. Deixa ela na porta do salão. Ninguém encosta, ninguém olha. Se ela reclamar de um vento, a culpa é tua. Copiou?
A resposta no rádio veio imediata: — Copiado, chefe. No aguardo.
Pesadelo guardou o rádio e cruzou os braços.
— Um dos meus te deixa lá. E acabou. Por enquanto.
Assenti, incapaz de formular outra frase. Saí do quarto quase correndo, o som dos meus próprios passos ecoando no corredor de granito. Eu queria acreditar que aquela manhã era o fim, mas o latejar em meus seios e o cheiro do perfume de Pesadelo e de Escorpião que ainda impregnava a minha pele diziam o contrário.
Uma linha invisível tinha sido cruzada. E no mundo deles, não existia caminho de volta. O caos só estava trocando de roupa.
(...)
O trajeto até a parte baixa foi um borrão de adrenalina e metal. Eu estava encolhida no banco de couro do Corolla preto, os vidros com película tão escura que o mundo lá fora parecia um filme em preto e branco. O motorista, um sujeito de poucas palavras com o rádio na cintura e um fuzil entre as pernas, não desviou os olhos da estrada.
Quando o carro parou exatamente na porta do Salão da Cleide, o barulho do motor potente fez o burburinho da rua cessar.
As clientes e as outras cabeleireiras pararam o que estavam fazendo. Ver aquele carro — um veículo que todos sabiam pertencer à escolta direta do Pesadelo — estacionar ali era sinal de problema ou de uma autoridade muito grande.
Desci com as pernas bambas. Quando a porta bateu e o carro arrancou, o silêncio no salão era ensurdecedor.
— Melissa? — Geovanna, minha melhor amiga, deixou o secador cair sobre a bancada, os olhos arregalados. — O que foi aquilo? Tu desceu no carro do homem?
— Não começa, Geo... por favor — murmurei, atravessando o salão como se estivesse caminhando sobre brasas.
Sentia os olhares cravados nas minhas costas. A fofoca ali corria mais rápido que o vento. Fui direto para o banheiro, tranquei a porta e encostei a testa no azulejo frio. Troquei de roupa, e a gola alta da blusa parecia me sufocar, mas era a única barreira entre o meu segredo e o julgamento do morro. No espelho, vi o meu próprio rosto
pálido e as marcas no pescoço que o corretivo mal conseguia disfarçar.
