Capítulo 4 Ela é minha

Pesadelo

O meu quarto ainda exalava o rastro dela. Um cheiro de baunilha e gim que brigava com o odor de pólvora e tabaco que costumava dominar todo o ambiente.

Escorpião estava jogado na poltrona de couro, girando um canivete entre os dedos com uma habilidade que quase parecia hipnótica. Ele me observava enquanto eu terminava de ajustar o coldre na cintura com toda a precisão que eu sempre exigia de mim mesmo.

— Tu não me engana com essa postura de gelo, Pesadelo — Escorpião soltou, a voz carregada daquela malícia que só ele tinha permissão de usar comigo. — Eu só trouxe a Melissa pra cá porque sabia que tu tava seco por ela há meses. Eu vi tua cara quando ela chegou no baile. Vi como tu ficou feliz ontem... e vi como tu olhou pra ela quando o sol bateu na cama. Ontem tu parecia um animal domado.

Parei de abotoar a calça. Minha mandíbula travou de imediato, e lancei sobre ele um olhar que teria feito qualquer outro homem se ajoelhar e pedir perdão.

— Tu fala demais, Escorpião. Limita tua função a observar o movimento e deixa que do meu desejo cuido eu — rosnei, sem a menor paciência. — Não fode.

Ele fechou o canivete com um estalo seco e levantou-se devagar. A expressão mudou para algo mais denso, e o tom de voz caiu uma oitava inteira.

— Só fica esperto, tá ligado? Eu deixei ela entrar na nossa relação porque a garota é de verdade. Trabalhadora, tem correria, tem família. Se fosse uma dessas marmitas de plantão que só querem o teu poder ou o meu brilho, eu já teria jogado pros leões há muito tempo.

Puxei um cigarro do maço e acendi com o isqueiro de ouro que reluziu sob a luz matinal. Traguei fundo, deixando a fumaça densa sair pelas minhas narinas.

— Eu sei quem ela é. Eu sei o peso dela — respondi, a voz agora bem menos ríspida, quase admitindo uma vulnerabilidade que nunca combinava com o fuzil encostado ali na parede.

Caminhei até o canto da cama para pegar o meu rádio, e ao me abaixar, algo claro escondido sob o móvel chamou a minha atenção. Estiquei o braço e resgatei uma peça de renda delicada, pequena demais para um quarto cheio de sombras como o meu.

Era o sutiã de Melissa.

O tempo pareceu congelar ali. Ao sentir a textura fina da renda contra os meus dedos calejados, os flashes da noite me atingiram como um tiro de fuzil: o som dos seus gemidos abafados, a doçura que provei com uma urgência que eu nunca tinha sentido na vida, a forma como ela se arqueava sob o meu corpo, pedindo por mais sem precisar dizer uma única palavra.

Uma risada curta escapou pelos meus lábios. Não era de deboche. Era a risada de quem finalmente tinha encontrado algo valioso no meio de tanto lixo.

— Esqueceu a armadura, foi? — Escorpião riu ao ver a peça na minha mão. — E, Pesadelo... pelo visto, a gente não vai conseguir deixar essa morena em paz tão cedo. Ela deixou o sinal aqui.

Dobrei a renda com todo o cuidado do mundo e guardei-a no bolso interno da minha jaqueta, bem perto do meu peito.

— Deixa ela pensar que esqueceu. Mas ela já tá marcada. E tu sabe muito bem...

o que é meu, ninguém encosta.

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